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Textos educativos e análises sobre dependência química, saúde mental, cuidado e formação.

  • Grupos terapêuticos de WhatsApp e codependência: apoio ou sofrimento repetido?

    Grupos terapêuticos de WhatsApp e codependência: apoio ou sofrimento repetido?

    Um grupo terapêutico pode aproximar pessoas com vivências diferentes e ampliar a empatia. Mas, sem mediação, a partilha pode virar uma avalanche de histórias tristes, sem abrir caminhos.

    Quando alguém que amamos usa álcool ou outras drogas, é comum passar o dia pensando no que essa pessoa está fazendo. Será que usou? Onde está? Vai cumprir o que prometeu? Conversar com quem entende essa preocupação pode trazer alívio e acolhimento.

    Este artigo trata especificamente de grupos terapêuticos conduzidos pelo WhatsApp, com mediação profissional.

    Mas existe uma pergunta importante: depois de participar do grupo, você fica mais tranquilo e consegue voltar um pouco para si ou sai ainda mais preocupado, querendo vigiar, ligar ou tentar resolver a vida do outro?

    A palavra codependência é usada por muitas pessoas para reconhecer padrões como viver em função de alguém, tentar controlar o que essa pessoa faz, deixar as próprias necessidades de lado ou sentir culpa ao colocar limites. Não é preciso transformar essa palavra em rótulo. Ela pode servir como um convite para olhar com carinho para o que está acontecendo com você também.

    Uma experiência de grupo para desenvolver empatia

    Em 2026, conduzi no EducaDQ um grupo terapêutico pelo WhatsApp que reunia pessoas com transtorno por uso de substâncias (TUS) e familiares que se reconheciam em padrões de codependência. Os participantes não eram familiares uns dos outros: eram pessoas sem vínculo entre si, cada qual com sua própria história.

    O objetivo daquela experiência era um só: desenvolver empatia entre esses dois públicos. Ao compartilharem dores a partir de lugares diferentes, podiam escutar a experiência de alguém que não fazia parte da própria família. Na minha observação como coordenador, essa escuta abriu, em alguns momentos, um olhar novo sobre o próprio familiar.

    Este artigo compartilha um relato da experiência de condução e do que pude observar no grupo. Para preservar a privacidade dos participantes, não reproduzo falas ou histórias individuais nem dados que possam identificá-los.

    O que a trajetória do grupo permite perceber

    Ao acompanhar as conversas ao longo dos meses, percebi uma trajetória na forma de conversar. No início, a condução se concentrava em acolhimento, regras e explicações mais gerais sobre emoções, gatilhos, controle e responsabilidade.

    Com o tempo, a psicoeducação foi sendo trazida para perguntas mais próximas do cotidiano: o que essa situação desperta em mim? O que está ao meu alcance? Que reação minha se repete? O que posso fazer por mim hoje? Em alguns momentos, participantes retomaram ideias com palavras próprias e reconheceram padrões ou limites. A condução também procurava evitar que os dois públicos fossem colocados em lados opostos e convidava o grupo a considerar a experiência do outro.

    Nessa experiência, a psicoeducação foi se tornando uma linguagem para olhar a própria vida. Nomear emoções, reconhecer padrões e perguntar o que está ao alcance de cada um abriu espaço para que a conversa não ficasse apenas no que o outro faz, mas também no que cada pessoa sente, pensa e pode escolher.

    Ao observar os grupos digitais que fazem parte da sua vida hoje, vale perguntar: as conversas ampliam sua compreensão e ajudam você a enxergar os próprios padrões, ou mantêm todos voltando às mesmas histórias de dor e preocupação?

    Quando a conversa fica sempre em torno do outro

    Na experiência de grupo que descrevo, essa diferença ficou muito clara: a pessoa com TUS falava de si, do próprio uso e da própria recuperação. O familiar que se reconhecia na codependência falava do próprio sofrimento, mas organizava a narrativa em torno do outro: o que fazia, se usava, onde estava, o que prometia e o que poderia acontecer.

    Essa diferença de foco é gigantesca: a pessoa com TUS coloca a própria recuperação no centro da fala; o familiar codependente mantém a conversa voltada à pessoa que ocupa o centro da sua preocupação. Uma fala de si e do que faz pela própria recuperação; a outra, do que o outro faz ou poderia fazer. Perceber essa diferença ajuda a abrir espaço para que o familiar fale também de si.

    Se você conhece cada detalhe da rotina de alguém, mas tem dificuldade de responder “o que eu preciso?” ou “o que gostaria de fazer por mim?”, talvez esteja faltando espaço para você nessa conversa. O familiar também precisa ser escutado como pessoa, não somente como alguém que acompanha a vida de outra pessoa.

    Acolher não é mandar você parar de se preocupar. É reconhecer a dor e, aos poucos, abrir espaço para perguntas como: O que isso desperta em mim? O que está ao meu alcance hoje? Do que preciso para me cuidar?

    O alívio pode virar um ciclo

    Quando você fica ansioso, vigiar, telefonar, discutir ou pedir conselhos pode trazer alívio por um momento. Receber respostas e acolhimento no grupo também pode fazer você se sentir menos sozinho. Esse alívio é real e pode ser importante.

    O cérebro aprende com aquilo que fazemos repetidamente e com aquilo que, mesmo por pouco tempo, nos traz alívio ou aceitação. Pesquisas de neurociência social mostram que a aprovação dos pares pode influenciar o que fazemos depois. Isso não quer dizer que codependência seja igual à dependência química, nem que um grupo cause um transtorno. Ajuda a entender, porém, por que uma conversa que sempre volta ao mesmo assunto pode manter a atenção presa nele.

    Às vezes, a pessoa sai do grupo mais acolhida, mas também mais agitada e com vontade de continuar acompanhando cada passo do familiar. Se isso se repete, vale observar o efeito da conversa em você. Um grupo pode oferecer companhia e, ainda assim, não estar ajudando você a sair do mesmo ciclo.

    Sem mediação profissional, um grupo terapêutico pode se tornar uma competição por sofrimento

    Mediação profissional não significa calar quem está sofrendo. Primeiro, a pessoa é acolhida. Depois, alguém ajuda a conversa a encontrar um rumo.

    Uso a expressão “competição por sofrimento” para falar de uma dinâmica que nasce da identificação, não de uma disputa consciente. Um familiar que se reconhece na codependência conta a própria dor, os sentimentos que está vivendo e a preocupação com alguém que ama. Outro familiar se reconhece naquela fala e sente vontade de contar sua história. Depois, uma terceira pessoa pode fazer o mesmo. Em um grupo grande, uma partilha pode chamar a outra até se formar uma avalanche de histórias tristes.

    Isso não significa que alguém esteja tentando competir ou mostrar que sofre mais. A dor é real, e cada pessoa está procurando acolhimento. O risco é a conversa passar de uma história para a seguinte sem que o grupo consiga organizar o que se repete e oferecer psicoeducação e direcionamento.

    Na minha condução, eu procurava acolher e, em seguida, organizar o que aparecia nas falas. Nomeava temas comuns: o medo do que poderia acontecer, a dor pelo que já estava acontecendo e a dificuldade de se enxergar para além do papel de cuidadora. A psicoeducação ajudava a compreender esses movimentos. Depois, perguntas simples devolviam a atenção à própria pessoa: “O que você imagina que vai acontecer?”, “A preocupação evitou isso ou consumiu sua energia?” e “O que você pode fazer por si hoje?”.

    Esse direcionamento não apaga a história de ninguém. Ele ajuda a transformar a identificação em compreensão, para que o grupo não fique apenas passando de uma história triste para outra.

    A expressão que uso é pessoal, não um diagnóstico nem uma afirmação de que as pessoas estejam comparando dores. Pesquisas sobre co-ruminação estudam conversas que voltam repetidamente aos mesmos problemas, mas foram feitas sobretudo com jovens e amizades. Elas não provam que a mesma dinâmica aconteça em todos os grupos de WhatsApp de adultos; ajudam a lembrar que a forma da conversa pode importar.

    Como perceber se o grupo está ajudando você

    O tempo que você permanece no grupo, sozinho, não mostra se ele está ajudando. Vale observar se a condução terapêutica permite que você seja acolhido, compreenda melhor o que sente e, aos poucos, volte a atenção para sua própria vida.

    Depois de uma conversa, pergunte a si mesmo:

    • Saio mais calmo ou mais ansioso para descobrir o que a outra pessoa está fazendo?
    • Consegui falar sobre mim, meus limites e minhas necessidades?
    • A conversa me ajuda a fazer escolhas próprias ou fico esperando que o outro mude?
    • Posso discordar ou fazer perguntas sem ser humilhado ou pressionado?
    • O grupo respeita o cuidado profissional e evita dar conselhos sobre remédios, diagnósticos ou situações que não conhece por inteiro?

    Se, encontro após encontro, você volta à mesma história e sai carregando mais medo ou responsabilidade pelo outro, talvez seja hora de buscar também outro tipo de apoio. Isso não significa que você precisa sair do grupo de repente. Pode ser um sinal de que precisa de mais espaço para olhar para si, conversar com um profissional ou encontrar um grupo com uma condução mais adequada ao que vive agora.

    Um grupo bem conduzido não precisa decidir se você deve ficar ou sair de uma relação, nem ensinar você a controlar a outra pessoa. Ele pode acolher sua experiência e ajudar você a reconhecer o que sente, o que precisa e quais limites são possíveis. Colocar limite não significa deixar de amar. Significa reconhecer que a recuperação do outro não está nas suas mãos e que sua vida também precisa de cuidado.

    Privacidade e cuidado profissional

    Se você precisa de acompanhamento além do grupo terapêutico, converse com um profissional de saúde mental ou procure a rede pública. Os CAPS e CAPS AD oferecem atendimento pelo SUS.

    Também vale cuidar do que se compartilha no WhatsApp. A criptografia ajuda a proteger as mensagens durante o envio, mas não impede que alguém tire uma captura de tela ou encaminhe o que recebeu. Evite publicar dados pessoais, fotos ou detalhes que identifiquem você ou outra pessoa.

    Em uma emergência de saúde, procure atendimento. No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192.

    Você não precisa deixar de apoiar alguém para começar a cuidar de si. E não precisa esperar que a outra pessoa mude para perguntar o que pode devolver um pouco de espaço, escolha e tranquilidade à sua própria vida.

    Referências

    1. Behavioral and Neural Properties of Social Reinforcement Learning
    2. Co-Rumination Mediates Contagion of Internalizing Symptoms within Youths’ Friendships
    3. Online Support Seeking, Co-Rumination, and Mental Health in Adolescent Girls
    4. About End-to-End Encryption
    5. TIP 41: Substance Abuse Treatment: Group Therapy
  • Codependência: quando tentar controlar o outro torna a própria vida incontrolável

    Codependência: quando tentar controlar o outro torna a própria vida incontrolável

    Quando alguém que amamos enfrenta um transtorno por uso de substâncias (TUS), é compreensível querer impedir que essa pessoa sofra ou volte a usar. O problema começa quando a preocupação se transforma na tentativa de dirigir suas escolhas: monitorar horários, conferir sinais, insistir em explicações, resolver consequências ou acreditar que, se fizermos tudo certo, conseguiremos evitar qualquer crise.

    Esse esforço pode ocupar cada vez mais espaço. A rotina passa a depender do comportamento do outro. A família vive em alerta, e o próprio bem-estar fica para depois. Surge, então, um paradoxo doloroso: na tentativa de controlar uma vida que não está sob nosso comando, a nossa própria vida pode se tornar cada vez mais difícil de conduzir.

    O convite deste artigo é olhar para esse movimento e distinguir duas coisas: reconhecer que não controlamos as escolhas de outra pessoa e reconhecer a responsabilidade que temos sobre as nossas próprias escolhas.

    O que significa admitir impotência

    A palavra “impotência” pode soar como desistência. Aqui, significa reconhecer um limite real: eu não consigo decidir pelo outro, controlar o que ele sente ou garantir o resultado de sua recuperação. Isso não quer dizer que nada possa ser feito. Posso expressar preocupação, oferecer ajuda, procurar orientação, proteger minha segurança e escolher como participo da relação.

    Em outras palavras, não sou responsável pelo uso ou pelas escolhas da outra pessoa. Sou responsável por observar minhas reações, reconhecer meus limites e responder pelo que faço. Admitir o que não controlo pode ser justamente o começo de recuperar a responsabilidade pelo que está ao meu alcance.

    A codependência não tem uma definição única e não é um diagnóstico formal listado no DSM. Neste texto, uso o termo para falar de padrões relacionais que podem envolver foco excessivo no outro, dificuldade de estabelecer limites e a sensação de ser responsável pelos problemas de outra pessoa. É uma forma de reflexão, não um rótulo para aplicar a si ou a alguém da família.

    Quando o controle torna a vida incontrolável

    Um ciclo possível ajuda a reconhecer o que acontece. Surge uma situação de incerteza, como não conseguir falar com alguém ou perceber que chegou alterado. Aparecem medo, raiva, culpa ou ansiedade. Para aliviar a tensão, o familiar liga repetidamente, cobra, encobre o ocorrido ou tenta resolver o problema. Por alguns instantes, pode sentir que está fazendo algo. Depois, porém, a preocupação retorna, junto com mais vigilância, cansaço e menos espaço para a própria vida.

    Esse ciclo não é igual em todas as famílias, nem explica sozinho uma situação. Serve para perguntar: o que acontece comigo quando não consigo controlar o que o outro está fazendo?

    Talvez você perceba que dorme mal, se afasta de amigos, abandona atividades importantes ou esconde a situação para preservar a imagem da família. Talvez pague dívidas repetidamente, invente desculpas ou se sinta culpado por não conseguir “salvar” alguém. Perceber esses sinais não prova que você seja codependente. Pode apenas mostrar que a preocupação está ocupando um espaço que também precisa de cuidado. A literatura sobre codependência descreve padrões de excesso de responsabilidade, preocupação persistente e dificuldades com limites; familiares que apoiam alguém com problemas de saúde mental ou uso de substâncias também podem sentir desgaste e precisam cuidar da própria saúde.

    O limite do controle é uma condição humana

    Essa questão não pertence apenas à codependência ou a uma irmandade. Convivemos o tempo todo com acontecimentos e decisões que não dependem exclusivamente de nós: o clima e a passagem do tempo; o trânsito, a política e a economia; o comportamento dos vizinhos e as escolhas dos filhos; desastres naturais, relacionamentos, a vida e a morte. Podemos nos preparar, planejar, estabelecer metas, combinar, pedir ajuda e influenciar situações. Ainda assim, não garantimos o resultado, porque ele também depende de fatores e pessoas fora do nosso comando. A frustração cresce quando confundimos planejamento com garantia.

    Por isso, admitir impotência não significa passividade. Significa reconhecer o limite entre o que não posso controlar e a parte pela qual posso responder. Não escolhemos tudo o que acontece nem todas as emoções que surgem. Nosso campo de ação mais próprio está na forma como interpretamos o que ocorre, agimos e respondemos, ainda que algumas reações apareçam automaticamente. A autorresponsabilidade é reconhecer essa parte sem fingir que controlamos o restante.

    Na tradição estoica, Epicteto convida a distinguir escolhas e julgamentos próprios dos acontecimentos externos e das decisões alheias. Isso não é um convite à indiferença: é uma forma de voltar a atenção para a própria conduta, em vez de imaginar que se pode governar a vontade dos outros.

    Os nomes e objetivos dos grupos de ajuda mútua funcionam como pontos de atração e identificação: cada pessoa se aproxima da irmandade que conversa com sua experiência. Mais de 200 organizações desenvolveram versões próprias dos Doze Passos, mostrando a amplitude com que esse caminho foi adaptado a diferentes situações. Ao aprofundar essa filosofia, encontramos um princípio comum: admitir que não controlamos tudo o que nos afeta e reconhecer o que acontece quando tentamos governar o incontrolável. O CoDA expressa essa questão diretamente em seu Primeiro Passo, ao reconhecer a impotência perante os outros e a vida que se tornou incontrolável. AA formula o passo em relação ao álcool, e NA, à adicção. Os focos de identificação são diferentes; a reflexão sobre impotência e responsabilidade pessoal atravessa essas experiências.

    Esse fio também encontra eco em abordagens psicológicas distintas. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) observa a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos. A TREC, ou Terapia Racional-Emotiva Comportamental, considera como crenças sobre uma situação influenciam as respostas emocionais e as ações. A Entrevista Motivacional (EM) valoriza a autonomia da pessoa e suas próprias razões para mudar. Essas abordagens têm referenciais e objetivos próprios; a aproximação aqui não é dizer que sejam iguais, mas notar uma pergunta compartilhada: diante do que acontece, o que posso reconhecer e escolher na minha própria resposta?

    Essa reflexão não serve para culpar o familiar pelo sofrimento que sente, nem para dizer que alguém escolhe sentir medo ou ansiedade. Serve para ampliar a pergunta: além de “como faço o outro mudar?”, posso perguntar “o que está acontecendo comigo e qual é a minha parte nesta situação?”

    Autorresponsabilidade não é culpa

    Culpa costuma prender a pessoa ao passado: “Se eu tivesse feito diferente, ele não teria voltado a usar.” Autorresponsabilidade pergunta o que cabe a mim agora: “O que estou fazendo para tentar controlar? Isso está de acordo com meus limites e valores? Que escolha posso fazer sem assumir a parte do outro?”

    A recaída de alguém não prova que a família a causou ou poderia tê-la impedido. O retorno ao uso pode acontecer durante o processo de recuperação e indicar que a pessoa precisa conversar com a equipe responsável sobre o cuidado. Para algumas substâncias, voltar a uma quantidade usada anteriormente depois de um período de abstinência também pode trazer risco grave de overdose.

    A família pode apoiar, mas não conduzir a recuperação no lugar da pessoa. Cuidar de si não significa abandonar quem se ama. Significa não fazer da vida inteira uma tentativa de administrar escolhas que pertencem a outra pessoa.

    Limite é reconhecer a própria parte

    Há diferença entre tentar impor uma decisão ao outro e escolher o que você fará. O controle diz: “Você tem que fazer o que eu quero.” Um limite fala da sua própria ação: “Se houver ameaça, vou me afastar e procurar segurança”; “Posso ajudar a buscar atendimento, mas não vou mentir para encobrir o que aconteceu.”

