
Pesquisa com 4.280 pares em quatro municípios paulistas identificou relações entre os perfis de uso de álcool e outras drogas nas duas gerações. Estilo parental que combina acolhimento, acompanhamento e limites consistentes esteve associado a menor probabilidade de poliuso entre jovens.
Categoria: Prevenção ao uso de álcool e outras drogas | EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas
Os padrões de consumo de álcool e outras drogas observados entre responsáveis podem estar associados aos comportamentos dos adolescentes, mas não determinam o futuro dos jovens. Essa é uma das principais mensagens de um estudo conduzido por pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 4.280 pares de adolescentes e responsáveis em quatro municípios paulistas.
Publicado em março de 2026 na revista Addictive Behaviors, o trabalho também identificou que práticas parentais podem modificar parte dessa associação. Entre elas, destacou-se o estilo que combina vínculo afetivo, atenção às necessidades dos adolescentes, supervisão e limites consistentes. A pesquisa foi divulgada pela Agência FAPESP em fevereiro de 2026.
Os resultados ajudam a discutir como a convivência familiar pode participar da prevenção, mas precisam ser interpretados com cautela: a pesquisa identificou associações entre perfis de consumo, não uma relação de causa e efeito. Ter responsáveis que consomem substâncias não significa que os filhos necessariamente farão o mesmo; da mesma forma, a abstinência dos adultos não é garantia absoluta de que os adolescentes nunca experimentarão álcool ou outras drogas.
Leia a divulgação da Agência FAPESP.
Pesquisa analisou perfis de consumo de adolescentes e responsáveis
O artigo, intitulado Does the apple fall far from the tree? When parenting styles disrupt the intergenerational pattern of substance use, foi baseado em dados coletados entre 2023 e 2024 nos municípios paulistas de Cordeirópolis, Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim. A idade média dos adolescentes participantes era de aproximadamente 14,7 anos. A investigação integrou a etapa diagnóstica de um projeto mais amplo de prevenção comunitária do consumo de álcool entre jovens, antes da implementação da intervenção.
Os pesquisadores analisaram informações relacionadas ao consumo de álcool, episódios de consumo excessivo, tabaco, cannabis e cigarros eletrônicos. Em vez de examinar cada substância de forma isolada, identificaram perfis gerais tanto entre os responsáveis quanto entre os adolescentes: abstinência ou consumo muito baixo; consumo predominantemente relacionado ao álcool; e uso de múltiplas substâncias, também chamado de poliuso.
Essa abordagem permite observar diferentes combinações de comportamento. Uma pessoa cujo padrão está principalmente relacionado ao álcool, por exemplo, não necessariamente apresenta o mesmo perfil de alguém que combina várias substâncias.
Embora o estudo tenha utilizado a Análise de Transição Latente, isso não significa que os pesquisadores tenham acompanhado a mudança de comportamento de cada adolescente ao longo de vários anos. A análise examinou associações entre os perfis dos responsáveis e dos jovens. Portanto, os resultados ajudam a compreender padrões intergeracionais, mas não demonstram, por si só, que o consumo dos pais tenha causado o consumo dos filhos.
O que significam os percentuais de 24%, 28% e 89%
Entre os resultados divulgados, três percentuais chamaram atenção. Eles correspondem a estimativas do modelo para os grupos analisados e não devem ser tratados como riscos universais aplicáveis a todas as famílias brasileiras.
Quando os responsáveis estavam no perfil de consumo predominantemente relacionado ao álcool, o modelo estimou 24% de probabilidade de os adolescentes pertencerem ao perfil de consumo de álcool. Para o perfil de uso de múltiplas substâncias entre os jovens, a probabilidade estimada foi de 6%.
Nos casos em que os responsáveis foram classificados no perfil de consumo de múltiplas substâncias, a probabilidade estimada de os adolescentes integrarem esse mesmo perfil foi de 28%. A probabilidade de pertencerem ao perfil predominantemente relacionado ao álcool foi de 17%.
