Grupos terapêuticos de WhatsApp e codependência: apoio ou sofrimento repetido?

Arte editorial sobre grupo terapêutico de WhatsApp: celular com conversa digital abstrata, adultos em cenas separadas, livro aberto com cérebro colorido e fita multicolorida, simbolizando empatia e mediação profissional.

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Um grupo terapêutico pode aproximar pessoas com vivências diferentes e ampliar a empatia. Mas, sem mediação, a partilha pode virar uma avalanche de histórias tristes, sem abrir caminhos.

Quando alguém que amamos usa álcool ou outras drogas, é comum passar o dia pensando no que essa pessoa está fazendo. Será que usou? Onde está? Vai cumprir o que prometeu? Conversar com quem entende essa preocupação pode trazer alívio e acolhimento.

Este artigo trata especificamente de grupos terapêuticos conduzidos pelo WhatsApp, com mediação profissional.

Mas existe uma pergunta importante: depois de participar do grupo, você fica mais tranquilo e consegue voltar um pouco para si ou sai ainda mais preocupado, querendo vigiar, ligar ou tentar resolver a vida do outro?

A palavra codependência é usada por muitas pessoas para reconhecer padrões como viver em função de alguém, tentar controlar o que essa pessoa faz, deixar as próprias necessidades de lado ou sentir culpa ao colocar limites. Não é preciso transformar essa palavra em rótulo. Ela pode servir como um convite para olhar com carinho para o que está acontecendo com você também.

Uma experiência de grupo para desenvolver empatia

Em 2026, conduzi no EducaDQ um grupo terapêutico pelo WhatsApp que reunia pessoas com transtorno por uso de substâncias (TUS) e familiares que se reconheciam em padrões de codependência. Os participantes não eram familiares uns dos outros: eram pessoas sem vínculo entre si, cada qual com sua própria história.

O objetivo daquela experiência era um só: desenvolver empatia entre esses dois públicos. Ao compartilharem dores a partir de lugares diferentes, podiam escutar a experiência de alguém que não fazia parte da própria família. Na minha observação como coordenador, essa escuta abriu, em alguns momentos, um olhar novo sobre o próprio familiar.

Este artigo compartilha um relato da experiência de condução e do que pude observar no grupo. Para preservar a privacidade dos participantes, não reproduzo falas ou histórias individuais nem dados que possam identificá-los.

O que a trajetória do grupo permite perceber

Ao acompanhar as conversas ao longo dos meses, percebi uma trajetória na forma de conversar. No início, a condução se concentrava em acolhimento, regras e explicações mais gerais sobre emoções, gatilhos, controle e responsabilidade.

Com o tempo, a psicoeducação foi sendo trazida para perguntas mais próximas do cotidiano: o que essa situação desperta em mim? O que está ao meu alcance? Que reação minha se repete? O que posso fazer por mim hoje? Em alguns momentos, participantes retomaram ideias com palavras próprias e reconheceram padrões ou limites. A condução também procurava evitar que os dois públicos fossem colocados em lados opostos e convidava o grupo a considerar a experiência do outro.

Nessa experiência, a psicoeducação foi se tornando uma linguagem para olhar a própria vida. Nomear emoções, reconhecer padrões e perguntar o que está ao alcance de cada um abriu espaço para que a conversa não ficasse apenas no que o outro faz, mas também no que cada pessoa sente, pensa e pode escolher.

Ao observar os grupos digitais que fazem parte da sua vida hoje, vale perguntar: as conversas ampliam sua compreensão e ajudam você a enxergar os próprios padrões, ou mantêm todos voltando às mesmas histórias de dor e preocupação?

Quando a conversa fica sempre em torno do outro

Na experiência de grupo que descrevo, essa diferença ficou muito clara: a pessoa com TUS falava de si, do próprio uso e da própria recuperação. O familiar que se reconhecia na codependência falava do próprio sofrimento, mas organizava a narrativa em torno do outro: o que fazia, se usava, onde estava, o que prometia e o que poderia acontecer.

Essa diferença de foco é gigantesca: a pessoa com TUS coloca a própria recuperação no centro da fala; o familiar codependente mantém a conversa voltada à pessoa que ocupa o centro da sua preocupação. Uma fala de si e do que faz pela própria recuperação; a outra, do que o outro faz ou poderia fazer. Perceber essa diferença ajuda a abrir espaço para que o familiar fale também de si.

Se você conhece cada detalhe da rotina de alguém, mas tem dificuldade de responder “o que eu preciso?” ou “o que gostaria de fazer por mim?”, talvez esteja faltando espaço para você nessa conversa. O familiar também precisa ser escutado como pessoa, não somente como alguém que acompanha a vida de outra pessoa.

Acolher não é mandar você parar de se preocupar. É reconhecer a dor e, aos poucos, abrir espaço para perguntas como: O que isso desperta em mim? O que está ao meu alcance hoje? Do que preciso para me cuidar?

O alívio pode virar um ciclo

Quando você fica ansioso, vigiar, telefonar, discutir ou pedir conselhos pode trazer alívio por um momento. Receber respostas e acolhimento no grupo também pode fazer você se sentir menos sozinho. Esse alívio é real e pode ser importante.

O cérebro aprende com aquilo que fazemos repetidamente e com aquilo que, mesmo por pouco tempo, nos traz alívio ou aceitação. Pesquisas de neurociência social mostram que a aprovação dos pares pode influenciar o que fazemos depois. Isso não quer dizer que codependência seja igual à dependência química, nem que um grupo cause um transtorno. Ajuda a entender, porém, por que uma conversa que sempre volta ao mesmo assunto pode manter a atenção presa nele.