    Essa diferença não resolve sozinha os conflitos familiares, nem substitui apoio profissional. Ela ajuda a perceber onde termina a tentativa de governar o outro e onde começa a responsabilidade por si. Também não significa permitir que consequências perigosas aconteçam. Em uma emergência, a prioridade é buscar ajuda adequada.

    Se houver intoxicação grave, perda de consciência, respiração muito alterada, convulsão ou risco imediato à vida, ligue para o SAMU 192 ou procure uma UPA ou pronto-socorro. O Ministério da Saúde inclui intoxicação e crises psiquiátricas entre as situações atendidas pelo serviço. Se você precisa conversar e busca apoio emocional, o CVV atende pelo telefone 188, gratuitamente e 24 horas; diante de perigo imediato, procure um serviço de urgência.

    Você também pode buscar apoio

    Familiar não precisa atravessar essa experiência isolado. O Codependentes Anônimos — CoDA Brasil é uma opção para quem deseja desenvolver relações mais saudáveis consigo e com os outros. Familiares e amigos afetados pelo uso de álcool podem procurar o Al-Anon Brasil. Para pessoas afetadas pelo uso de drogas, há os Grupos Familiares Nar-Anon do Brasil. Os Alcoólicos Anônimos e os Narcóticos Anônimos são grupos de ajuda mútua para pessoas que buscam apoio para a própria recuperação. Para familiares, Al-Anon e Nar-Anon são voltados especificamente a pessoas próximas. Consulte os sites oficiais para verificar reuniões e horários. Grupos de ajuda mútua oferecem apoio entre pares e não substituem acompanhamento profissional.

    Voltar o olhar para si

    Admitir que não podemos controlar tudo o que envolve outra pessoa pode ser difícil, especialmente quando há amor, medo e sofrimento. Ainda assim, esse reconhecimento pode abrir espaço para uma responsabilidade mais realista: cuidar das próprias escolhas sem se culpar pelas escolhas alheias.

    Quando notar que a preocupação está tomando conta da sua vida, vale perguntar: estou tentando cuidar ou controlar? O que depende de mim? O que não me cabe decidir? Como posso agir sem me abandonar?

    Não é preciso ter respostas perfeitas. O primeiro movimento é perceber que, ao tentar controlar o incontrolável, sua própria vida pode estar ficando incontrolável. A partir daí, torna-se possível voltar a atenção para o que é seu: suas escolhas, seus limites, seus vínculos e a busca de apoio.

    Este artigo tem finalidade psicoeducativa. Não diagnostica codependência e não substitui avaliação, terapia ou atendimento de urgência.

    Referências

    1. Codependency — EBSCO Research Starters
    2. Helping Families Cope with Mental Health and Substance Use Disorders — SAMHSA
    3. Epictetus — Stanford Encyclopedia of Philosophy
    4. The Twelve Steps — Alcoholics Anonymous
    5. An Introductory Guide to Narcotics Anonymous
    6. CoDA Recovery Program — Co-Dependents Anonymous
    7. Twelve-Step Programs — Encyclopedia.com
    8. Cognitive Behavioral Therapy — Cleveland Clinic
    9. Rational Emotive Behavior Therapy — Albert Ellis Institute
    10. Motivational Interviewing: An Evidence-Based Approach — PMC
    11. Treatment and Recovery — National Institute on Drug Abuse
    12. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — Ministério da Saúde
    13. O CVV — Centro de Valorização da Vida
    14. Reuniões de Grupo On-line — Codependentes Anônimos Brasil
    15. Grupos Al-Anon e Alateen pelo Brasil
    16. Localização de Grupos e Reuniões a Distância — Nar-Anon Brasil
    17. Reuniões presenciais — Alcoólicos Anônimos Brasil
    18. Busca por reuniões — Narcóticos Anônimos Brasil
  • Como ajudar alguém com dependência química sem se abandonar

    Como ajudar alguém com dependência química sem se abandonar

    Quando alguém que amamos enfrenta problemas relacionados ao álcool ou a outras drogas, é comum a família viver em alerta. A preocupação pode levar a tentativas constantes de vigiar, convencer, proteger ou resolver as consequências do uso. Com o tempo, a vida de quem cuida também pode ficar menor: menos descanso, menos vínculos e pouco espaço para as próprias necessidades.

    A família pode ser uma fonte importante de apoio, mas não existe uma fórmula única para ajudar. O uso de substâncias também pode afetar o bem-estar dos familiares, que têm direito a procurar orientação e cuidado para si. Grupos de apoio e acompanhamento familiar podem ser opções a considerar, conforme a necessidade de cada pessoa.

    Ajudar não significa controlar todas as escolhas de quem está em sofrimento. E cuidar de si não significa deixar de amar. É possível manter a disposição para apoiar e, ao mesmo tempo, reconhecer o que está ou não ao seu alcance.

    Quando a preocupação começa a ocupar tudo

    Talvez você se reconheça em algumas situações: conferir repetidamente onde a pessoa está, tentar impedir qualquer possibilidade de uso, emprestar dinheiro apesar de isso prejudicar suas contas ou inventar justificativas para outras pessoas. Muitas dessas atitudes nascem do medo e da esperança de evitar algo pior. Elas não provam falta de amor nem permitem, por si só, definir um diagnóstico.

    Algumas pessoas usam a palavra “codependência” para falar de relações em que o cuidado parece ter se misturado a vigilância, anulação das próprias necessidades ou sensação de que é preciso resolver tudo pelo outro. O termo não precisa virar um rótulo. Uma pergunta mais útil pode ser: o que essa situação está fazendo comigo e de que apoio eu preciso?

    Se sua saúde, seu trabalho, seus relacionamentos ou seu descanso vêm sendo deixados de lado, isso merece atenção. Você não precisa esperar chegar ao limite para conversar com alguém de confiança ou buscar orientação profissional.

    Apoiar não é controlar

    Familiares podem ajudar a aproximar alguém de informações e serviços de saúde. O envolvimento da família no cuidado pode ser útil para algumas pessoas, mas precisa considerar a situação concreta, a segurança e a avaliação da equipe responsável. Não é uma obrigação para toda família, nem uma garantia de que alguém aceitará tratamento.

    Uma forma de oferecer apoio é fazer um convite específico, sem humilhar ou ameaçar. Por exemplo: “Estou preocupado com o que está acontecendo e quero conversar sem brigar. Se você quiser, posso procurar com você um serviço de saúde ou acompanhar você até lá.” A pessoa pode aceitar, recusar ou precisar de tempo. Você pode manter a oferta de apoio sem assumir o poder de decidir por ela.

    Procure conversar apenas quando houver condições de segurança e de escuta. Se a pessoa estiver muito alterada, se houver ameaça ou se você temer uma agressão, não tente resolver tudo naquele momento. Afaste-se do risco e procure apoio. A segurança das pessoas envolvidas vem antes de uma conversa difícil. A orientação do SAMHSA destaca que a participação familiar em intervenções precisa ser avaliada com atenção, especialmente quando há histórico de violência ou abuso.

    Limites são decisões sobre o que você pode fazer

    Um limite saudável não é uma punição nem uma estratégia para forçar alguém a mudar. É uma decisão sobre o que você pode oferecer e o que fará para proteger sua segurança e seu bem-estar. Ele não controla a outra pessoa; torna mais claro como você pretende agir.

    Alguns exemplos, que precisam ser adaptados à realidade de cada família, são:

    • “Eu posso ajudar a procurar atendimento, mas não posso emprestar dinheiro.”
    • “Não vou mentir para outras pessoas para encobrir uma situação.”
    • “Se houver gritos ou ameaças, vou encerrar a conversa e procurar um lugar seguro.”
    • “Não vou dirigir ou emprestar o carro se não me sentir seguro.”

    Escolha limites que sejam possíveis de cumprir. Explique-os em linguagem simples e, quando for seguro, com calma. Se houver violência, coerção ou medo, procure orientação individual antes de propor conversas conjuntas. Terapia familiar não é adequada em todas as situações; o contexto deve ser avaliado por profissionais.

    Cuidar de si também faz parte do cuidado

    A vida do familiar não precisa ficar em pausa até que a outra pessoa aceite ajuda ou alcance determinada etapa da recuperação. Preserve, tanto quanto possível, compromissos de saúde, sono, trabalho, amizades e atividades que lhe façam bem. Ter um espaço para falar com honestidade — como acompanhamento psicológico, grupo de apoio para familiares ou serviço de saúde — pode ajudar a reduzir o isolamento e pensar em próximos passos.

    Guias para familiares recomendam atenção ao autocuidado e à construção de limites. Isso não é egoísmo: é reconhecer que você também está atravessando uma situação difícil e merece cuidado.

    Se não souber por onde começar, escolha uma ação pequena e concreta: contar a uma pessoa confiável o que está acontecendo; marcar uma consulta para si; ou perguntar a um serviço de saúde que apoio existe para familiares. Você não precisa resolver tudo de uma vez.

    Onde buscar orientação no Brasil

    No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem cuidado em saúde mental, inclusive para situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. Os CAPS contam com equipes multiprofissionais e podem oferecer apoio psicossocial a usuários e familiares. A modalidade CAPS AD é voltada a questões relacionadas a álcool e outras drogas. A Unidade Básica de Saúde (UBS) da sua região ou a Secretaria Municipal de Saúde pode orientar sobre os serviços disponíveis no município.

    Segundo o Ministério da Saúde, é possível procurar diretamente um CAPS para o acolhimento inicial; a organização e as modalidades de atendimento variam conforme o município. Você também pode perguntar ao serviço como familiares podem receber orientação ou participar do cuidado, respeitando a privacidade e as escolhas da pessoa atendida.

    Grupos de ajuda mútua também podem oferecer escuta e troca de experiências entre pessoas em situações semelhantes. Para quem busca apoio para si em questões de codependência, o Codependentes Anônimos — CoDA Brasil informa sobre reuniões presenciais e on-line. Familiares e amigos afetados pelo uso de álcool podem consultar o Al-Anon Brasil; quem foi afetado pelo uso de drogas pode conhecer os Grupos Familiares Nar-Anon do Brasil. Pessoas que buscam apoio mútuo para a própria recuperação podem localizar reuniões de Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos, conforme a situação. Os horários e formatos podem mudar, então consulte os sites oficiais antes de participar.

    Esses grupos oferecem apoio entre pares e não substituem avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde, nem serviços de urgência. Podem ser considerados junto a outros cuidados, conforme a necessidade de cada pessoa.

    Em uma situação que exija atendimento imediato, como risco à vida ou uma emergência de saúde, procure uma UPA ou pronto-socorro, ou acione o SAMU pelo número 192.

    Você pode amar sem carregar tudo sozinho

    Apoiar alguém com transtorno por uso de substâncias pode envolver presença, incentivo à busca de cuidado e conversas difíceis. Não exige que você abandone sua saúde, esconda tudo ou assuma a responsabilidade pelas escolhas de outra pessoa. A família também pode pedir ajuda, aprender sobre os serviços disponíveis e estabelecer limites que protejam sua dignidade e segurança.

    Talvez o próximo passo não seja convencer alguém. Pode ser reconhecer que você também precisa de apoio — e procurar esse apoio hoje.

    Este artigo tem finalidade psicoeducativa. Não substitui avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde. Cada situação deve ser considerada em seu contexto, especialmente quando há risco à segurança.

    Referências

    1. Helping Families Cope with Mental Health and Substance Use Disorders
    2. The Importance of Family Therapy in Substance Use Disorder Treatment
    3. Guide for Family Members
    4. Centros de Atenção Psicossocial — Ministério da Saúde
    5. Reuniões de Grupo On-line — Codependentes Anônimos Brasil
    6. Grupos Al-Anon e Alateen pelo Brasil
    7. Localização de Grupos e Reuniões a Distância — Nar-Anon Brasil
    8. Busca por reuniões — Narcóticos Anônimos Brasil
    9. Reuniões presenciais — Alcoólicos Anônimos Brasil
  • A neurociência da reclamação: como pensamentos, emoções e relações podem alimentar ciclos de sofrimento — e como começar a transformá-los

    A neurociência da reclamação: como pensamentos, emoções e relações podem alimentar ciclos de sofrimento — e como começar a transformá-los

    Uma reflexão educativa sobre hábitos mentais, dependência emocional, codependência, transtornos adictivos e a responsabilidade de desenvolver autopercepção.

    Importante: este artigo não diagnostica pessoas, não transforma a reclamação em doença e não substitui avaliação clínica, psicoterapia, acompanhamento médico ou serviços de proteção. Em situações de violência, ameaça ou risco à vida, a prioridade é buscar ajuda especializada e preservar a segurança.

    Reclamar faz parte da experiência humana. Reclamamos quando nos sentimos injustiçados, quando algo não acontece como esperávamos, quando estamos cansados, frustrados ou diante de situações que não conseguimos controlar. Em muitas circunstâncias, a reclamação é legítima e necessária. Ela pode denunciar uma injustiça, expressar uma necessidade, estabelecer um limite ou iniciar uma mudança.

    O problema começa quando a reclamação deixa de ser uma resposta pontual a uma dificuldade e se transforma em uma maneira habitual de interpretar a vida. Quando tudo se converte em motivo de indignação, quando os mesmos conflitos são narrados repetidamente sem que nenhuma reflexão ou atitude diferente seja construída, podemos estar diante de um padrão que merece atenção.

    Esse comportamento pode aparecer nas relações familiares, nos ambientes de trabalho, nos relacionamentos afetivos e, também, nos processos de recuperação de pessoas que enfrentam transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, jogos de azar e outros comportamentos adictivos.

    A neurociência e a psicologia oferecem ferramentas importantes para compreender os mecanismos envolvidos nessa repetição. Não existe uma doença cientificamente estabelecida chamada “vício em reclamar”, nem evidências de que toda reclamação produza danos cerebrais. Entretanto, existem pesquisas sobre ruminação, pensamento negativo repetitivo, aprendizagem de hábitos, regulação emocional, estresse crônico e influência das emoções nas relações sociais. Esses conhecimentos ajudam a entender por que determinados padrões de pensamento podem se tornar persistentes e como podem ser modificados.

    Mais do que ensinar alguém a reclamar menos, o objetivo desta reflexão é estimular uma pergunta: o que acontece conosco quando passamos tanto tempo identificando aquilo que está errado que deixamos de perceber o que podemos compreender, modificar ou fazer de maneira diferente?

    O que a neurociência realmente diz sobre reclamar?

    O cérebro humano está continuamente aprendendo com as experiências. Ele reconhece padrões, associa acontecimentos a emoções, identifica possíveis ameaças e desenvolve respostas que podem ser utilizadas novamente em situações semelhantes.

    Essa capacidade está relacionada à neuroplasticidade, conceito que descreve as mudanças funcionais e estruturais do sistema nervoso em resposta à experiência, à aprendizagem e a outros fatores.

    Quando repetimos um comportamento, podemos aumentar a probabilidade de que ele volte a ocorrer, especialmente quando esse comportamento produz algum resultado imediato. Isso não significa que cada reclamação crie uma nova conexão neural específica ou que o cérebro possua um circuito exclusivo destinado à negatividade. A aprendizagem é muito mais complexa e envolve diferentes redes neurais, mecanismos de memória, motivação, atenção e tomada de decisão.

    Estudos sobre comportamentos compulsivos mostram que os sistemas cerebrais envolvidos na formação de hábitos, no processamento de recompensas e no controle das ações podem participar de padrões comportamentais persistentes. A revisão publicada por Robbins, Banca e Belin na revista Nature Reviews Neuroscience, em 2024, discute como circuitos relacionados aos hábitos e à capacidade de direcionar o comportamento para objetivos podem estar envolvidos em diferentes formas de compulsividade.

    Essa literatura não estudou a reclamação cotidiana como uma doença específica. Ela nos oferece, contudo, uma compreensão mais ampla de como comportamentos repetidos podem se tornar resistentes à mudança.

    Imagine uma pessoa que, todas as manhãs, começa o dia pensando que nada dará certo. No trabalho, interpreta contratempos como provas de que ninguém a respeita. Em casa, recorda os erros dos familiares e antecipa novas decepções. Mesmo diante de acontecimentos neutros, sua atenção acaba sendo direcionada para aquilo que confirma sua expectativa negativa.

    Com o tempo, essa pessoa pode desenvolver uma tendência a identificar mais rapidamente os problemas do que as alternativas disponíveis. Não necessariamente porque todos os aspectos da realidade sejam negativos, mas porque sua atenção e suas interpretações passaram a privilegiar determinados sinais.

    Esse processo é compatível com o que a psicologia estuda como vieses cognitivos e pensamento negativo repetitivo.

    Uma pesquisa publicada em 2024, com resultados divulgados na revista Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience em 2025, investigou as representações neurais associadas à preocupação e à ruminação. Os resultados apontam semelhanças entre processos cerebrais envolvidos nessas formas de pensamento repetitivo.

    É importante compreender a diferença: reclamar é um comportamento comunicativo; ruminar é permanecer mentalmente preso a pensamentos e sentimentos recorrentes, frequentemente sem avançar para a resolução do problema. Uma pessoa pode reclamar de maneira construtiva sem ruminar, assim como pode ruminar silenciosamente sem expressar qualquer queixa.

    O ponto de atenção não é simplesmente falar sobre dificuldades. É perceber quando pensar e falar repetidamente sobre elas deixa de contribuir para a compreensão e passa a manter o sofrimento ativo.

    A pergunta que importa não é apenas quantas vezes reclamamos, mas o que acontece com nossos pensamentos, emoções e atitudes depois de cada reclamação.

    Quando a reclamação se transforma em ruminação

    A ruminação pode ser compreendida como um processo de pensamento repetitivo, geralmente concentrado em problemas, perdas, erros, injustiças ou estados emocionais desagradáveis.

    Uma pessoa que rumina pode repetir perguntas como:

    “Por que isso sempre acontece comigo?”

    “Como alguém pôde fazer isso comigo?”

    “Por que ninguém reconhece o que faço?”

    “Por que minha família nunca aprende?”

    “Por que nada muda?”