Já entre os responsáveis classificados no perfil de abstinência, o modelo estimou que 89% dos adolescentes estavam no perfil correspondente de abstinência ou consumo muito baixo. Esse dado indica uma associação expressiva, mas não significa que a abstinência dos adultos garanta que os filhos nunca experimentarão substâncias.
A conclusão é que os perfis familiares de consumo estão relacionados aos dos adolescentes, mas essa relação não é determinística. O consumo entre os responsáveis não define, sozinho, o comportamento dos jovens.
Sanchez et al., 2026 — Addictive Behaviors |
Agência FAPESP.
Como o ambiente familiar pode influenciar escolhas
A relação entre gerações não deve ser entendida como uma simples cópia do comportamento dos adultos. Convivência, normas familiares, acesso às substâncias, vínculos afetivos e condições sociais e individuais podem participar desse processo.
Crianças e adolescentes aprendem observando os adultos de referência. Se o álcool aparece repetidamente como forma de relaxar, lidar com o estresse, celebrar conquistas ou enfrentar frustrações, os jovens podem incorporar essa associação à maneira como compreendem a regulação das emoções e a vida social. Isso não significa que todo adulto que consome álcool esteja ensinando o filho a beber: contexto, frequência, quantidade, consequências e a maneira como o tema é tratado também importam.
A exposição frequente pode ainda contribuir para que o consumo pareça comum ou pouco preocupante. A percepção dos adolescentes não é construída apenas por conversas explícitas: o que observam em reuniões familiares, a forma como os adultos falam sobre episódios de embriaguez e a disponibilidade de substâncias em casa também podem influenciá-la.
Regras claras e supervisão são parte desse cenário. No Brasil, a Lei nº 13.106/2015 criminaliza vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar bebida alcoólica a crianças e adolescentes, inclusive gratuitamente. A prevenção familiar envolve, portanto, não apenas falar sobre riscos, mas também estabelecer limites concretos sobre acesso e situações de consumo.
Texto da Lei nº 13.106/2015.
Vínculos marcados por escuta, disponibilidade e acompanhamento podem criar melhores condições para que adolescentes compartilhem dúvidas, reconheçam situações de risco e procurem ajuda. Esses fatores não eliminam todos os riscos, mas podem contribuir para a identificação precoce de problemas e para a construção de alternativas ao uso de substâncias diante de conflitos, frustrações ou pressão social.
Estilo parental democrático combinou acolhimento e limites
Além de identificar associações entre perfis de consumo, os pesquisadores observaram que o estilo parental pode modificar essa relação. O estilo chamado de autoritativo, também descrito como democrático em algumas abordagens, teve papel protetor especialmente relevante em relação ao poliuso entre adolescentes, inclusive em famílias nas quais os responsáveis estavam em perfis de maior risco.
Esse estilo combina duas dimensões: responsividade — acolhimento, disponibilidade e atenção às necessidades do jovem — e exigência comportamental — limites, supervisão e expectativas consistentes. Na prática, significa ouvir e acolher o adolescente sem abrir mão da responsabilidade educativa.
O estudo também encontrou resultados distintos para o estilo autoritário, caracterizado por maior controle e menor abertura ao diálogo. Esse estilo esteve associado a menor probabilidade de poliuso, mas também a maior transmissão específica do padrão relacionado ao álcool. O achado não deve ser interpretado como recomendação de uma educação punitiva; mostra que diferentes estilos podem estar relacionados de maneiras distintas a cada perfil de consumo.
Os estilos permissivo e negligente não apresentaram os mesmos efeitos protetores identificados para o estilo autoritativo. Ainda assim, essas categorias são modelos científicos para estudar tendências: nenhuma família se resume integralmente a uma classificação, e os resultados não permitem prever o destino de um adolescente individualmente.
O ponto central é que vínculo afetivo e limites consistentes não são opostos. A prevenção pode se beneficiar quando ambos fazem parte da relação familiar.