Às vezes, a pessoa sai do grupo mais acolhida, mas também mais agitada e com vontade de continuar acompanhando cada passo do familiar. Se isso se repete, vale observar o efeito da conversa em você. Um grupo pode oferecer companhia e, ainda assim, não estar ajudando você a sair do mesmo ciclo.

Sem mediação profissional, um grupo terapêutico pode se tornar uma competição por sofrimento

Mediação profissional não significa calar quem está sofrendo. Primeiro, a pessoa é acolhida. Depois, alguém ajuda a conversa a encontrar um rumo.

Uso a expressão “competição por sofrimento” para falar de uma dinâmica que nasce da identificação, não de uma disputa consciente. Um familiar que se reconhece na codependência conta a própria dor, os sentimentos que está vivendo e a preocupação com alguém que ama. Outro familiar se reconhece naquela fala e sente vontade de contar sua história. Depois, uma terceira pessoa pode fazer o mesmo. Em um grupo grande, uma partilha pode chamar a outra até se formar uma avalanche de histórias tristes.

Isso não significa que alguém esteja tentando competir ou mostrar que sofre mais. A dor é real, e cada pessoa está procurando acolhimento. O risco é a conversa passar de uma história para a seguinte sem que o grupo consiga organizar o que se repete e oferecer psicoeducação e direcionamento.

Na minha condução, eu procurava acolher e, em seguida, organizar o que aparecia nas falas. Nomeava temas comuns: o medo do que poderia acontecer, a dor pelo que já estava acontecendo e a dificuldade de se enxergar para além do papel de cuidadora. A psicoeducação ajudava a compreender esses movimentos. Depois, perguntas simples devolviam a atenção à própria pessoa: “O que você imagina que vai acontecer?”, “A preocupação evitou isso ou consumiu sua energia?” e “O que você pode fazer por si hoje?”.

Esse direcionamento não apaga a história de ninguém. Ele ajuda a transformar a identificação em compreensão, para que o grupo não fique apenas passando de uma história triste para outra.

A expressão que uso é pessoal, não um diagnóstico nem uma afirmação de que as pessoas estejam comparando dores. Pesquisas sobre co-ruminação estudam conversas que voltam repetidamente aos mesmos problemas, mas foram feitas sobretudo com jovens e amizades. Elas não provam que a mesma dinâmica aconteça em todos os grupos de WhatsApp de adultos; ajudam a lembrar que a forma da conversa pode importar.

Como perceber se o grupo está ajudando você

O tempo que você permanece no grupo, sozinho, não mostra se ele está ajudando. Vale observar se a condução terapêutica permite que você seja acolhido, compreenda melhor o que sente e, aos poucos, volte a atenção para sua própria vida.

Depois de uma conversa, pergunte a si mesmo:

  • Saio mais calmo ou mais ansioso para descobrir o que a outra pessoa está fazendo?
  • Consegui falar sobre mim, meus limites e minhas necessidades?
  • A conversa me ajuda a fazer escolhas próprias ou fico esperando que o outro mude?
  • Posso discordar ou fazer perguntas sem ser humilhado ou pressionado?
  • O grupo respeita o cuidado profissional e evita dar conselhos sobre remédios, diagnósticos ou situações que não conhece por inteiro?

Se, encontro após encontro, você volta à mesma história e sai carregando mais medo ou responsabilidade pelo outro, talvez seja hora de buscar também outro tipo de apoio. Isso não significa que você precisa sair do grupo de repente. Pode ser um sinal de que precisa de mais espaço para olhar para si, conversar com um profissional ou encontrar um grupo com uma condução mais adequada ao que vive agora.

Um grupo bem conduzido não precisa decidir se você deve ficar ou sair de uma relação, nem ensinar você a controlar a outra pessoa. Ele pode acolher sua experiência e ajudar você a reconhecer o que sente, o que precisa e quais limites são possíveis. Colocar limite não significa deixar de amar. Significa reconhecer que a recuperação do outro não está nas suas mãos e que sua vida também precisa de cuidado.

Privacidade e cuidado profissional

Se você precisa de acompanhamento além do grupo terapêutico, converse com um profissional de saúde mental ou procure a rede pública. Os CAPS e CAPS AD oferecem atendimento pelo SUS.

Também vale cuidar do que se compartilha no WhatsApp. A criptografia ajuda a proteger as mensagens durante o envio, mas não impede que alguém tire uma captura de tela ou encaminhe o que recebeu. Evite publicar dados pessoais, fotos ou detalhes que identifiquem você ou outra pessoa.

Em uma emergência de saúde, procure atendimento. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192.

Você não precisa deixar de apoiar alguém para começar a cuidar de si. E não precisa esperar que a outra pessoa mude para perguntar o que pode devolver um pouco de espaço, escolha e tranquilidade à sua própria vida.

Referências

  1. Behavioral and Neural Properties of Social Reinforcement Learning
  2. Co-Rumination Mediates Contagion of Internalizing Symptoms within Youths’ Friendships
  3. Online Support Seeking, Co-Rumination, and Mental Health in Adolescent Girls
  4. About End-to-End Encryption
  5. TIP 41: Substance Abuse Treatment: Group Therapy

Comentários

Uma resposta para “Grupos terapêuticos de WhatsApp e codependência: apoio ou sofrimento repetido?”

  1. Avatar de Antonio Conforti
    Antonio Conforti

    🙏

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