    Essas perguntas não são necessariamente inadequadas. Em determinado momento, podem ajudar a compreender uma experiência. O problema aparece quando se repetem indefinidamente, sem gerar novas informações, decisões ou possibilidades de enfrentamento.

    A mente começa a girar em torno do mesmo conteúdo.

    A pessoa revive uma discussão, imagina o que deveria ter dito, constrói novas acusações e antecipa conflitos futuros. Durante esse processo, a lembrança do acontecimento pode ser acompanhada novamente por raiva, tristeza, medo ou ressentimento.

    Essa repetição pode dificultar o afastamento psicológico do problema. Em vez de analisar uma situação e depois direcionar a atenção para outras atividades, a pessoa permanece mentalmente conectada ao conflito.

    Pesquisas sobre ruminação encontram associações importantes entre o pensamento repetitivo negativo e sintomas depressivos, além de investigarem sua participação em outros quadros emocionais. Isso não significa que toda pessoa que reclama tenha depressão, nem que reclamar provoque necessariamente um transtorno mental.

    Significa que padrões persistentes de pensamento merecem atenção quando aumentam o sofrimento, interferem nas relações e prejudicam a capacidade de agir.

    Existe ainda uma armadilha: a pessoa pode confundir a repetição do problema com a tentativa de resolvê-lo.

    Pensar muitas vezes sobre um problema não garante que estejamos pensando melhor sobre ele. Às vezes, estamos apenas repetindo a mesma interpretação, reforçando a mesma emoção e chegando às mesmas conclusões.

    A autopercepção começa quando conseguimos reconhecer essa diferença.

    O cérebro e a atenção seletiva: por que começamos a enxergar mais problemas?

    A atenção humana é seletiva. Não conseguimos processar todos os estímulos, informações, acontecimentos e possibilidades disponíveis ao mesmo tempo. O cérebro seleciona informações de acordo com a relevância percebida, as expectativas, a aprendizagem anterior e o estado emocional.

    Quando alguém espera ser desrespeitado, pode ficar particularmente atento a sinais de rejeição. Quando teme ser enganado, pode interpretar comportamentos ambíguos como indícios de mentira. Quando está habituado a esperar o pior, tende a dar maior importância aos acontecimentos que confirmam suas previsões.

    Esse mecanismo pode formar um circuito psicológico:

    Uma experiência desagradável gera uma interpretação negativa. A interpretação aumenta uma emoção desagradável. A emoção influencia aquilo que a pessoa percebe. Novas experiências passam a ser interpretadas a partir da expectativa já estabelecida.

    A pessoa encontra, então, novos motivos para confirmar sua conclusão inicial.

    Isso não significa que os problemas sejam imaginários. Existem situações de injustiça, abandono, violência, exploração e negligência que precisam ser reconhecidas e enfrentadas. A questão é que, além dos acontecimentos objetivos, também precisamos observar o filtro pelo qual os interpretamos.

    Uma pessoa pode estar diante de um problema real e, ao mesmo tempo, apresentar uma interpretação excessivamente generalizada sobre ele.

    Por exemplo, depois de receber uma crítica no trabalho, alguém conclui que é incompetente, que ninguém reconhece seu esforço e que nunca conseguirá crescer profissionalmente.

    O acontecimento concreto foi uma crítica. A conclusão abrange toda a identidade, todas as relações e todo o futuro da pessoa.

    Quando isso se repete, torna-se difícil diferenciar fatos, interpretações, previsões e medos.

    A neurociência ajuda a compreender os processos de atenção, memória, aprendizagem e emoção envolvidos nesse fenômeno. A psicologia clínica, por sua vez, oferece métodos para reconhecer os pensamentos automáticos e avaliar se eles correspondem aos fatos.

    Essa combinação é especialmente útil porque a recuperação não exige que uma pessoa passe a enxergar tudo de maneira positiva. Exige que consiga enxergar de maneira mais completa.

    O estresse crônico e os efeitos sobre o organismo

    A reclamação, isoladamente, não pode ser considerada uma causa direta de hipertensão, diabetes ou queda da imunidade. Seria cientificamente incorreto afirmar que reclamar aumenta inevitavelmente o cortisol ou que o ato de reclamar provoca essas doenças.

    O que a literatura científica demonstra é que o estresse persistente pode afetar diferentes sistemas do organismo.

    Quando percebemos uma ameaça, o cérebro participa da ativação de respostas fisiológicas que ajudam a enfrentar a situação. Essas respostas envolvem o sistema nervoso autônomo e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável, entre outras funções, pela regulação da liberação de cortisol.

    Em situações agudas, essas respostas são adaptativas. Aumentam a disponibilidade de energia e ajudam o organismo a responder a desafios.

    O problema pode surgir quando os sistemas de estresse são ativados repetidamente, quando a recuperação fisiológica é insuficiente ou quando a exposição a adversidades se torna prolongada.

    O pesquisador Bruce McEwen desenvolveu importantes contribuições para o estudo da carga alostática, conceito que descreve o desgaste acumulado associado à adaptação repetida ou desregulada às exigências do ambiente. Sua revisão sobre os efeitos neurobiológicos e sistêmicos do estresse crônico, publicada em 2017, examina as relações entre cérebro, respostas ao estresse e saúde física.

    A exposição prolongada ao estresse está associada a alterações em diferentes sistemas, incluindo os relacionados à regulação cardiovascular, metabólica, imunológica e emocional. Entre os possíveis desfechos estão maior vulnerabilidade a determinados problemas de saúde, dependendo de fatores como predisposição individual, condições sociais, sono, alimentação, atividade física e acesso a cuidados médicos.

    O cortisol, por sua vez, não é simplesmente um hormônio prejudicial. Ele exerce funções essenciais e apresenta variações ao longo do dia. Sua relação com a saúde depende da duração, da intensidade e do contexto das respostas fisiológicas, não apenas de sua presença.

    Como a reclamação repetitiva pode entrar nessa discussão?

    Se uma pessoa passa o dia revivendo conflitos, antecipando ameaças, discutindo mentalmente com outras pessoas e mantendo-se em estado constante de irritação, esse padrão pode contribuir para o sofrimento psicológico e para a manutenção de situações estressantes.

    Entretanto, não é possível afirmar que toda pessoa que reclama apresente cortisol elevado ou que essa reclamação seja a origem de seus problemas de saúde.

    Também precisamos considerar que o sentido inverso é possível: uma pessoa submetida a dor crônica, violência, sobrecarga de trabalho, dificuldades financeiras ou sofrimento psíquico pode reclamar mais justamente porque está enfrentando condições difíceis.

    Por isso, a pergunta clínica não deve ser apenas “por que essa pessoa reclama tanto?”, mas também “o que ela está vivendo, como interpreta essas experiências e quais recursos tem para enfrentá-las?”.

    Essa diferença evita culpabilizar quem sofre e permite construir intervenções mais adequadas.

    As emoções se espalham nas relações

    Os seres humanos não regulam suas emoções isoladamente. Nossas interações sociais influenciam nosso humor, nossa percepção dos acontecimentos e nossas respostas comportamentais.

    Esse fenômeno é estudado como contágio emocional.

    Uma revisão publicada por Carolina Herrando e Efthymios Constantinides, em 2021, descreve diferentes mecanismos pelos quais as emoções podem ser transmitidas nas interações humanas. Expressões faciais, tom de voz, comportamentos observados e experiências compartilhadas podem influenciar as respostas emocionais de outras pessoas.

    A influência não é automática nem inevitável. Cada pessoa reage de maneira diferente, e o contexto, a relação, a intensidade da experiência e a capacidade de regulação emocional interferem no resultado.

    Ainda assim, é possível observar esse processo na vida cotidiana.

    Em uma família, uma pessoa começa a manhã reclamando do trabalho, do trânsito, das contas e do comportamento dos filhos. Os demais integrantes passam a responder com irritação, evitam conversar ou iniciam suas próprias queixas. O clima da casa muda.

    Em outro contexto, um profissional chega frequentemente às reuniões antecipando fracassos, criticando os colegas e prevendo que nada dará certo. A equipe pode começar a demonstrar desânimo, desconfiar de novas iniciativas ou evitar propor soluções.

    A negatividade de uma pessoa não determina o comportamento de todos os demais, mas pode contribuir para a formação de um ambiente emocional menos favorável.

    Também precisamos reconhecer o contrário: compartilhar experiências difíceis pode produzir solidariedade, acolhimento, identificação e apoio. Falar sobre sofrimento não é o problema. Em muitos casos, é parte essencial do cuidado.

    A diferença está entre expressar uma dificuldade para encontrar compreensão e alternativas e transformar todas as interações em repetição de acusações, previsões catastróficas e conflitos.

    Em famílias afetadas pelos transtornos adictivos, essa dinâmica merece atenção especial.

    A convivência com alguém que apresenta uso problemático de substâncias pode envolver promessas descumpridas, medo de novas recaídas, perdas financeiras, conflitos, preocupações com a segurança e exaustão emocional. Nesse contexto, a reclamação pode ser uma expressão legítima de sofrimento.

    Ao mesmo tempo, quando o cotidiano fica inteiramente organizado em torno daquilo que a pessoa em tratamento fez ou deixou de fazer, toda a família corre o risco de perder espaço para outras dimensões da vida.

    A família deixa de ser apenas uma rede de relações e passa a funcionar como um sistema permanentemente mobilizado pelo problema.

    É nesse ponto que a compreensão da codependência pode ajudar, desde que utilizada com responsabilidade.

    Codependência: quando a vida começa a girar em torno do comportamento do outro

    O termo codependência é frequentemente utilizado para descrever padrões nos quais a preocupação com uma pessoa significativa passa a ocupar espaço excessivo na vida emocional, nos relacionamentos e nas decisões de quem convive com ela.

    Em contextos de transtornos adictivos, esses padrões podem envolver vigilância constante, tentativas de controlar o comportamento do familiar, negligência das próprias necessidades, dificuldade para estabelecer limites e sensação de responsabilidade permanente pela recuperação de outra pessoa.

    É importante esclarecer que a codependência não possui critérios diagnósticos universalmente estabelecidos nos principais sistemas de classificação de transtornos mentais. O conceito continua sendo discutido na literatura científica, com diferentes definições e limitações metodológicas. Portanto, não deve ser usado para rotular automaticamente mães, pais, cônjuges ou outros familiares de pessoas que enfrentam transtornos adictivos.

    Uma revisão brasileira publicada em Debates em Psiquiatria, em 2017, examinou a literatura disponível e apontou que o conceito ainda era pouco explorado empiricamente e precisava de maior validação científica.

    Isso não significa que o sofrimento familiar seja imaginário. Significa que precisamos distinguir a realidade das dificuldades vividas pelas famílias do grau de precisão científica de um rótulo utilizado para descrevê-las.

    Um estudo brasileiro publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, em 2016, avaliou 505 familiares de pessoas que usavam drogas e procuraram um serviço de orientação telefônica. Os pesquisadores identificaram associações entre indicadores de codependência e dificuldades no bem-estar físico e emocional, incluindo reatividade, sobrecarga e negligência das próprias necessidades.

    Por se tratar de um estudo observacional, esses resultados não demonstram que a codependência cause todos esses problemas. Eles ajudam, porém, a mostrar a importância de oferecer atenção e suporte também aos familiares.

    O sofrimento de quem convive com uma pessoa em situação de adicção não deve ser ignorado, nem reduzido a uma suposta falta de equilíbrio emocional.

    Considere uma mãe cujo filho apresenta uso problemático de substâncias. Durante o dia, ela verifica mensagens, procura sinais de consumo, tenta descobrir onde ele está, conversa com conhecidos, antecipa possíveis problemas e imagina o que fará se ele voltar a usar.

    Quando encontra alguém com quem conversar, fala repetidamente sobre os mesmos episódios. A cada novo relato, recorda as decepções, a raiva e o medo. Termina a conversa esgotada e volta à rotina de vigilância.

    É possível que suas preocupações sejam justificadas. Também é possível que ela esteja tentando lidar sozinha com uma situação que excede os recursos emocionais de uma única pessoa.

    O problema não está em se preocupar com o filho. Está no risco de toda a sua existência passar a ser organizada pela tentativa de controlar algo que ela não consegue controlar integralmente.

    Ela pode amar, apoiar, buscar orientação, estabelecer limites e participar de estratégias de tratamento. Mas não pode garantir a decisão do outro, eliminar todos os riscos ou assumir sozinha a responsabilidade pela recuperação dele.

    Quando essa distinção não está clara, a reclamação pode se tornar uma forma de expressar impotência sem conseguir transformá-la em uma ação que proteja a família.

    Frases como “ele nunca vai mudar”, “ninguém me ajuda”, “eu não aguento mais” e “preciso vigiar para que nada aconteça” podem representar sofrimentos reais. A questão é investigar o que essas frases revelam sobre necessidades, limites, recursos e possibilidades de intervenção.

    Uma família precisa de espaço para falar sobre a dor. Também precisa de oportunidades para reconstruir sua própria vida.

    A recuperação dos familiares merece objetivos próprios, que não dependam exclusivamente da recuperação da pessoa que apresenta o transtorno adictivo.

    O outro lado da questão: o comportamento de quem está em recuperação

    Até aqui, consideramos principalmente as famílias. Mas a reclamação repetitiva também pode aparecer na pessoa que enfrenta um transtorno adictivo.

    É necessário cuidado para não transformar uma característica comportamental em explicação simplista para a adicção. Pessoas não desenvolvem transtornos por uso de substâncias simplesmente porque reclamam demais, pensam negativamente ou possuem dificuldades de relacionamento.

    Os transtornos adictivos são condições complexas, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Envolvem mecanismos de aprendizagem, reforço, motivação, regulação emocional e adaptação cerebral, além de aspectos relacionados à história individual e ao ambiente.

    A revisão de Nora Volkow e Carlos Blanco, publicada na revista World Psychiatry em 2023, apresenta uma atualização abrangente sobre os transtornos relacionados ao uso de substâncias, contemplando neurobiologia, aspectos clínicos, tratamento e prevenção.

    A neurociência da adicção descreve alterações em circuitos envolvidos na recompensa, na resposta ao estresse, na motivação e no controle das ações. Essas alterações podem contribuir para o desejo intenso de consumir, para a dificuldade de interromper o comportamento e para a persistência do uso apesar das consequências negativas.

    Uma das estruturas conceituais mais utilizadas nesse campo é o ciclo da adicção descrito por George Koob e Nora Volkow. Ele compreende três grandes momentos interligados:

    • Intoxicação e consumo, associados ao reforço e à aprendizagem relacionada à substância.
    • Abstinência e afetos negativos, que podem envolver irritabilidade, ansiedade, desânimo e aumento da sensibilidade ao estresse.
    • Preocupação e antecipação, nas quais o desejo de consumir e os estímulos associados à substância podem assumir grande importância.

    Esse modelo não descreve de maneira idêntica a experiência de todas as pessoas, mas ajuda a compreender como o consumo pode deixar de estar relacionado apenas à busca de prazer e passar a funcionar também como tentativa de aliviar estados emocionais desagradáveis.

    Nesse contexto, é possível que algumas pessoas expressem sua insatisfação de maneira persistente, culpem familiares ou instituições, sintam que ninguém as compreende ou encontrem dificuldade para reconhecer sua participação em determinados conflitos.

    Nada disso, isoladamente, permite concluir que a pessoa esteja negando a adicção, manipulando os outros ou resistindo deliberadamente ao tratamento. É necessário avaliar a história, a situação clínica, os efeitos da abstinência, os transtornos associados, o ambiente e a função daquele comportamento.

    Ainda assim, existe uma pergunta terapêutica importante: o que a pessoa faz com as emoções que sente?

    Quando a frustração aparece, ela consegue reconhecê-la e conversar sobre ela? Procura ajuda? Tolera a possibilidade de que algo não aconteça como esperava? Consegue admitir erros sem transformar isso em uma condenação de si mesma? Ou precisa encontrar imediatamente alguém a quem atribuir toda a responsabilidade?

    A recuperação exige a construção de novas formas de responder às situações difíceis. Não se trata de eliminar a insatisfação, mas de desenvolver recursos para que a frustração não determine automaticamente a próxima atitude.

    A reclamação como mecanismo de proteção psicológica

    Em alguns casos, reclamar pode funcionar como uma defesa contra emoções que a pessoa considera difíceis de suportar.

    Reconhecer uma perda pode ser doloroso. Admitir um erro pode provocar vergonha. Perceber que não temos controle sobre outra pessoa pode gerar medo. Aceitar que uma escolha produziu consequências pode despertar culpa ou arrependimento.

    A reclamação pode deslocar a atenção para aquilo que os outros fizeram, para a injustiça da situação ou para a ausência de reconhecimento.

    Novamente, isso não significa que a reclamação seja sempre uma tentativa consciente de fugir da responsabilidade. Na maioria das situações, o processo é mais complexo e pode ocorrer sem que a pessoa perceba sua função.

    Uma pessoa em recuperação pode dizer que o tratamento é ruim, que a família não confia nela, que ninguém reconhece seu esforço ou que a vida seria melhor se pudesse voltar ao ambiente anterior.

    Algumas dessas queixas podem apontar problemas reais que precisam ser avaliados. O tratamento pode precisar de ajustes. A família pode estar agindo de maneira inadequada. A pessoa pode estar vivenciando sofrimento físico ou psicológico que merece atenção clínica.

    Contudo, também é possível que parte dessas queixas expresse dificuldade para tolerar limites, enfrentar frustrações ou permanecer em um processo de mudança que exige esforço.

    É por isso que a intervenção profissional precisa investigar o conteúdo e a função da reclamação, em vez de simplesmente desqualificá-la.

    Uma pergunta útil seria: “O que essa reclamação está tentando me dizer e o que posso fazer com essa informação?”.

    Se a queixa identifica um problema concreto, precisamos encontrar meios de enfrentá-lo. Se revela uma necessidade legítima, podemos comunicá-la de maneira clara. Se expressa uma emoção difícil, podemos aprender a regulá-la. Se tenta transferir ao outro uma responsabilidade que nos pertence, precisamos examinar essa dinâmica.

    É nessa passagem da reação automática para a compreensão que a autopercepção começa a se transformar em habilidade.

    O que a Terapia Cognitivo-Comportamental ensina sobre esse processo

    A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) parte da compreensão de que pensamentos, emoções, respostas fisiológicas e comportamentos interagem continuamente.