Artigo científico.
Revisão aponta influência de fatores dentro e fora de casa
Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Family Theory & Review amplia essa compreensão. Após examinar milhares de registros bibliográficos, os autores incluíram 24 estudos sobre fatores que podem modificar a relação entre o uso de substâncias pelos responsáveis e o consumo entre adolescentes.
A revisão identificou fatores como coesão familiar, acompanhamento parental, vínculo entre responsáveis e jovens, saúde mental, comunicação e intervenções na escola ou em outros ambientes sociais. Os fatores de proteção, portanto, não se limitam à família: competências individuais, relações sociais positivas, ambientes escolares saudáveis e oportunidades de desenvolvimento também podem ajudar adolescentes mesmo quando há consumo problemático entre os responsáveis.
Essa perspectiva evita uma explicação simplista. O consumo dos adultos importa, mas não é o único elemento envolvido no desenvolvimento de comportamentos de risco.
Rodríguez-Ruiz et al., 2025.
O que famílias podem fazer
A prevenção não depende de uma conversa isolada ou apenas da proibição. Ela pode envolver informação, vínculo, supervisão e coerência nas atitudes dos adultos.
Uma das medidas é refletir sobre o próprio padrão de consumo: com que frequência ocorre, se está associado ao estresse, se há episódios de intoxicação e que mensagens são transmitidas aos filhos, intencionalmente ou não. Quando existe uso problemático ou dependência, buscar tratamento é uma forma de cuidado consigo e com a família. Isso não significa culpabilizar responsáveis, mas reconhecer que o cuidado com os adultos também pode integrar a prevenção dirigida aos jovens.
As regras precisam ser claras, compreensíveis e aplicadas com consistência. No caso de álcool e outras drogas, isso inclui não fornecer substâncias a menores, não tratar a embriaguez como motivo de orgulho e não minimizar comportamentos perigosos. É possível manter limites firmes sem humilhação, ameaça ou violência.
Acompanhar os adolescentes também é importante: conhecer seus amigos, saber onde estão e manter comunicação frequente pode ajudar a perceber mudanças. O acompanhamento deve ser proporcional à idade e às circunstâncias. Controle excessivo, invasão indiscriminada de privacidade e punições desproporcionais podem prejudicar o diálogo; a ausência completa de supervisão também pode deixar riscos sem identificação. O objetivo é que o jovem se sinta acompanhado e possa procurar ajuda, não apenas evitar ser descoberto.
As conversas sobre substâncias devem oferecer informações compreensíveis sobre efeitos, riscos, pressão dos pares e consequências do consumo, considerando as dúvidas reais dos adolescentes. Abordagens exclusivamente moralizantes ou baseadas no medo podem não responder às motivações envolvidas, que podem incluir curiosidade, pertencimento, sofrimento emocional ou tentativa de lidar com ansiedade.
Isolamento persistente, queda expressiva no rendimento escolar, mudanças bruscas de comportamento, episódios recorrentes de intoxicação ou sofrimento emocional importante merecem atenção. Esses sinais, isoladamente, não comprovam um transtorno por uso de substâncias, mas, se persistirem ou aparecerem em conjunto, justificam avaliação por profissionais habilitados.
Prevenção baseada em evidências exige avaliação
Os Padrões Internacionais de Prevenção do Uso de Drogas, publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), destacam intervenções estruturadas para desenvolver habilidades parentais, fortalecer vínculos familiares e promover acompanhamento e disciplina adequados. O documento também diferencia programas organizados de ações pontuais ou realizadas sem preparo suficiente.
Ao mesmo tempo, a literatura tem limitações. Uma revisão Cochrane de 2019, que reuniu 46 estudos randomizados sobre programas familiares de prevenção ao consumo de álcool entre jovens, concluiu que as evidências disponíveis eram de baixa ou muito baixa qualidade e não permitiam demonstrar benefícios gerais consistentes para todos os programas avaliados.