    Um acontecimento não produz necessariamente a mesma reação em todas as pessoas. A forma como o interpretamos influencia nossa resposta emocional e o que fazemos a seguir.

    Isso não significa que o pensamento seja responsável por tudo o que acontece conosco. Condições materiais, experiências traumáticas, fatores biológicos e relações sociais também exercem influência. A TCC busca compreender como esses elementos se combinam na experiência individual.

    Imagine que um familiar não responda a uma mensagem.

    Uma pessoa pode pensar: “Ele está ocupado. Vou tentar falar com ele mais tarde”. Pode sentir alguma preocupação, mas consegue continuar suas atividades.

    Outra pode pensar: “Ele não me respeita. Faz isso porque sabe que pode me manipular”. A interpretação pode desencadear raiva, ansiedade e uma série de mensagens acusatórias.

    O acontecimento inicial foi semelhante. As interpretações e respostas, entretanto, foram diferentes.

    Na prática clínica, a TCC pode ajudar a pessoa a identificar pensamentos automáticos, reconhecer distorções cognitivas, avaliar evidências e desenvolver respostas mais funcionais.

    Entre os padrões que merecem atenção estão:

    Generalização excessiva: transformar um acontecimento específico em uma regra absoluta. “Ele descumpriu um acordo, portanto nunca cumprirá nada.”

    Pensamento tudo ou nada: interpretar as situações em extremos. “Se não consigo fazer isso perfeitamente, sou um fracasso.”

    Catastrofização: antecipar o pior cenário como se fosse inevitável. “Se ele saiu de casa, certamente vai voltar a usar.”

    Leitura mental: presumir que sabemos o que outra pessoa pensa sem evidências suficientes. “Ela não respondeu porque quer me humilhar.”

    Personalização: atribuir a si mesmo uma responsabilidade excessiva por acontecimentos que também dependem de outras pessoas e circunstâncias.

    Regras rígidas e exigências absolutas: transformar preferências ou expectativas em condições obrigatórias. “Ele deveria reconhecer tudo o que fiz por ele.”

    Esses exemplos não demonstram, por si só, que uma pessoa tenha um transtorno psicológico. São padrões de pensamento que podem ocorrer em diferentes contextos e cuja relevância depende da frequência, intensidade e repercussão.

    Na TCC, uma ferramenta importante é a análise funcional do comportamento.

    Em vez de perguntar apenas por que alguém reclama, procura-se identificar o que acontece antes, durante e depois da reclamação.

    Qual foi o acontecimento desencadeador? O que a pessoa pensou? Que emoções sentiu? Como seu corpo reagiu? O que fez? Qual foi a consequência imediata? E quais foram os efeitos posteriores?

    Talvez a reclamação produza alívio momentâneo porque a pessoa consegue expressar sua irritação. Talvez gere apoio e acolhimento. Em outras situações, pode aumentar o conflito, afastar pessoas ou reforçar a sensação de impotência.

    Compreender essa sequência é essencial para descobrir quais comportamentos precisam ser mantidos, quais precisam ser modificados e quais habilidades devem ser desenvolvidas.

    A TCC não exige que o paciente pense positivamente sobre tudo. Ela o convida a pensar de maneira mais precisa, reconhecer os próprios padrões e experimentar respostas alternativas.

    Uma revisão sistemática publicada em 2023 por Boness e colaboradores avaliou a base empírica da TCC para transtornos por uso de substâncias. Os resultados indicaram efeitos pequenos a moderados sobre o consumo quando comparada a tratamentos inativos, com resultados mais evidentes nos primeiros meses de acompanhamento. Isso reforça a importância de considerar a TCC como uma intervenção estruturada, sem prometer que ela seja suficiente ou igualmente eficaz para todas as pessoas.

    No contexto da recuperação, isso se traduz em uma tarefa concreta: identificar os pensamentos e as emoções que aumentam o risco, desenvolver habilidades de enfrentamento e aprender a responder aos acontecimentos sem depender automaticamente dos antigos comportamentos.

    A TREC/TRE e a diferença entre o acontecimento e a interpretação

    A Terapia Racional-Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida por Albert Ellis e conhecida internacionalmente como REBT, oferece outra contribuição relevante para compreender a reclamação persistente.

    O modelo ABC da TREC diferencia três elementos:

    A — Acontecimento ativador: aquilo que ocorreu.

    B — Crenças: as interpretações, exigências e avaliações que a pessoa faz sobre o acontecimento.

    C — Consequências: as respostas emocionais e comportamentais relacionadas à interação entre o acontecimento e as crenças.

    Em muitas situações, não conseguimos escolher o que acontece conosco. Podemos, entretanto, desenvolver maneiras mais flexíveis de interpretar o acontecimento e decidir como responder a ele.

    Considere o exemplo de alguém que se sente desrespeitado porque um colega não cumpriu um compromisso.

    O acontecimento é o descumprimento do compromisso.

    A crença pode assumir a forma de uma preferência legítima: “Eu gostaria que as pessoas cumprissem o que combinam. Isso é importante para mim”.

    Mas também pode assumir a forma de uma exigência rígida: “Essa pessoa não poderia fazer isso comigo. É insuportável que alguém me trate dessa maneira”.

    As duas interpretações reconhecem a importância do compromisso. Entretanto, a segunda inclui uma exigência absoluta e uma avaliação extrema da situação.

    Essa rigidez pode intensificar a raiva e dificultar a construção de uma resposta proporcional ao problema.

    A TREC não ensina a aceitar passivamente o desrespeito. Ela propõe diferenciar a preferência legítima da exigência inflexível, para que a pessoa possa agir de maneira firme sem se tornar prisioneira da própria reação.

    O modelo pode ser ampliado pelo questionamento das crenças e pela construção de uma nova filosofia de vida: identificar o pensamento, examiná-lo criticamente e desenvolver uma resposta mais racional, flexível e útil.

    Na prática, a sequência pode ser resumida em:

    • Acontecimento: “Meu familiar voltou a descumprir um acordo”.
    • Crença inicial: “Isso não poderia acontecer. Se acontecer novamente, não conseguirei suportar”.
    • Consequência: desespero, raiva e tentativa de controlar todas as decisões do familiar.
    • Questionamento: “É verdade que eu não conseguirei suportar? O que posso controlar? Como posso estabelecer limites sem assumir a responsabilidade pelas escolhas dele?”.
    • Nova resposta: “Essa situação é dolorosa e tem consequências. Posso procurar apoio, proteger meus limites e tomar decisões de acordo com minhas possibilidades”.

    A diferença não está em negar a gravidade do acontecimento. Está em não acrescentar sofrimento desnecessário por meio de exigências impossíveis, previsões absolutas e avaliações extremas.

    A TREC também trabalha com a aceitação incondicional do ser humano, distinguindo o valor global de uma pessoa de suas ações específicas.

    Uma pessoa pode ter cometido erros graves e continuar sendo um ser humano digno de cuidado e de oportunidades de mudança. Da mesma forma, aceitar uma pessoa não exige aprovar seus comportamentos nem tolerar situações abusivas.

    Para quem enfrenta um transtorno adictivo, essa distinção pode ser decisiva. Reconhecer as consequências de uma escolha é diferente de concluir que se é irremediavelmente incapaz de mudar.

    Para as famílias, a lógica também é útil: amar alguém não significa exigir que ele nunca erre, nem aceitar que todo erro produza a destruição da própria vida. É possível reconhecer a realidade, estabelecer limites e preservar a dignidade de todos os envolvidos.

    A TREC e a TCC compartilham elementos importantes, mas possuem tradições teóricas e técnicas próprias. Elas não precisam ser apresentadas como métodos idênticos, e a escolha de intervenções deve considerar a formação do profissional, as necessidades clínicas e as evidências pertinentes.

    Entrevista Motivacional: sair da acusação e aproximar-se da mudança

    A Entrevista Motivacional é uma abordagem colaborativa que busca fortalecer a motivação e o compromisso com a mudança, explorando as razões, os valores e as ambivalências da própria pessoa.

    Seu propósito não é convencer alguém à força, vencer uma discussão ou demonstrar que o profissional tem razão. O trabalho consiste em ajudar a pessoa a examinar a distância entre sua situação atual e aquilo que considera importante para a própria vida.

    Essa abordagem é particularmente relevante nos transtornos adictivos porque a pessoa pode desejar mudar e, ao mesmo tempo, sentir medo das consequências da mudança, apego ao comportamento anterior ou dúvidas sobre sua capacidade de manter a recuperação.

    Uma pessoa pode dizer que quer recuperar a confiança da família, mas continuar reagindo de maneira agressiva quando é confrontada. Pode desejar recuperar o trabalho, mas resistir às exigências da rotina. Pode reconhecer as perdas provocadas pelo consumo e, simultaneamente, acreditar que a substância é a única maneira de aliviar sua ansiedade.

    Essas contradições não significam necessariamente ausência de vontade. Elas revelam ambivalência, um fenômeno que precisa ser explorado com cuidado.

    A reclamação repetitiva pode aparecer nesse contexto como uma maneira de expressar o desconforto com a mudança sem precisar examinar o papel que a própria pessoa pode desempenhar na situação.

    Imagine alguém que afirma: “Não consigo me recuperar porque minha família não confia em mim”.

    Um profissional que responde imediatamente “Sua família não confia em você porque você errou” pode iniciar uma disputa, mesmo quando existe fundamento na afirmação.

    A Entrevista Motivacional pode seguir outro caminho:

    “O que você gostaria que fosse diferente na relação com sua família?”

    “Que comportamentos poderiam ajudar a reconstruir a confiança?”

    “O que depende de você, mesmo que sua família ainda não consiga confiar?”

    “Que mudanças você já conseguiu fazer e o que ainda parece difícil?”

    Essas perguntas não absolvem a família nem culpabilizam o paciente. Elas devolvem a atenção às escolhas possíveis e às discrepâncias entre valores e comportamentos.

    O mesmo princípio vale para os familiares.

    Em vez de repetir diariamente que o outro precisa mudar, um familiar pode explorar aquilo que deseja proteger, os limites que precisa estabelecer e as ações que está disposto a realizar.

    A reclamação deixa de ser apenas uma descrição do que o outro faz de errado e passa a abrir espaço para decisões.

    A Entrevista Motivacional também não se limita a fazer perguntas. Envolve escuta reflexiva, respeito à autonomia, reconhecimento das capacidades da pessoa, exploração de ambivalências e planejamento colaborativo da mudança.

    A revisão Cochrane publicada em 2023 sobre Entrevista Motivacional para redução do uso de substâncias avaliou resultados relacionados ao consumo, à prontidão para mudar e à permanência no tratamento. Os efeitos variaram conforme as populações e as intervenções comparadas, de modo que não é adequado afirmar que a abordagem funcione da mesma maneira para todos.

    Sua contribuição para o tema deste artigo está na mudança de perspectiva: em vez de discutir indefinidamente quem está errado, procura-se compreender o que a pessoa deseja construir e qual próximo passo está disposta a realizar.

    A filosofia dos Doze Passos: inventário pessoal, honestidade e responsabilidade

    A filosofia dos Doze Passos, desenvolvida originalmente nos grupos de Alcoólicos Anônimos e adaptada a diferentes contextos de recuperação, oferece uma contribuição importante para refletir sobre responsabilidade pessoal, relações humanas, reparação de danos e transformação de atitudes.

    Esses princípios não devem ser confundidos com uma única modalidade de psicoterapia. Os grupos de ajuda mútua possuem sua própria história, linguagem, estrutura e prática comunitária. A participação pode complementar o cuidado profissional, mas não substitui automaticamente avaliação clínica, psicoterapia, acompanhamento médico ou outras intervenções indicadas.

    A evidência sobre os programas de Doze Passos também precisa ser apresentada com precisão. A revisão Cochrane de Kelly, Humphreys e Ferri, publicada em 2020, encontrou evidência de alta qualidade, em determinados desfechos, de que intervenções estruturadas de Alcoólicos Anônimos e Facilitação dos Doze Passos podem produzir taxas de abstinência superiores às de outros tratamentos estabelecidos, incluindo a TCC, para pessoas com transtorno por uso de álcool. Esses resultados não autorizam generalizar a mesma conclusão para todas as adicções, todos os grupos ou todas as circunstâncias clínicas.

    No campo da autopercepção, um dos elementos centrais dessa filosofia é a prática do inventário pessoal.

    O inventário não tem como finalidade transformar a pessoa em acusadora de si mesma. Ele busca favorecer honestidade, reconhecimento de padrões, responsabilidade e disposição para corrigir o que pode ser corrigido.

    Uma pessoa pode dedicar muito tempo a enumerar as falhas de seus familiares, as injustiças que sofreu, os erros das instituições e as decepções do passado. Algumas dessas experiências podem ser dolorosas e merecer atenção. No entanto, se toda reflexão termina na identificação de culpados externos, a pessoa pode deixar de investigar seus próprios comportamentos.

    O inventário pessoal propõe outras perguntas:

    Como tenho reagido às minhas frustrações?

    Em quais situações repito comportamentos que prejudicam meus relacionamentos?

    Onde tenho sido desonesto comigo mesmo?

    Que atitudes minhas contribuíram para determinadas consequências?

    Que danos podem ser reparados?

    O que preciso aceitar porque não está sob meu controle?

    O que posso fazer de maneira diferente a partir de hoje?

    Essas perguntas não significam que todos os problemas sejam causados pela própria pessoa. Também não autorizam responsabilizar vítimas por violências sofridas. Responsabilidade pessoal não é sinônimo de culpa universal.

    Uma pessoa pode ter sido vítima de negligência ou abuso e ainda precisar de apoio para decidir como proteger sua vida no presente. Pode reconhecer que foi prejudicada e, simultaneamente, trabalhar para não reproduzir comportamentos destrutivos.

    A maturidade está em reconhecer as duas dimensões sem apagar nenhuma delas.

    O Décimo Passo, na tradição dos Doze Passos, enfatiza a continuidade do inventário pessoal e o reconhecimento dos erros à medida que aparecem. Essa prática pode inspirar uma reflexão cotidiana sobre as próprias atitudes, sem necessidade de transformar toda dificuldade em julgamento moral.

    Uma pergunta simples sintetiza essa proposta:

    Estou utilizando minha energia apenas para demonstrar o que os outros fizeram de errado ou também estou disposto a examinar o que preciso mudar em mim?

    Nos grupos de recuperação, essa reflexão ganha uma dimensão comunitária. A pessoa não precisa enfrentar sozinha suas dificuldades, nem depende exclusivamente de sua força de vontade. Pode compartilhar experiências, ouvir outros percursos, receber apoio e reconhecer que a mudança é um processo.

    Para os familiares, princípios semelhantes podem ajudar a distinguir o cuidado saudável da tentativa impossível de controlar a vida de outra pessoa. O amor pode continuar presente, mas precisa encontrar espaço para limites, autocuidado e honestidade.

    Prevenção à Recaída: reconhecer o que acontece antes de perder o controle

    A Prevenção à Recaída, especialmente em sua tradição cognitivo-comportamental, ensina que o retorno ao uso de uma substância não precisa ser compreendido como um acontecimento totalmente repentino.

    Em muitos casos, existem situações, emoções, pensamentos e decisões anteriores que aumentam a vulnerabilidade da pessoa. Reconhecer esses elementos permite planejar respostas e intervir precocemente.

    O modelo de Marlatt e Gordon, sistematizado por Larimer, Palmer e Marlatt em uma revisão publicada em Alcohol Research & Health, em 1999, destaca situações de alto risco, estratégias de enfrentamento, expectativas relacionadas ao consumo, fissura, estresse e fatores de estilo de vida.

    Estados emocionais negativos, como raiva, ansiedade, tristeza, frustração e tédio, podem atuar como situações de risco. Conflitos interpessoais também podem contribuir para o risco de retorno ao consumo. O peso de cada fator depende da história e das circunstâncias de cada pessoa.

    É nesse ponto que a reclamação recorrente pode se tornar um sinal útil para a autopercepção.

    Não porque a reclamação seja, por si só, uma causa comprovada de recaída, mas porque pode sinalizar um estado emocional que merece investigação.

    Imagine alguém em recuperação que começa a repetir que ninguém o compreende, que sua vida está insuportável, que o tratamento não funciona e que sua família só sabe cobrar.

    Essas frases não provam que haverá uma recaída. Podem, entretanto, indicar frustração crescente, dificuldades no relacionamento, desânimo, expectativas frustradas ou outras questões que precisam ser avaliadas.

    O profissional deve investigar o que está por trás dessas manifestações.

    A pessoa está enfrentando sintomas de abstinência? Está dormindo mal? Sente ansiedade intensa? Está passando por conflitos familiares? Está exposta a estímulos associados ao consumo? Está interrompendo o tratamento? Está com fissura? Perdeu atividades significativas ou a rede de apoio?

    A reclamação pode ser uma porta de entrada para compreender essas questões, e não algo a ser simplesmente silenciado.

    A partir da investigação, é possível elaborar respostas de enfrentamento.

    Se existe um conflito, pode ser necessário desenvolver habilidades de comunicação e resolução de problemas. Se há fissura, a pessoa pode precisar utilizar o plano individual de prevenção à recaída. Se o ambiente apresenta riscos, pode ser necessário afastar-se temporariamente da situação. Se existem sintomas clínicos importantes, a equipe deve avaliar a necessidade de intervenção.

    Uma recaída, quando ocorre, também não deve ser automaticamente interpretada como fracasso moral. Ela exige avaliação cuidadosa, retomada do cuidado e identificação das circunstâncias que contribuíram para o episódio.

    A aprendizagem mais importante consiste em reconhecer que emoções intensas não precisam determinar todas as ações seguintes.

    Sentir raiva não obriga alguém a agredir. Sentir frustração não obriga alguém a abandonar o tratamento. Sentir vontade de consumir não significa que a pessoa precise agir sobre essa vontade.

    A emoção é uma experiência. O comportamento é uma resposta que pode ser influenciada por habilidades, suporte, contexto e estratégias de enfrentamento.

    A recuperação consiste, em parte, em ampliar o espaço entre o que sentimos e aquilo que fazemos com o que sentimos.

    A família precisa aprender a cuidar sem assumir o controle de tudo

    A orientação dos familiares é um componente importante do cuidado em transtornos adictivos.

    Uma revisão sistemática e metanálise publicada por Rushton e colaboradores em 2023 avaliou intervenções psicossociais destinadas a familiares afetados pelo uso de substâncias de outra pessoa. Os estudos encontraram resultados favoráveis em alguns indicadores, incluindo redução de sintomas depressivos e sofrimento psicológico, melhora de estratégias de enfrentamento e, em determinadas intervenções, melhora do funcionamento familiar. Os pesquisadores também destacaram limitações metodológicas e a necessidade de estudos mais robustos.

    Isso reforça uma ideia essencial: a família não deve ser tratada apenas como instrumento para convencer o paciente a mudar. Seus integrantes também têm necessidades próprias e merecem atenção.

    Como isso se relaciona com a reclamação?

    Em primeiro lugar, é necessário permitir que os familiares expressem o sofrimento. Não faz sentido exigir serenidade permanente de pessoas expostas durante anos a conflitos, medo e incerteza.

    Em segundo lugar, precisamos distinguir expressão emocional de ruminação. Falar sobre uma situação, receber acolhimento e organizar os pensamentos pode ajudar. Repetir o problema sem espaço para identificar necessidades, limites e ações possíveis pode manter o sofrimento sem produzir novas soluções.

    Em terceiro lugar, é preciso reconhecer o limite da responsabilidade individual.

    Um familiar pode estimular a procura por tratamento, participar de orientações, estabelecer acordos e deixar claras as consequências de determinados comportamentos. Não pode garantir que o outro pare de consumir, evitar todos os riscos ou controlar cada decisão.

    Quando tenta assumir esse controle integral, pode acabar negligenciando o próprio sono, trabalho, saúde, amizades e projetos pessoais.

    A orientação adequada deve favorecer uma mudança gradual da vigilância constante para um cuidado mais consciente, com limites e rede de apoio.

    Isso não significa abandonar a pessoa em recuperação. Significa oferecer apoio sem transformar o amor em fiscalização permanente.

    Também não significa aceitar agressões, violência doméstica, ameaças ou riscos graves. Em situações de violência, a prioridade é a segurança das pessoas afetadas e a procura por serviços especializados. Nenhuma abordagem de autopercepção deve ser utilizada para convencer alguém a permanecer em uma situação perigosa.

    Transformando reclamações em comunicação construtiva

    Uma maneira prática de trabalhar esse processo é transformar acusações globais em descrições específicas, necessidades claras e pedidos possíveis.

    Em vez de afirmar “Você nunca faz nada certo”, é mais útil descrever o comportamento concreto, explicar seu impacto e indicar o que precisa acontecer.

    Em vez de “Ninguém me ajuda”, é possível identificar quem pode oferecer apoio e fazer um pedido específico.

    Em vez de “Ele vai destruir nossa família novamente”, pode-se reconhecer o medo, avaliar os riscos presentes e estabelecer medidas concretas de proteção.

    Essa mudança não garante que o outro atenderá ao pedido. Sua finalidade é permitir uma comunicação mais clara e decisões mais responsáveis.

    O familiar também precisa aprender a reconhecer quando já fez o que estava ao seu alcance e necessita de apoio externo. Repetir a mesma reclamação não substitui acompanhamento psicológico, orientação especializada, grupos de apoio ou decisões práticas.

    A família precisa voltar a ter uma vida que não seja inteiramente subordinada à crise.

    O que muda quando deixamos de procurar apenas culpados?

    Reconhecer a própria participação em uma situação não significa assumir toda a responsabilidade por ela.

    Essa distinção é essencial para evitar dois extremos.

    No primeiro, a pessoa atribui tudo aos outros e não reconhece qualquer possibilidade de mudança pessoal.

    No segundo, assume a culpa por tudo, inclusive pelas decisões e comportamentos que pertencem a outras pessoas.

    Ambos podem comprometer a autopercepção.

    Uma abordagem mais equilibrada procura identificar o que aconteceu, quais fatores contribuíram para o problema, quais aspectos estão fora do controle individual e quais ações estão disponíveis.

    Considere uma pessoa em recuperação que afirma: “Minha família não confia em mim”.

    Talvez a família esteja sendo excessivamente crítica. Talvez existam razões concretas para a perda de confiança. Talvez os dois lados estejam presos a uma dinâmica de acusações.

    A investigação não precisa começar pela escolha de um culpado.

    Pode começar por perguntas mais produtivas:

    O que aconteceu concretamente?

    Que expectativas foram estabelecidas?

    Quais compromissos foram cumpridos ou descumpridos?

    Como cada pessoa está reagindo?

    O que seria necessário para que a confiança começasse a ser reconstruída?

    Quais mudanças podem ser demonstradas por atitudes consistentes?

    Essas perguntas não eliminam o desconforto, mas ajudam a transformar um conflito genérico em problemas específicos.

    Em muitos casos, não conseguiremos modificar imediatamente o comportamento alheio. Podemos, contudo, identificar limites, procurar ajuda e tomar decisões que reduzam os danos.

    A autopercepção não oferece controle absoluto sobre a vida. Oferece a possibilidade de reconhecer melhor onde nossa ação pode fazer diferença.

    Um exercício de autopercepção: observe seu padrão durante sete dias

    A mudança de um comportamento começa pela capacidade de reconhecê-lo. O exercício a seguir pode ser utilizado individualmente, em grupos educativos ou como ponto de partida para uma discussão terapêutica. Não substitui uma avaliação clínica.

    Durante sete dias, observe situações em que você reclama, critica, acusa ou repete mentalmente um problema.

    Não tente mudar tudo imediatamente. Primeiro, procure compreender o que acontece.

    Observe o acontecimento. O que ocorreu de maneira objetiva? Descreva os fatos sem acrescentar interpretações.

    Identifique o pensamento. O que você disse a si mesmo sobre a situação? Qual conclusão tirou? O que esperava que acontecesse?

    Reconheça a emoção. Sentiu raiva, medo, tristeza, vergonha, impotência, frustração ou outra emoção? Qual foi a intensidade?

    Perceba o comportamento. O que fez depois? Reclamou com alguém, iniciou uma discussão, isolou-se, tentou controlar a situação ou procurou resolver o problema?

    Examine a consequência imediata. A reclamação trouxe alívio, acolhimento, compreensão ou uma oportunidade de agir? Ou aumentou o conflito e prolongou a irritação?

    Avalie o efeito posterior. Algumas horas depois, você estava melhor preparado para enfrentar a situação? O problema avançou em direção a uma solução? Ou continuava preso à mesma sequência de pensamentos e acusações?

    Identifique sua margem de ação. O que dependia de você? O que dependia de outras pessoas? O que exigia ajuda profissional, negociação ou estabelecimento de limites?

    Escolha uma resposta alternativa. Na próxima situação semelhante, qual atitude concreta poderá experimentar?

    O objetivo não é chegar à conclusão de que toda reclamação é inadequada. É aprender a reconhecer sua função.

    Talvez você descubra que precisa comunicar uma necessidade que vem sendo ignorada. Talvez perceba que está exigindo de outras pessoas algo que elas não podem oferecer. Talvez reconheça um hábito de antecipar o pior ou uma dificuldade para tolerar a incerteza.

    Também pode descobrir que está vivendo sob uma sobrecarga real e precisa reorganizar sua rotina, procurar apoio ou modificar as condições em que vive.

    Em qualquer desses casos, a observação se transforma em informação útil.

    Para quem está em recuperação, o exercício pode incluir uma pergunta adicional: essa situação aumentou meu desejo de consumir, minha vontade de abandonar o tratamento ou minha sensação de que não consigo suportar o desconforto? Caso a resposta seja positiva, é importante comunicar isso à equipe terapêutica e utilizar o plano de prevenção à recaída.

    Para familiares, pode ser útil perguntar: quanto da minha rotina está sendo consumido pela tentativa de controlar outra pessoa? O que estou deixando de cuidar em minha própria vida? Que apoio preciso procurar para enfrentar essa situação?

    Essas perguntas não devem ser utilizadas para produzir culpa. Sua finalidade é ampliar a percepção e abrir caminhos para decisões mais conscientes.

    Como profissionais podem utilizar essa reflexão no trabalho terapêutico

    Para terapeutas e outros profissionais que atuam na área da dependência química, a reclamação persistente pode ser considerada uma manifestação a ser investigada dentro da história e do contexto do paciente, e não uma característica isolada que explica seu funcionamento.

    É importante evitar interpretações precipitadas, como afirmar que o paciente reclama porque deseja manipular a equipe, que o familiar é necessariamente codependente ou que a resistência à mudança representa falta de caráter.

    A análise precisa considerar aspectos clínicos, relacionais, emocionais e ambientais.

    Uma queixa recorrente pode indicar uma necessidade legítima não atendida, um conflito mal resolvido, expectativas rígidas, dificuldade de regulação emocional, sintomas de depressão ou ansiedade, sofrimento relacionado à abstinência ou outros fatores que exigem atenção.

    A intervenção pode começar pela escuta e pela descrição funcional do comportamento.

    Em que situações a reclamação aparece?

    Com quais pessoas é mais frequente?

    Que emoções costumam precedê-la?

    O que acontece depois?

    Ela favorece a comunicação e a resolução do problema ou contribui para sua manutenção?

    Quais respostas alternativas o paciente consegue experimentar?

    A partir dessas observações, diferentes abordagens podem contribuir. A TCC pode ajudar na identificação de pensamentos automáticos, no questionamento de interpretações e no desenvolvimento de habilidades de enfrentamento. A TREC pode auxiliar no reconhecimento de exigências rígidas e crenças absolutistas. A Entrevista Motivacional pode explorar ambivalências e fortalecer razões próprias para mudar. A Prevenção à Recaída pode relacionar estados emocionais e situações de risco ao plano de recuperação.

    A filosofia dos Doze Passos pode oferecer, para aqueles que se identificam com essa proposta, uma estrutura de inventário pessoal, honestidade e responsabilidade. Seu uso deve respeitar a autonomia, as crenças e as necessidades de cada pessoa.

    Essas abordagens não são intercambiáveis nem dispensam formação específica. A escolha e a combinação de intervenções devem considerar a evidência disponível, a avaliação clínica e os objetivos terapêuticos.

    O papel do profissional não é impedir que o paciente reclame. É criar condições para que ele compreenda o que sua queixa expressa, o que pode aprender com a situação e quais respostas estão disponíveis.

    O conhecimento técnico ganha valor quando ajuda a pessoa a entender os porquês de seu comportamento e a desenvolver recursos para agir de maneira diferente.

    Em vez de se limitar à cobrança de regras, o processo terapêutico pode ampliar a compreensão sobre consequências, escolhas, limites e possibilidades de mudança.

    A autopercepção deixa de ser um discurso abstrato e passa a fazer parte das decisões cotidianas.

    Uma observação importante: autopercepção não é pensamento positivo obrigatório

    Existe o risco de transformar a mensagem sobre reclamação em uma nova forma de cobrança: a ideia de que as pessoas precisam estar sempre bem, agradecer por tudo e evitar expressar emoções desagradáveis.

    Essa não é uma conclusão cientificamente adequada.

    A tristeza tem funções humanas. A raiva pode indicar que um limite foi ultrapassado. O medo pode sinalizar perigo. A insatisfação pode revelar necessidades negligenciadas. A indignação pode mobilizar mudanças necessárias.

    Uma pessoa que vivencia violência, discriminação, exploração ou sofrimento intenso precisa ser ouvida, protegida e apoiada. Não deve ser orientada simplesmente a modificar seus pensamentos para se adaptar a uma situação prejudicial.

    A autopercepção exige reconhecer a realidade, incluindo aquilo que precisa ser denunciado, interrompido ou transformado.

    Também não devemos confundir responsabilidade com autoculpabilização. Nem todas as dificuldades são consequência de escolhas pessoais. Fatores sociais, econômicos, biológicos e familiares podem limitar as alternativas disponíveis e precisam ser considerados.

    O propósito deste artigo é diferenciar a expressão legítima de sofrimento da repetição que deixa de produzir compreensão ou ação.

    Não se trata de proibir a reclamação, mas de perguntar o que ela está produzindo.

    Ela está ajudando a reconhecer um problema? Está permitindo pedir ajuda? Está contribuindo para estabelecer limites? Está favorecendo a mudança? Ou está mantendo a pessoa em uma sequência de acusações, antecipações negativas e conflitos que a afastam das possibilidades de cuidado?

    Essa diferença só pode ser compreendida quando examinamos o contexto.

    A recuperação começa quando desenvolvemos novas respostas

    A neurociência mostra que os transtornos adictivos envolvem alterações complexas nos sistemas relacionados à motivação, à recompensa, ao estresse e ao controle do comportamento. A psicologia demonstra a importância dos padrões de pensamento, da aprendizagem, das emoções e das relações sociais. As abordagens clínicas oferecem ferramentas para modificar comportamentos, ampliar a autopercepção e desenvolver habilidades de enfrentamento.

    Nenhum desses conhecimentos autoriza reduzir a adicção a uma questão de pensamento negativo, muito menos responsabilizar a pessoa por sua condição apenas porque reclama.

    Entretanto, eles permitem reconhecer a importância de observar como reagimos às dificuldades e como nossas respostas influenciam aquilo que acontece depois.

    Uma família pode aprender a cuidar sem assumir o controle da vida de todos os seus integrantes.

    Uma pessoa em recuperação pode aprender a sentir frustração sem transformar esse sentimento em justificativa para abandonar seus objetivos.

    Um profissional pode aprender a ouvir uma queixa sem desqualificá-la e, ao mesmo tempo, ajudar o paciente a investigar o que pode ser feito com aquilo que está sentindo.

    Uma pessoa que passou anos repetindo a mesma história pode começar a identificar os padrões envolvidos e descobrir novas formas de responder às situações.

    A transformação não acontece porque deixamos de sentir emoções desagradáveis. Ela começa quando conseguimos reconhecê-las, compreender sua origem, avaliar nossas interpretações e escolher respostas mais compatíveis com nossos valores e objetivos.

    Em alguns momentos, será necessário aceitar aquilo que não podemos modificar. Em outros, será preciso estabelecer limites, procurar ajuda, assumir responsabilidades ou enfrentar mudanças difíceis.

    Não existe uma única resposta para todas as situações.

    Existe, porém, uma pergunta que pode ajudar a interromper o automatismo: o que posso compreender e fazer a partir daqui, em vez de apenas repetir o que está errado?

    Talvez o primeiro passo não seja parar de reclamar, mas aprender a escutar o que existe por trás da reclamação.

    Pode haver medo, sobrecarga, tristeza, ressentimento, uma necessidade não atendida ou uma mudança que estamos evitando. Ao reconhecer esses elementos, podemos deixar de tratar a queixa como ponto final e transformá-la em início de uma reflexão.

    A recuperação, seja individual ou familiar, exige mais do que reconhecer os problemas. Exige construir novas formas de enfrentá-los.

    Não controlamos todos os acontecimentos, nem podemos determinar as escolhas dos outros. Podemos, entretanto, ampliar nossa capacidade de perceber, decidir, buscar apoio e agir com responsabilidade.

    É nesse espaço entre a dificuldade e a resposta que se encontra uma parte importante da liberdade humana: a possibilidade de aprender a fazer diferente.

    Para continuar a conversa

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    Referências científicas e leituras recomendadas

    Neurociência da adicção e aprendizagem de hábitos

    Koob, G. F.; Volkow, N. D. (2016). Neurobiology of addiction: a neurocircuitry analysis. The Lancet Psychiatry, 3(8), 760–773. Acessar artigo completo no PubMed Central.

    Volkow, N. D.; Blanco, C. (2023). Substance use disorders: a comprehensive update of classification, epidemiology, neurobiology, clinical aspects, treatment and prevention. World Psychiatry, 22(2), 203–229. Acessar artigo completo.

    Robbins, T. W.; Banca, P.; Belin, D. (2024). From compulsivity to compulsion: the neural basis of compulsive disorders. Nature Reviews Neuroscience, 25, 313–333. Acessar publicação.

    Puccetti, N. A. et al. (2024; publicação em volume de 2025). Worry and rumination elicit similar neural representations: neuroimaging evidence for repetitive negative thinking. Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience. Acessar artigo.

    Estresse crônico e saúde

    McEwen, B. S. (2017). Neurobiological and Systemic Effects of Chronic Stress. Chronic Stress. Acessar artigo completo no PubMed Central.

    Contágio emocional

    Herrando, C.; Constantinides, E. (2021). Emotional Contagion: A Brief Overview and Future Directions. Frontiers in Psychology, 12, 712606. Acessar artigo completo.

    Codependência e saúde familiar

    Bortolon, C. B. et al. (2016). Family functioning and health issues associated with codependency in families of drug users. Ciência & Saúde Coletiva, 21(1), 101–107. Acessar artigo na SciELO.

    Bortolon, C. B. et al. (2017). Codependência entre famílias de usuários de álcool e outras drogas: de fato uma doença? Debates em Psiquiatria. Consultar revisão da literatura.

    Rushton, C. et al. (2023). The effectiveness of psychosocial interventions for family members impacted by another’s substance use: A systematic review and meta-analysis. Drug and Alcohol Review, 42(4), 960–977. Acessar publicação.

    Terapia Cognitivo-Comportamental e Prevenção à Recaída

    Boness, C. L. et al. (2023). An Evaluation of Cognitive Behavioral Therapy for Substance Use Disorder: A Systematic Review and Application of the Society of Clinical Psychology Criteria for Empirically Supported Treatments. Clinical Psychology: Science and Practice. Acessar artigo completo.

    Larimer, M. E.; Palmer, R. S.; Marlatt, G. A. (1999). Relapse Prevention: An Overview of Marlatt’s Cognitive-Behavioral Model. Alcohol Research & Health, 23(2), 151–160. Acessar artigo completo.

    Entrevista Motivacional e tratamento psicossocial

    Cochrane (2023). Motivational interviewing for substance use reduction. Acessar revisão sistemática.

    Substance Abuse and Mental Health Services Administration — SAMHSA (2023). Treatment Improvement Protocol 65: Counseling Approaches to Promote Recovery From Problematic Substance Use and Related Issues. Consultar capítulo sobre intervenções psicossociais e prevenção de recorrência.