Isso não significa que o trabalho com famílias seja inútil. Indica que os resultados podem depender do tipo e da qualidade da intervenção, do contexto e dos desfechos considerados. Prevenção baseada em evidências não promete eliminar todos os problemas: envolve selecionar, aplicar e avaliar ações de forma crítica.
OMS/UNODC — Padrões Internacionais de Prevenção |
Revisão Cochrane, 2019.
Formação também faz parte da prevenção
A atuação preventiva exige profissionais capazes de interpretar evidências sem exagerar conclusões, compreender fatores individuais e sociais e reconhecer a complexidade das relações familiares. Na área de álcool e outras drogas, isso inclui diferenciar experimentação, padrões de risco e possíveis transtornos por uso de substâncias; identificar fatores de proteção; orientar familiares; reconhecer quando é necessário encaminhar para atendimento; e evitar práticas que reforcem estigmas ou culpabilização.
A formação também deve esclarecer os limites de atuação. A capacitação educativa não substitui avaliação médica ou psicológica, não habilita participantes a exercer práticas para as quais não estejam qualificados e não dispensa encaminhamento quando há necessidade de tratamento especializado.
O EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas — busca contribuir para a disseminação de conhecimento e a qualificação de profissionais, estudantes e pessoas interessadas na prevenção e no cuidado relacionado ao uso de substâncias. Transformar evidências em prática exige compreender o que cada pesquisa demonstra, reconhecer o que ainda não consegue responder e aplicar esse conhecimento com responsabilidade junto a pessoas e famílias.
Ciclo intergeracional não é sentença
O estudo da Unifesp reforça que os padrões de consumo dos responsáveis estão associados aos perfis observados entre adolescentes, mas também indica que essa relação não é inevitável e pode ser modificada por práticas parentais. A associação entre abstinência dos responsáveis e abstinência ou consumo muito baixo entre jovens não deve se transformar em julgamento moral contra famílias em que há uso de substâncias.
Responsáveis que enfrentam dificuldades com álcool ou outras drogas também precisam de informação, acolhimento, tratamento e apoio. A presença de um problema não determina, isoladamente, o futuro dos filhos. A prevenção envolve reduzir exposições de risco, fortalecer vínculos, estabelecer limites consistentes, estimular a comunicação e identificar situações que exigem cuidado profissional.
Essa responsabilidade tampouco cabe exclusivamente aos pais. Escola, serviços de saúde, comunidade, políticas públicas e redes de apoio também têm papéis importantes. A ciência pode orientar a prevenção não para determinar o destino de uma família, mas para ampliar suas possibilidades de proteção, cuidado e mudança.
Artigo de divulgação científica. Não substitui avaliação clínica, atendimento especializado ou consulta às publicações científicas originais.
Fontes e referências
- Sanchez, Z. et al. “Does the apple fall far from the tree? When parenting styles disrupt the intergenerational pattern of substance use.” Addictive Behaviors, 174, 108567, 2026.
DOI: 10.1016/j.addbeh.2025.108567. - Agência FAPESP. “Parents’ alcohol and drug use influences their children’s consumption, research shows.” Publicado em 13 de fevereiro de 2026.
Acessar reportagem. - Rodríguez-Ruiz, J. et al. “The influence of parental substance use on adolescent substance use: A systematic review of moderators.” Journal of Family Theory & Review, 17(3), 721–741, 2025.
DOI: 10.1111/jftr.12620. - World Health Organization e United Nations Office on Drugs and Crime. International Standards on Drug Use Prevention. Second Edition, 2018.
Publicação oficial. - Gilligan, C. et al. “Family-based prevention programmes for alcohol use in young people.” Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019, CD012287.
DOI: 10.1002/14651858.CD012287.pub2. - Brasil. Lei nº 13.106, de 17 de março de 2015. Altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para criminalizar o fornecimento de bebida alcoólica a crianças e adolescentes.
Texto legal oficial.


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