    Doze Passos e recuperação do transtorno por uso de álcool

    Kelly, J. F.; Humphreys, K.; Ferri, M. (2020). Alcoholics Anonymous and other 12-step programs for alcohol use disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD012880. Acessar revisão sistemática.

    TREC/TRE — fundamentos teóricos

    Ellis, A. Emotional Disturbance and Its Treatment in a Nutshell: The ABCs. Material explicativo sobre o modelo ABC da Terapia Racional-Emotiva Comportamental. Consultar documento do Albert Ellis Institute.

    Nota de rigor científico: as referências sobre ruminação, aprendizagem, estresse e contágio emocional ajudam a compreender mecanismos relacionados à reclamação repetitiva, mas não demonstram que reclamar, isoladamente, produza alterações cerebrais específicas ou cause diretamente doenças físicas. As abordagens clínicas citadas possuem fundamentos, objetivos e níveis de evidência distintos; sua aplicação deve considerar o contexto e as necessidades de cada pessoa.

  • Ciúme alcoólico: causas, evolução, consequências e possibilidades de tratamento

    Ciúme alcoólico: causas, evolução, consequências e possibilidades de tratamento

    Entenda como o consumo problemático de álcool pode intensificar o ciúme, comprometer os relacionamentos e contribuir para situações de violência psicológica, patrimonial e física.

    Introdução: quando o ciúme deixa de ser um sentimento e se transforma em um problema

    O ciúme é uma emoção humana que pode surgir diante do medo de perder uma pessoa importante, da insegurança afetiva ou da percepção de uma possível ameaça ao relacionamento. Em determinadas circunstâncias, pode ser passageiro e não provocar prejuízos significativos. Entretanto, quando se torna intenso, persistente, desproporcional e acompanhado de acusações constantes, vigilância, controle e agressividade, pode comprometer seriamente a saúde emocional das pessoas envolvidas.

    Quando esse quadro aparece associado ao consumo de álcool, merece atenção especial.

    O chamado ciúme alcoólico é uma expressão utilizada para descrever manifestações de ciúme que surgem ou se intensificam em associação com o consumo problemático de bebidas alcoólicas. Não se trata, por si só, de um diagnóstico médico específico. Suas manifestações podem variar desde discussões e suspeitas durante a intoxicação até um quadro clínico mais grave, caracterizado por convicções persistentes e infundadas de infidelidade.

    A literatura científica reconhece uma associação entre o uso problemático de álcool e determinadas manifestações de ciúme patológico. Um estudo publicado no British Journal of Psychiatry, em 1995, avaliou 207 homens com dependência de álcool e identificou manifestações de ciúme patológico em 71 participantes, aproximadamente 34% da amostra. Em alguns casos, o ciúme ocorria somente durante a intoxicação; em outros, persistia mesmo quando a pessoa estava sóbria. Também foram identificados casos com características delirantes.

    É importante interpretar esse resultado com cautela: trata-se de uma amostra clínica específica, composta por homens que procuravam tratamento, e não de uma estimativa da prevalência de ciúme alcoólico na população em geral. O estudo, contudo, demonstra a importância clínica de investigar essa associação.

    Fonte: PubMed — Morbid jealousy in alcoholism.

    Para compreender o fenômeno, precisamos analisar não apenas o álcool, mas também os aspectos psicológicos, emocionais, sociais e relacionais que podem contribuir para o desenvolvimento do problema.

    O objetivo deste artigo é oferecer informações acessíveis, fundamentadas em pesquisas científicas e orientadas à prevenção, ajudando leitores, familiares e profissionais a reconhecer sinais de alerta e compreender quando é necessário buscar ajuda.

    O que é o ciúme alcoólico?

    O ciúme alcoólico pode ser compreendido como um conjunto de manifestações de ciúme relacionadas temporal ou clinicamente ao consumo de bebidas alcoólicas.

    A relação entre álcool e ciúme não acontece de maneira idêntica em todas as pessoas. O consumo pode intensificar inseguranças já existentes, reduzir a capacidade de controlar impulsos, favorecer interpretações equivocadas de situações cotidianas ou estar associado a alterações psiquiátricas que exigem avaliação especializada.

    Imagine uma pessoa que, quando está sóbria, consegue lidar com pequenas frustrações no relacionamento. Depois de consumir bebidas alcoólicas, passa a interpretar uma conversa comum como uma demonstração de interesse sexual, considera uma demora em responder mensagens como prova de traição e começa a exigir explicações cada vez mais detalhadas.

    Em outra situação, a pessoa pode apresentar suspeitas mesmo sem ter consumido álcool naquele dia. Ela revisa conversas antigas, interpreta acontecimentos passados como evidências de infidelidade e mantém suas acusações apesar da ausência de elementos que as sustentem.

    Embora essas situações possam parecer semelhantes para quem as observa de fora, elas não necessariamente possuem a mesma origem clínica. Por isso, não é correto concluir que toda manifestação de ciúme associada à bebida seja um delírio ou que todas as pessoas que apresentam ciúme intenso tenham dependência de álcool.

    O que deve chamar a atenção é a combinação entre intensidade, frequência, prejuízo ao relacionamento, perda de controle e possíveis comportamentos de ameaça ou violência.

    Ciúme habitual, ciúme excessivo e ciúme patológico: quais são as diferenças?

    Para compreender o ciúme alcoólico, é necessário distinguir manifestações que podem parecer semelhantes, mas que apresentam diferenças importantes.

    Ciúme habitual

    O ciúme habitual pode aparecer diante de uma situação percebida como ameaçadora ao relacionamento. A pessoa reconhece o que sente, consegue conversar sobre suas preocupações e, em geral, mantém a capacidade de considerar explicações alternativas.

    Por exemplo, alguém pode sentir desconforto ao perceber uma aproximação entre o parceiro e outra pessoa. Em vez de transformar o desconforto em uma acusação, conversa sobre o ocorrido e procura compreender a situação.

    Nesse contexto, o sentimento não determina automaticamente o comportamento.

    Ciúme excessivo

    O ciúme torna-se preocupante quando as suspeitas são frequentes, as reações desproporcionais e a necessidade de confirmação passa a interferir na rotina.

    Podem surgir perguntas repetitivas, cobranças sobre horários, exigências de explicações para interações sociais e conflitos relacionados ao uso do celular.

    A pessoa pode reconhecer parcialmente que está exagerando, mas encontra dificuldade para interromper o ciclo de suspeitas e cobranças.

    Ciúme obsessivo

    No ciúme obsessivo, os pensamentos relacionados à possibilidade de traição tornam-se recorrentes e difíceis de afastar. A pessoa pode passar horas reconstruindo acontecimentos, examinando mensagens e procurando sinais que confirmem ou afastem suas suspeitas.

    Mesmo quando recebe explicações, sente alívio apenas temporário. Em pouco tempo, uma nova dúvida aparece.

    Uma pesquisa publicada no British Journal of Clinical Psychology, com 1.076 adultos, encontrou associação entre manifestações obsessivas de ciúme, prejuízo funcional e violência verbal. Foram observadas associações mais fracas com violência física e consumo de álcool. Por ser um estudo observacional, seus resultados não demonstram que o ciúme necessariamente provoque violência, mas reforçam a importância de identificar manifestações que prejudicam a vida cotidiana.

    Fonte: PubMed Central — Obsessional jealousy in a community sample.

    Ciúme delirante

    O ciúme delirante é uma manifestação clínica mais grave, na qual a pessoa sustenta uma convicção de infidelidade que não é adequadamente sustentada pelas evidências e que pode permanecer resistente a explicações e questionamentos.

    Não se trata simplesmente de desconfiar muito ou de discutir frequentemente. O aspecto central é a natureza da crença, sua intensidade, sua persistência e a dificuldade de reconsiderá-la.

    A pessoa pode interpretar acontecimentos banais como provas de traição, atribuir significados ocultos a comportamentos comuns e construir explicações cada vez mais elaboradas para justificar suas conclusões.

    É necessário cuidado: somente um profissional habilitado, após avaliação clínica, pode determinar se existe um quadro delirante e investigar suas possíveis causas.

    O ciúme delirante pode ocorrer em diferentes condições psiquiátricas, neurológicas ou relacionadas a substâncias. Sua presença não deve ser automaticamente atribuída ao álcool.

    Ponto fundamental: o grau de perigo não pode ser determinado apenas pelo tipo de ciúme. Ameaças, perseguição, acesso a armas, agressões anteriores, controle coercitivo e escalada da violência são sinais que exigem atenção independentemente de existir ou não um diagnóstico psiquiátrico.

    Como o álcool pode modificar o comportamento e favorecer o ciúme?

    O álcool atua sobre o sistema nervoso central e pode prejudicar funções importantes para a convivência, como atenção, julgamento, memória, interpretação de situações e controle dos impulsos.

    Se uma pessoa já apresenta insegurança, desconfiança intensa ou dificuldade para lidar com frustrações, a intoxicação pode contribuir para que essas características se manifestem de maneira mais intensa.

    Entre os mecanismos que ajudam a compreender essa relação estão os seguintes.

    Redução do controle dos impulsos

    O consumo de álcool pode diminuir a capacidade de interromper uma reação antes que ela se transforme em comportamento.

    Uma pessoa que sente raiva ou desconfiança pode ter maior dificuldade para avaliar as consequências de uma acusação, de uma ameaça ou de uma atitude agressiva.

    Isso não significa que toda pessoa alcoolizada se tornará agressiva. A resposta ao álcool varia conforme a quantidade consumida, o padrão de uso, as características individuais e o contexto em que ocorre o consumo.

    Alterações na interpretação das situações

    Durante a intoxicação, a pessoa pode ter maior dificuldade para interpretar adequadamente expressões faciais, conversas, brincadeiras e interações sociais.

    Uma situação ambígua pode ser interpretada como provocação, rejeição ou ameaça ao relacionamento.

    Em alguém que já apresenta forte tendência à desconfiança, essa alteração pode contribuir para a construção de suspeitas.

    Atenção concentrada em sinais percebidos como ameaçadores

    Uma explicação estudada na literatura sobre álcool e agressividade é a chamada teoria da miopia alcoólica.

    Em termos simples, ela propõe que a intoxicação pode estreitar o foco da atenção, dificultando a consideração simultânea de informações relevantes.

    Em uma discussão motivada por ciúme, a pessoa pode concentrar-se em um detalhe que considera suspeito e ignorar outros elementos que poderiam oferecer uma interpretação diferente.

    Por exemplo, percebe que o parceiro demorou a responder a uma mensagem, mas deixa de considerar que ele estava trabalhando, dirigindo ou participando de uma atividade que impossibilitava uma resposta imediata.

    Essa teoria ajuda a compreender alguns comportamentos, mas não explica todos os casos e não deve ser utilizada para presumir que o álcool seja a única causa do problema.

    Amplificação de inseguranças preexistentes

    O consumo problemático de álcool pode interagir com sentimentos de inadequação, medo de abandono, experiências anteriores de traição e dificuldades para regular emoções.

    Em algumas pessoas, a bebida parece funcionar como um amplificador de conflitos que já existiam.

    Em outras, as manifestações de ciúme podem aparecer em associação com alterações relacionadas ao uso prolongado de álcool ou com outros problemas de saúde.

    A direção dessa relação nem sempre é simples: o álcool pode agravar dificuldades anteriores, enquanto o sofrimento provocado pelos conflitos pode levar a pessoa a beber ainda mais.

    Alterações do sono, da memória e do funcionamento cognitivo

    O consumo frequente e excessivo pode comprometer o sono e prejudicar o funcionamento cognitivo.

    Além disso, durante episódios de intoxicação intensa, podem ocorrer falhas de memória. A pessoa pode não se recordar adequadamente de conversas ou acontecimentos e, posteriormente, preencher essas lacunas com interpretações equivocadas.

    Essas situações precisam ser avaliadas individualmente. Falhas de memória não significam necessariamente que exista ciúme patológico, assim como o ciúme persistente não pode ser explicado automaticamente por alterações cognitivas relacionadas ao álcool.

    Alterações psiquiátricas associadas ao consumo

    Em determinados casos, o uso de álcool pode coexistir com sintomas psicóticos, alterações importantes do humor ou outras condições psiquiátricas.

    Também é possível que uma pessoa apresente um transtorno mental independente do consumo de álcool.

    Por isso, quando surgem suspeitas intensas e persistentes de infidelidade, especialmente acompanhadas de outras alterações de comportamento, é necessário investigar a história clínica, o padrão de consumo, os medicamentos utilizados e a presença de outros sintomas.

    O diagnóstico não deve ser estabelecido apenas pela observação do comportamento durante uma discussão.

    Quais podem ser as causas iniciais do ciúme alcoólico?

    Não existe uma causa única capaz de explicar todos os casos. Em geral, é mais adequado pensar em uma combinação de fatores individuais, relacionais, sociais e relacionados ao consumo de álcool.

    É importante separar fatores que podem aumentar a vulnerabilidade de acontecimentos que efetivamente desencadeiam um episódio.

    Insegurança emocional

    A pessoa pode interpretar a possibilidade de perder o relacionamento como uma ameaça intensa à própria identidade ou ao seu valor pessoal.

    Uma demora para responder, uma mudança de rotina ou uma conversa com outra pessoa podem desencadear sentimentos desproporcionais de rejeição.

    A insegurança, isoladamente, não caracteriza doença e não torna ninguém necessariamente controlador. O problema surge quando o sofrimento passa a ser administrado por meio de cobranças, vigilância ou restrições à liberdade do parceiro.

    Medo de abandono

    Experiências anteriores de rejeição, rupturas dolorosas ou relacionamentos marcados por instabilidade podem influenciar a maneira como alguém interpreta situações afetivas.

    Em algumas pessoas, esse histórico contribui para uma vigilância constante em busca de sinais de que o relacionamento está prestes a terminar.

    Entretanto, não é correto concluir que todo indivíduo com medo de abandono desenvolverá ciúme patológico, nem que seja possível identificar a origem do problema apenas conhecendo sua história familiar.

    Experiências anteriores de traição

    Uma pessoa que vivenciou uma traição pode apresentar dificuldades para reconstruir a confiança.

    O histórico pode ajudar a explicar a origem de determinadas preocupações, mas não justifica a imposição de controle permanente sobre o parceiro atual.

    Uma experiência passada não transforma suspeitas presentes em fatos comprovados.

    Crenças rígidas sobre relacionamentos

    Algumas pessoas aprendem a interpretar o relacionamento amoroso como uma relação de posse.

    Podem acreditar que amar significa ter acesso irrestrito ao celular do outro, conhecer todos os seus deslocamentos ou determinar com quem ele pode conversar.

    Essas crenças podem favorecer comportamentos controladores, especialmente quando se combinam com desconfiança intensa e consumo problemático de álcool.

    Baixa tolerância à frustração

    Dificuldades para lidar com contrariedades, rejeição ou incerteza podem favorecer reações impulsivas.

    Quando a pessoa não consegue aceitar que nem todas as dúvidas serão esclarecidas imediatamente, pode insistir em interrogatórios, acusações e confrontos.

    Aprendizagem de comportamentos violentos

    Pessoas que cresceram observando humilhações, ameaças ou agressões dentro de casa podem ter aprendido modelos inadequados de resolução de conflitos.

    Isso não significa que reproduzirão necessariamente esses comportamentos. Significa que experiências anteriores podem influenciar aquilo que consideram aceitável em um relacionamento.

    A aprendizagem de comportamentos violentos pode ser trabalhada, mas exige responsabilização e mudança efetiva de conduta.

    Uso do álcool para lidar com emoções

    Algumas pessoas recorrem à bebida para tentar aliviar ansiedade, tristeza, frustração ou sentimentos de inadequação.

    Quando esse padrão se repete, o álcool pode passar a ocupar um papel central na maneira de enfrentar problemas emocionais.

    O alívio inicial não resolve necessariamente a dificuldade que originou o consumo. Em determinadas circunstâncias, o uso posterior pode aumentar os conflitos, prejudicar o sono e dificultar a regulação emocional.

    Forma-se, assim, um ciclo em que a pessoa bebe para aliviar o sofrimento, enfrenta novas consequências e volta a beber para tentar suportá-las.

    Problemas no relacionamento

    Conflitos, dificuldades de comunicação e experiências de quebra de confiança podem contribuir para o sofrimento de um casal.

    É importante, porém, distinguir conflitos relacionais de comportamentos abusivos.

    Um relacionamento pode apresentar dificuldades sem que exista violência. Por outro lado, a presença de violência não deve ser tratada como um simples problema de comunicação que os dois precisam resolver igualmente.

    A responsabilidade por ameaças, agressões e comportamentos de controle pertence a quem os pratica.

    Outros fatores clínicos

    Alterações do humor, transtornos psicóticos, condições neurológicas, efeitos de medicamentos e uso de outras substâncias podem estar associados a mudanças de comportamento e suspeitas intensas.

    Essas possibilidades precisam ser consideradas especialmente quando o comportamento é recente, apresenta agravamento rápido ou vem acompanhado de confusão mental, alucinações, desorientação ou outras alterações importantes.

    Nenhum desses fatores deve ser presumido sem avaliação.

    Como o ciúme alcoólico pode evoluir ao longo do tempo?

    Não existe uma sequência obrigatória de evolução do ciúme associado ao álcool. Algumas pessoas apresentam conflitos ocasionais durante a intoxicação, enquanto outras desenvolvem comportamentos persistentes de suspeita e controle. Há também situações em que o quadro se agrava rapidamente.

    A divisão a seguir apresenta um modelo didático de possíveis etapas de agravamento. Não se trata de uma classificação diagnóstica oficial nem de fases pelas quais todas as pessoas necessariamente passarão. Sua finalidade é ajudar leitores e profissionais a reconhecer sinais de alerta precocemente.

    Desconfianças e inseguranças iniciais

    No início, podem aparecer comentários desconfiados, perguntas insistentes e interpretações equivocadas de situações cotidianas.

    A pessoa pode perguntar repetidamente com quem o parceiro conversou, demonstrar irritação diante de uma interação social ou exigir explicações para mudanças na rotina.

    Esses comportamentos podem surgir em diferentes contextos. O que merece atenção é a frequência com que se repetem e a maneira como são utilizados para pressionar o outro.

    Sinais possíveis incluem irritação desproporcional diante de situações ambíguas, perguntas repetitivas sobre amizades e contatos sociais, acusações sem elementos concretos, necessidade constante de receber garantias de fidelidade e discussões que aparecem ou se intensificam após o consumo de álcool.

    Nessa etapa, uma intervenção precoce pode ajudar a evitar que comportamentos prejudiciais se tornem habituais.

    Intensificação durante a intoxicação

    A pessoa passa a apresentar episódios mais evidentes de ciúme quando bebe.

    Uma conversa banal pode desencadear uma discussão. Um comentário pode ser interpretado como provocação. Uma saída com amigos pode ser entendida como uma tentativa de esconder alguma coisa.

    O consumo pode contribuir para a perda de controle dos impulsos e para a interpretação rígida das situações.

    Algumas pessoas se tornam verbalmente agressivas, enquanto outras começam a exigir acesso ao celular, interrompem encontros sociais ou tentam impedir o parceiro de sair.

    Um sinal especialmente importante é a repetição do mesmo padrão: a pessoa bebe, apresenta acusações ou comportamentos controladores e, no dia seguinte, minimiza o episódio.

    Frases como “eu estava bêbado”, “não lembro de nada” ou “você sabe que eu sou assim quando bebo” podem ser utilizadas para encerrar a discussão sem que exista uma mudança real.

    É necessário diferenciar uma explicação clínica de uma justificativa para a violência. A intoxicação pode ajudar a compreender determinados comportamentos, mas não torna aceitáveis as ameaças, as humilhações ou as agressões.

    O ciúme começa a aparecer também quando a pessoa está sóbria

    Com o agravamento do problema, as suspeitas podem deixar de estar restritas aos episódios de consumo.

    A pessoa continua desconfiada mesmo após passar o efeito imediato da bebida. Pode recordar seletivamente discussões anteriores, reinterpretar acontecimentos antigos e procurar evidências para sustentar suas suspeitas.

    Nessa situação, é necessário investigar se o álcool está agravando um padrão de ciúme preexistente, se há um quadro psiquiátrico associado ou se outros fatores estão envolvidos.

    A persistência do comportamento durante a sobriedade não significa, por si só, que exista um transtorno delirante. É um sinal de que a avaliação não deve se limitar ao que acontece durante a intoxicação.

    Vigilância, interrogatórios e controle

    O ciúme pode começar a organizar a rotina do casal.

    A pessoa passa a querer saber onde o parceiro está, com quem conversa, quanto tempo permanece fora e por que demorou a responder.

    O controle pode envolver inspeção frequente do celular, exigência de senhas e acesso a contas pessoais, monitoramento de redes sociais, exigência de fotografias ou localização em tempo real, proibição de determinadas amizades e pressão para abandonar atividades sociais.

    Essas condutas não são demonstrações obrigatórias de amor, zelo ou compromisso. Quando impostas por intimidação, ameaça ou coerção, podem integrar um padrão de violência psicológica e controle coercitivo.

    O objetivo do controle pode ser reduzir a ansiedade de quem sente ciúme, mas o resultado é a restrição progressiva da autonomia do parceiro.

    Acusações persistentes e interpretação distorcida da realidade

    Em alguns casos, as suspeitas se tornam mais rígidas e difíceis de reconsiderar.

    A pessoa pode interpretar uma mudança de roupa, um horário diferente ou uma conversa de trabalho como prova de infidelidade. Quando recebe uma explicação, pode considerá-la parte de uma suposta tentativa de enganá-la.

    O problema deixa de ser apenas a ocorrência de discussões. Passa a envolver uma forma persistente de interpretar acontecimentos.

    Em situações mais graves, pode haver convicção delirante de infidelidade. Essa possibilidade exige avaliação psiquiátrica, especialmente quando a crença é acompanhada de ameaças, perseguição, agressividade ou perda importante do funcionamento cotidiano.

    O parceiro não tem obrigação de convencer a pessoa de que não está sendo infiel a cada vez que uma nova suspeita aparece. Tampouco deve assumir a responsabilidade de controlar os sintomas de outra pessoa.

    Escalada para ameaças e violência

    Quando o ciúme se combina com controle coercitivo, consumo problemático de álcool e outros fatores de risco, podem surgir ameaças e agressões.

    A violência pode começar com humilhações, intimidação e destruição de objetos, evoluir para restrições financeiras e isolamento social e, em determinadas situações, incluir agressões físicas ou sexuais.

    Essa evolução não é inevitável. Muitas pessoas com problemas relacionados ao álcool não praticam violência, e a violência pode ocorrer sem consumo de álcool.

    Entretanto, a presença de ameaças, agressões anteriores, perseguição, estrangulamento, acesso a armas ou ameaças de morte exige atenção imediata.

    Não é necessário esperar que aconteça uma agressão física para reconhecer que uma relação se tornou perigosa.

    Consequências acumuladas e agravamento do ciclo

    Quando o padrão permanece sem intervenção, os prejuízos podem atingir diferentes áreas da vida.

    A pessoa que pratica o controle pode enfrentar perda de relacionamentos, problemas familiares, dificuldades profissionais e consequências jurídicas. A pessoa submetida ao controle pode desenvolver medo, ansiedade, isolamento, dificuldades financeiras e redução da autonomia.

    Os conflitos também podem comprometer a convivência com os filhos e produzir um ambiente doméstico de insegurança.

    Em paralelo, a pessoa que apresenta consumo problemático pode continuar bebendo para lidar com as consequências das próprias atitudes, aumentando a vulnerabilidade a novos episódios.

    Esse ciclo pode ser interrompido, mas exige mais do que promessas feitas após uma discussão. São necessárias mudanças concretas no padrão de consumo, no comportamento e na maneira de lidar com as emoções.

    Ciúme alcoólico e violência psicológica: quando o relacionamento passa a produzir sofrimento

    A violência psicológica é uma das manifestações que podem surgir em relacionamentos marcados por ciúme excessivo e controle coercitivo.

    Ela pode ocorrer por meio de humilhações, ameaças, constrangimentos, manipulação, isolamento, perseguição e comportamentos destinados a diminuir a autonomia ou a autoestima de outra pessoa.

    Nem toda discussão representa violência psicológica. Entretanto, quando as condutas são utilizadas para intimidar, dominar, humilhar ou restringir a liberdade do parceiro, a situação exige atenção.

    No Brasil, a Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica contra a mulher como uma forma de violência doméstica e familiar. A caracterização jurídica depende das circunstâncias concretas e das normas aplicáveis.

    Humilhação e desqualificação

    A pessoa pode chamar o parceiro de mentiroso, promíscuo, desonesto ou incapaz de ser fiel, mesmo sem evidências que sustentem as acusações.

    Pode ridicularizá-lo diante de familiares, colegas ou amigos e utilizar informações pessoais para constrangê-lo.

    Quando isso se repete, a pessoa submetida às acusações pode começar a duvidar de si mesma e evitar situações sociais para impedir novos conflitos.

    Interrogatórios e acusações intermináveis

    A pessoa submetida ao ciúme pode ser obrigada a explicar repetidamente os mesmos acontecimentos.

    Uma resposta nunca parece suficiente. Se explica demais, é acusada de estar inventando detalhes; se responde pouco, é acusada de esconder informações.

    Esse padrão pode transformar atividades comuns em situações de tensão permanente.

    Isolamento social

    O controle pode começar com críticas a determinadas amizades e evoluir para proibições, ameaças ou conflitos sempre que o parceiro tenta manter sua vida social.

    A pessoa pode abandonar amigos, deixar de participar de reuniões familiares ou evitar colegas de trabalho para impedir discussões em casa.

    Com o tempo, o isolamento reduz o acesso a pessoas capazes de oferecer apoio e ajuda prática.

    Vigilância digital

    O ciúme também pode se manifestar por meio de tecnologias.

    A pessoa pode exigir senhas, ler mensagens sem autorização, monitorar a localização, controlar contatos, utilizar contas falsas para observar o parceiro ou enviar mensagens ameaçadoras durante o trabalho.

    A literatura científica recente investiga a associação entre consumo problemático de álcool, ciúme e abuso digital em relacionamentos. Um estudo publicado em 2025, baseado em uma amostra de 91 casais jovens, encontrou associações entre fatores relacionados ao consumo, ciúme e comportamentos abusivos digitais. Por se tratar de uma amostra específica, seus resultados não devem ser generalizados para todos os casais.

    Fonte: Journal of Social and Personal Relationships — estudo sobre álcool, ciúme e abuso digital.

    Ameaças de abandono, exposição ou retaliação

    A pessoa pode ameaçar terminar o relacionamento, divulgar conversas privadas, expor informações íntimas ou prejudicar a reputação do parceiro caso ele não cumpra suas exigências.

    Também pode utilizar ameaças contra familiares, animais de estimação ou pessoas próximas para produzir medo.

    Quando existe risco de retaliação, a pessoa submetida à violência pode sentir que não tem liberdade para procurar ajuda ou encerrar o relacionamento.

    Manipulação e transferência de responsabilidade

    Depois de um episódio de agressividade, a pessoa pode afirmar que agiu daquela maneira porque foi provocada, desrespeitada ou levada ao limite.

    Pode dizer que o parceiro é responsável por suas bebedeiras ou que, se não tivesse escondido alguma coisa, nada teria acontecido.

    É importante distinguir conflitos nos quais ambas as pessoas precisam rever suas atitudes de situações em que alguém utiliza a culpabilização para justificar o próprio comportamento abusivo.

    Ninguém é responsável pela decisão de outra pessoa de ameaçar, humilhar ou agredir.

    Medo como instrumento de controle

    Em determinadas relações, o parceiro passa a organizar suas escolhas com base no medo da reação do outro.

    Pode deixar de sair, modificar a maneira de se vestir, evitar conversas com colegas e antecipar explicações para acontecimentos que ainda nem ocorreram.

    Essa adaptação constante pode ser um sinal de que a relação está comprometendo sua liberdade e sua segurança.

    A ausência de agressões físicas não significa ausência de violência.

    Ciúme alcoólico e violência patrimonial: o controle do dinheiro e dos bens

    A violência patrimonial ocorre quando há retenção, subtração, destruição ou controle abusivo de bens, documentos, valores ou recursos econômicos, conforme as circunstâncias e a legislação aplicável.

    No contexto do ciúme, o dinheiro pode ser utilizado como instrumento de controle.

    Isso pode acontecer quando uma pessoa tenta impedir que o parceiro tenha recursos para sair de casa, procurar ajuda, manter vínculos sociais ou conquistar independência financeira.

    Entre os exemplos que merecem atenção estão destruir o celular para impedir contatos com outras pessoas, esconder documentos pessoais, reter cartões bancários ou dinheiro, controlar todos os gastos do parceiro por meio de ameaças, impedir o acesso ao próprio salário, destruir roupas, presentes ou objetos pessoais durante uma crise, danificar instrumentos de trabalho para prejudicar a autonomia financeira, contrair dívidas indevidas ou utilizar recursos do parceiro sem autorização e impedir o uso de meios de transporte como forma de restringir a liberdade.

    É necessário distinguir o planejamento financeiro consensual de uma relação de controle. Casais podem decidir compartilhar rendimentos e organizar conjuntamente as despesas sem que isso represente violência.

    O problema aparece quando o controle é imposto, acompanhado de intimidação ou utilizado para retirar a autonomia de alguém.

    Como a violência patrimonial pode dificultar a saída de uma relação abusiva?

    Uma pessoa que não possui acesso ao próprio dinheiro pode enfrentar dificuldades para pagar transporte, alimentação, moradia temporária, medicamentos ou despesas com os filhos.

    Se seus documentos foram retidos, se perdeu o acesso às contas bancárias ou se teve instrumentos de trabalho destruídos, a possibilidade de reorganizar a vida pode ficar ainda mais limitada.

    Por isso, a prevenção à violência patrimonial também envolve informação sobre direitos, acesso à rede de proteção e planejamento de segurança.

    Em situações de risco, medidas como guardar cópias de documentos e identificar uma pessoa de confiança podem ajudar, desde que sejam realizadas de forma segura e sem aumentar o perigo.

    Não se deve recomendar que alguém confronte o agressor ou anuncie antecipadamente seus planos de saída quando existe possibilidade de retaliação.

    Ciúme alcoólico e violência física: sinais que exigem atenção

    A violência física pode incluir empurrões, tapas, socos, chutes, imobilizações, arremesso de objetos contra a pessoa e outras formas de agressão corporal.

    Também merecem atenção comportamentos que podem ser apresentados como brincadeiras, acidentes ou tentativas de impedir uma discussão, mas que envolvem força física, intimidação ou restrição da liberdade.

    Em situações de ciúme intenso, a agressão pode ocorrer durante uma discussão sobre suposta infidelidade, durante uma tentativa de verificar o celular ou quando o parceiro manifesta intenção de sair do ambiente.

    O álcool pode estar presente, mas não é necessário que a pessoa esteja alcoolizada para que exista violência.

    Agressões não precisam deixar marcas para serem graves

    Segurar alguém com força, impedir que saia de um cômodo, bloquear uma porta ou lançar objetos para intimidar são comportamentos que precisam ser avaliados no contexto em que ocorrem.

    A ausência de hematomas não significa que não houve violência.

    Da mesma forma, não é necessário que uma agressão resulte em lesão grave para que a pessoa procure proteção.

    Estrangulamento e compressão do pescoço

    Qualquer episódio de estrangulamento ou compressão do pescoço deve ser tratado como sinal de extrema gravidade.

    Mesmo quando não existem marcas visíveis, podem ocorrer lesões internas e complicações potencialmente fatais.

    Após esse tipo de agressão, é necessário procurar atendimento médico urgente. Se houver dificuldade para respirar ou engolir, alteração da voz, confusão, desmaio ou outros sintomas, a urgência é ainda maior.

    Ameaças de morte e escalada da violência

    Ameaças de morte, perseguição, acesso a armas, agressões anteriores e tentativas de impedir a separação são sinais que não devem ser minimizados.

    Não é possível prever com precisão o comportamento de uma pessoa apenas com base em uma lista de fatores. Entretanto, a presença desses sinais justifica uma avaliação de segurança e a busca de apoio especializado.

    Se houver risco imediato, a prioridade não é discutir a relação nem tentar convencer a pessoa a reconhecer o próprio comportamento. A prioridade é proteger a integridade física de quem está em perigo.

    Por que o álcool não pode ser utilizado como justificativa para a violência?

    A relação entre álcool e violência é complexa.

    O consumo pode aumentar a probabilidade de determinados comportamentos agressivos em algumas circunstâncias, especialmente quando se combina com fatores individuais, conflitos relacionais e outros riscos.

    Entretanto, não existe uma relação automática entre beber e agredir.

    Muitas pessoas com transtorno por uso de álcool não praticam violência. Da mesma forma, existem pessoas que praticam violência doméstica sem consumir bebidas alcoólicas.

    Pesquisas sobre violência por parceiro íntimo indicam que problemas relacionados ao álcool e características como o ciúme podem interagir na associação com comportamentos violentos. Estudos observacionais, contudo, não permitem concluir que o álcool seja a única causa ou que toda pessoa que apresenta esses fatores vá praticar agressões.

    Fonte: PubMed Central — pesquisa sobre ciúme, álcool e violência por parceiro íntimo.

    É necessário distinguir três questões.

    Explicação: compreender como a intoxicação, os impulsos e as dificuldades emocionais podem contribuir para um comportamento.

    Responsabilização: reconhecer que ameaças, agressões e condutas abusivas precisam ser interrompidas e que a pessoa que as pratica deve responder por suas ações.

    Tratamento: buscar intervenções para o problema relacionado ao álcool e para os fatores psicológicos ou psiquiátricos associados.

    Essas três dimensões são complementares.

    Tratar o consumo de álcool não elimina automaticamente comportamentos de controle. Da mesma forma, trabalhar a comunicação do casal não substitui o tratamento de um transtorno por uso de álcool ou de um quadro psiquiátrico.

    A segurança da pessoa submetida à violência deve permanecer como prioridade.

    Como o ciúme alcoólico afeta a saúde mental?

    As consequências podem atingir tanto quem apresenta o comportamento de ciúme quanto quem é submetido às acusações e ao controle.

    Consequências para a pessoa que apresenta o ciúme

    A pessoa pode experimentar ansiedade, irritabilidade, pensamentos repetitivos, dificuldade para dormir e sofrimento diante de situações que interpreta como ameaçadoras.

    Quando existe consumo problemático, os conflitos podem agravar dificuldades familiares, profissionais e financeiras.

    A busca constante por confirmação também pode comprometer a capacidade de manter relacionamentos estáveis.

    Nos casos em que há alterações psiquiátricas associadas, o sofrimento pode ser mais intenso e exigir atendimento especializado.

    Consequências para o parceiro ou a parceira

    A convivência com acusações constantes pode provocar medo, ansiedade, tristeza, exaustão emocional e perda de confiança.

    A pessoa pode passar a monitorar as próprias palavras e atitudes para evitar discussões.

    Em situações prolongadas, pode apresentar isolamento social, dificuldades de concentração, prejuízos no trabalho e sintomas relacionados ao estresse traumático.

    Essas consequências não aparecem necessariamente em todas as pessoas e não podem ser diagnosticadas apenas pela descrição de um relacionamento.

    Consequências para os filhos

    Crianças e adolescentes podem ser afetados mesmo quando não são agredidos diretamente.

    A exposição repetida a gritos, ameaças, humilhações e agressões pode comprometer a sensação de segurança dentro de casa.

    Algumas crianças apresentam medo, alterações do sono, dificuldades escolares ou mudanças de comportamento. Outras podem tentar intervir nas discussões ou assumir responsabilidades incompatíveis com a idade.

    É importante evitar que os filhos sejam transformados em mensageiros, investigadores ou árbitros do relacionamento.

    Também é inadequado utilizá-los para vigiar o outro genitor ou obter informações sobre sua rotina.

    Quando existe violência doméstica, a proteção das crianças precisa fazer parte da avaliação de segurança e do planejamento de atendimento.

    Consequências para a família e a rede de apoio

    Familiares podem se sentir pressionados a escolher lados, esconder episódios de violência ou convencer a pessoa a permanecer no relacionamento.

    Amigos podem afastar-se diante da repetição dos conflitos, reduzindo o apoio disponível.

    Em algumas situações, a família passa a concentrar toda a atenção no consumo de álcool e deixa de reconhecer a violência. Em outras, concentra-se nas agressões e não percebe que a pessoa também necessita de tratamento para um transtorno relacionado ao álcool.

    Uma abordagem adequada reconhece que podem existir problemas simultâneos, sem confundir suas causas nem transferir a responsabilidade pela violência à família.

    Quando é necessário procurar ajuda profissional?

    A busca por atendimento não precisa esperar que o relacionamento chegue a uma situação extrema.

    É recomendável procurar avaliação quando o ciúme se torna frequente, causa sofrimento significativo, interfere na rotina ou está associado ao consumo problemático de álcool.

    Alguns sinais merecem atenção especial: suspeitas persistentes que não podem ser discutidas de maneira segura, pensamentos repetitivos que prejudicam o sono ou o trabalho, episódios recorrentes de intoxicação acompanhados de agressividade, ameaças, perseguição ou controle coercitivo, convicções de infidelidade que permanecem mesmo quando não existem evidências que as sustentem, alucinações, confusão mental ou mudanças importantes de comportamento, tentativas de suicídio, ameaças de matar alguém ou agressões e incapacidade de reduzir o consumo apesar das consequências.

    Quando há risco imediato de agressão, a avaliação de segurança deve preceder qualquer tentativa de resolver o conflito conjugal.

    Quando surgem sintomas psicóticos, confusão mental ou agitação intensa, é necessária avaliação médica urgente.

    A pessoa submetida à violência não precisa aguardar o tratamento do parceiro para buscar proteção.

    Como é feito o tratamento do ciúme associado ao álcool?

    O tratamento depende da natureza do problema, do padrão de consumo, da presença de outras condições clínicas e dos riscos envolvidos.

    Não existe uma intervenção única que seja adequada para todos os casos.

    Em geral, é importante avaliar separadamente três dimensões: o consumo de álcool, as manifestações de ciúme e a presença de violência.

    Avaliação clínica inicial

    O primeiro passo é realizar uma avaliação abrangente.

    O profissional procura compreender a frequência e a quantidade de álcool consumida, a presença de perda de controle sobre o consumo, a ocorrência de sintomas de abstinência, a relação temporal entre o consumo e os episódios de ciúme, a existência de suspeitas quando a pessoa está sóbria, a presença de outras substâncias ou medicamentos, o histórico de saúde mental e de condições clínicas, a ocorrência de ameaças, agressões ou comportamentos de perseguição e os impactos sobre o trabalho, a família e a vida social.

    Também é necessário investigar se existem alterações do humor, sintomas psicóticos, problemas neurológicos ou outras condições que possam contribuir para o quadro.

    Uma avaliação bem conduzida evita reduzir toda a situação ao consumo de álcool ou atribuir automaticamente ao álcool sintomas que possuem outra origem.

    Tratamento do transtorno por uso de álcool

    Quando existe um transtorno por uso de álcool, o tratamento deve considerar a gravidade do quadro, as condições clínicas e as necessidades individuais.

    As possibilidades incluem acompanhamento médico, intervenções psicológicas, estratégias motivacionais, tratamento medicamentoso quando indicado e participação em programas de reabilitação.

    A intensidade do acompanhamento varia. Algumas pessoas podem ser tratadas em serviços ambulatoriais, enquanto outras precisam de cuidados mais intensivos.

    A escolha deve resultar de uma avaliação individual, considerando também o risco de abstinência, as condições de moradia e a disponibilidade de apoio.

    É importante esclarecer que dependência de álcool não significa simplesmente beber todos os dias. A avaliação considera um conjunto de sintomas e prejuízos associados ao padrão de consumo.

    Cuidado com a interrupção abrupta do consumo

    Pessoas que desenvolveram dependência física do álcool podem apresentar sintomas de abstinência quando reduzem ou interrompem o consumo.

    Esses sintomas podem incluir tremores, sudorese, ansiedade, agitação, alterações do sono e, em casos graves, convulsões ou delirium.

    A abstinência grave pode representar uma emergência médica.

    Por isso, quem apresenta consumo intenso e prolongado, histórico de abstinência complicada ou outros fatores de risco deve procurar orientação médica para planejar a interrupção com segurança.

    Não é adequado recomendar uma desintoxicação doméstica sem avaliação clínica.

    Psicoterapia

    A psicoterapia pode ajudar a pessoa a reconhecer pensamentos automáticos, identificar situações desencadeadoras e desenvolver maneiras mais adequadas de lidar com emoções difíceis.

    Entre as abordagens que podem ser consideradas, conforme a avaliação profissional, estão intervenções cognitivo-comportamentais, estratégias motivacionais e tratamentos voltados à regulação emocional.

    O trabalho pode incluir a identificação de interpretações precipitadas, a diferenciação entre fatos, hipóteses e suspeitas, o desenvolvimento da tolerância à incerteza, o manejo da raiva e da frustração, o reconhecimento de padrões de controle, o desenvolvimento de habilidades de comunicação, a prevenção de recaídas no consumo e a construção de estratégias para enfrentar conflitos sem agressividade.

    A escolha da intervenção depende do caso. A evidência científica específica para o tratamento do ciúme obsessivo ainda é limitada, e não existe um protocolo único comprovadamente eficaz para todas as suas manifestações.

    Fonte: PubMed Central — Obsessional jealousy in a community sample.

    Avaliação psiquiátrica

    A avaliação psiquiátrica é especialmente importante quando existem suspeitas persistentes e rígidas de infidelidade, sintomas psicóticos, alterações importantes do humor ou mudanças abruptas de comportamento.

    O tratamento pode incluir medicamentos quando há indicação clínica, além de acompanhamento psicológico e intervenções direcionadas à condição identificada.

    Não existe um medicamento universal para o ciúme alcoólico.

    A prescrição depende do diagnóstico, dos sintomas, das condições clínicas e das possíveis interações com o álcool e outras substâncias.

    A automedicação deve ser evitada.

    Tratamento dos comportamentos violentos

    Quando há violência, o tratamento do consumo de álcool precisa ser acompanhado de intervenções que abordem o comportamento abusivo e a responsabilização.

    É importante trabalhar o reconhecimento dos danos causados, a interrupção das ameaças e agressões e o desenvolvimento de formas não violentas de lidar com frustrações.

    Programas específicos para pessoas que praticam violência podem fazer parte da abordagem, conforme a avaliação e os recursos disponíveis.

    A participação em tratamento não elimina automaticamente o risco, e promessas de mudança não substituem a observação de comportamentos consistentes ao longo do tempo.

    Tratamento medicamentoso para o transtorno por uso de álcool

    Em determinados casos, medicamentos podem ser utilizados como parte do tratamento do transtorno por uso de álcool.

    A escolha depende de fatores como condições clínicas, função hepática e renal, outros medicamentos em uso e objetivos terapêuticos.

    Esses medicamentos não devem ser confundidos com tratamentos específicos para o ciúme. Seu papel é atuar no transtorno relacionado ao álcool, quando houver indicação.

    A decisão cabe ao profissional médico responsável pelo acompanhamento.

    Grupos de apoio e recursos comunitários

    Grupos de apoio podem ajudar algumas pessoas a compartilhar experiências, desenvolver estratégias de recuperação e ampliar sua rede de suporte.

    Entre os recursos disponíveis estão grupos voltados à recuperação de pessoas com problemas relacionados ao álcool, como Alcoólicos Anônimos, e grupos para familiares, como Al-Anon.

    Esses recursos podem complementar o tratamento profissional, mas não substituem avaliação médica quando há dependência física, sintomas psiquiátricos importantes ou risco de violência.

    Da mesma forma, familiares podem buscar apoio próprio, independentemente de a pessoa que consome álcool aceitar tratamento.

    Terapia de casal: quando pode ser considerada?

    A terapia de casal pode ser útil em alguns relacionamentos que apresentam conflitos, dificuldades de comunicação e problemas de confiança, desde que existam condições de segurança e participação voluntária.

    Entretanto, quando há violência, intimidação ou controle coercitivo, a terapia conjunta pode não ser apropriada e, em determinadas circunstâncias, aumentar o risco para a pessoa submetida à violência.

    Nessas situações, a avaliação deve priorizar a segurança, o atendimento individual e os serviços especializados.

    Não se deve tratar uma situação de abuso como se fosse simplesmente um conflito simétrico entre duas pessoas.

    O que a família pode fazer?

    A família pode contribuir para a busca de ajuda sem assumir a responsabilidade pelo comportamento de quem apresenta o problema.

    Algumas medidas incluem conversar em um momento em que a pessoa esteja sóbria e a situação seja segura, descrever comportamentos concretos e suas consequências, incentivar a avaliação profissional, não encobrir ameaças e agressões para preservar aparências, evitar confrontos durante a intoxicação, procurar orientação própria quando a convivência estiver causando sofrimento e buscar ajuda de emergência diante de risco imediato.

    Se a pessoa se recusa a receber tratamento, isso não impede que os familiares procurem orientação sobre como agir e proteger a si mesmos.

    A família pode oferecer apoio, mas não pode controlar todas as decisões de outro adulto.

    Como prevenir o agravamento do ciúme alcoólico?

    A prevenção começa quando os primeiros sinais de perda de controle são reconhecidos e tratados, antes que se transformem em um padrão persistente de sofrimento ou violência.

    Não é necessário esperar que uma pessoa desenvolva dependência grave de álcool para procurar orientação. Da mesma forma, não é necessário esperar que as suspeitas se transformem em ameaças para buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica.

    Reconhecer a relação entre consumo e comportamento

    Uma medida útil consiste em observar se determinadas mudanças de comportamento ocorrem após o consumo.

    É importante identificar, por exemplo, se os episódios de desconfiança aparecem após beber, se ficam mais intensos conforme aumenta a quantidade consumida e se também acontecem durante a sobriedade.

    Essas observações podem ajudar a orientar uma avaliação profissional. Não substituem, contudo, uma investigação clínica.

    Interromper a normalização dos comportamentos abusivos

    Expressões como “ele só fica assim quando bebe” ou “ela tem ciúme porque ama” podem contribuir para a minimização de comportamentos perigosos.

    O consumo de álcool não transforma ameaças em demonstrações de afeto. O medo de perder alguém não justifica vigilância coercitiva. A insegurança emocional não autoriza a destruição de bens ou a restrição da liberdade de outra pessoa.

    Reconhecer esses limites é uma medida importante de prevenção.

    Incentivar a busca por tratamento

    Quando o consumo de álcool está associado a conflitos recorrentes, é importante incentivar uma avaliação profissional.

    O atendimento pode começar em uma Unidade Básica de Saúde, em um serviço de saúde mental ou em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD), conforme a disponibilidade e as necessidades clínicas.

    O Ministério da Saúde orienta que o tratamento seja definido de acordo com a gravidade do transtorno e que a desintoxicação seja realizada com segurança, considerando o risco de abstinência.

    Fonte: Ministério da Saúde — Transtornos por uso de álcool no adulto.

    Desenvolver estratégias para lidar com conflitos

    A prevenção também envolve aprender a reconhecer emoções antes que se transformem em comportamentos prejudiciais.

    Entre as habilidades que podem ser desenvolvidas estão identificar pensamentos automáticos e interpretações precipitadas, reconhecer sinais de raiva e agitação, interromper discussões quando houver segurança para fazê-lo, evitar confrontos durante a intoxicação, aprender a tolerar dúvidas sem recorrer à vigilância, respeitar a privacidade e a autonomia do parceiro e procurar ajuda diante de dificuldades persistentes.

    Essas estratégias não substituem o tratamento de um transtorno por uso de álcool ou de uma condição psiquiátrica. São recursos complementares que podem integrar um plano terapêutico.

    Construir um plano de segurança quando existe violência

    Quando há ameaças, agressões ou controle coercitivo, a prevenção precisa incluir medidas específicas de proteção.

    Conforme as circunstâncias, pode ser útil identificar uma pessoa de confiança, conhecer os serviços de proteção disponíveis na região, planejar como pedir ajuda em uma emergência, avaliar opções seguras de transporte e abrigo, preservar documentos e informações importantes quando isso puder ser feito sem aumentar o risco e considerar a segurança dos filhos e de outras pessoas dependentes.

    O planejamento deve respeitar a realidade de cada pessoa. Nem sempre é seguro confrontar o agressor, anunciar a intenção de sair ou manter registros em um dispositivo que possa ser monitorado.

    Quando existe risco de violência, a orientação de profissionais especializados pode ajudar a definir as medidas mais seguras.

    Como identificar se o comportamento está melhorando?

    A recuperação não deve ser avaliada apenas pelas promessas feitas após uma crise.

    É necessário observar mudanças consistentes ao longo do tempo.

    Entre os sinais que podem indicar progresso estão a procura efetiva por tratamento, o reconhecimento dos danos provocados pelo consumo e pelo comportamento, a redução ou interrupção do consumo conforme o plano terapêutico, a ausência de ameaças, intimidação e agressões, o respeito à privacidade e à liberdade do parceiro, a capacidade de lidar com dúvidas sem recorrer a acusações, a disposição para assumir a responsabilidade pelas próprias atitudes, a manutenção do acompanhamento profissional e o desenvolvimento de estratégias para prevenir recaídas.

    A melhora em uma área não significa necessariamente que todas as demais estejam resolvidas.

    Uma pessoa pode reduzir o consumo e continuar apresentando comportamentos controladores. Também pode demonstrar maior controle emocional em determinadas situações, mas ainda necessitar de tratamento para outras dificuldades.

    Por isso, o acompanhamento deve considerar o conjunto de sintomas, os comportamentos concretos e as condições de segurança.

    Se houver violência, a avaliação de risco e a proteção da pessoa afetada continuam necessárias, mesmo quando o agressor inicia tratamento.

    Como agir diante de uma crise de ciúme associada à intoxicação?

    Quando uma pessoa está alcoolizada, agitada e fazendo acusações, tentar convencê-la por meio de longas explicações pode não ser produtivo e, em determinadas circunstâncias, aumentar o risco.

    A conduta depende da gravidade da situação.

    Se houver apenas um conflito sem ameaças ou agressões: pode ser mais adequado adiar a conversa até que a pessoa esteja sóbria e em condições de dialogar.

    Se houver intimidação, ameaças ou tentativa de impedir a saída: priorize a segurança e procure apoio. Não é necessário permanecer no local para resolver a discussão.

    Se houver agressão física, ameaça de morte, risco de suicídio ou risco de alguém ser ferido: acione os serviços de emergência.

    Se houver confusão mental, alucinações, agitação intensa ou sintomas graves de abstinência: procure atendimento médico urgente.

    Não é recomendável tentar conter fisicamente uma pessoa agitada sem treinamento, especialmente quando existe risco de agressão.

    Também não é seguro administrar medicamentos por conta própria para tentar controlar o comportamento.

    A segurança deve orientar as decisões, e não a tentativa de provar quem tem razão durante a crise.

    Onde buscar ajuda no Brasil?

    Existem diferentes portas de entrada para atendimento, dependendo do problema e da urgência.

    Para a pessoa que apresenta problemas relacionados ao álcool

    Unidade Básica de Saúde (UBS): pode ser uma porta de entrada para avaliação clínica, orientação e encaminhamento.

    CAPS AD: oferece atendimento especializado a pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, conforme a organização da rede local.

    Serviços de urgência e hospitais: são indicados em situações de abstinência grave, alterações importantes do estado mental, risco de suicídio ou risco de agressão.

    Grupos de apoio: iniciativas como Alcoólicos Anônimos podem complementar o tratamento profissional.

    O Ministério da Saúde disponibiliza orientações sobre tratamento, desintoxicação e acompanhamento na rede pública.

    Fonte: Ministério da Saúde — Transtornos por uso de álcool no adulto.

    Para mulheres em situação de violência doméstica

    Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher

    Serviço gratuito para orientação sobre direitos, informações sobre serviços da rede de atendimento e registro de denúncias de violência contra a mulher. Funciona 24 horas por dia.

    Informações oficiais: Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180.

    Polícia Militar — 190

    Deve ser acionada em situações de emergência ou risco iminente.

    Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) e demais delegacias de polícia também podem receber denúncias e orientar sobre os procedimentos cabíveis.

    Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública — Violência doméstica e familiar contra as mulheres.

    Para emergências médicas

    SAMU — 192

    Pode ser acionado em emergências médicas, incluindo situações graves relacionadas à intoxicação, à abstinência e a alterações importantes do estado clínico.

    Se uma pessoa estiver em perigo imediato, não adie o pedido de ajuda para tentar resolver o problema familiar.

    Perguntas frequentes sobre ciúme alcoólico

    Toda pessoa que bebe e sente ciúme tem dependência de álcool?

    Não. A presença de ciúme durante a intoxicação não é suficiente para diagnosticar dependência.

    É necessário avaliar o padrão de consumo, a perda de controle, as consequências e os demais critérios clínicos relevantes.

    Toda pessoa com dependência de álcool desenvolve ciúme patológico?

    Não. A maioria dos casos não pode ser descrita dessa maneira, e não é correto presumir que a dependência de álcool produzirá necessariamente ciúme patológico.

    O estudo publicado em 1995 encontrou manifestações de ciúme patológico em aproximadamente 34% de uma amostra específica de homens com dependência de álcool. Esse resultado não representa a prevalência entre todas as pessoas que consomem álcool.

    Fonte: PubMed — Morbid jealousy in alcoholism.

    Se a pessoa só apresenta ciúme quando bebe, o problema é menos grave?

    Não necessariamente.

    A ocorrência restrita à intoxicação pode ajudar a compreender a relação entre o consumo e o comportamento, mas não elimina o risco de ameaças ou agressões.

    Se os episódios são recorrentes, intensos ou violentos, é necessário procurar avaliação e considerar medidas de prevenção.

    O ciúme pode continuar mesmo depois que a pessoa para de beber?

    Sim. Isso pode ocorrer porque as suspeitas estão relacionadas a outros fatores psicológicos ou psiquiátricos, ou porque o comportamento já se tornou persistente.

    Também é possível que existam outras condições clínicas que precisem ser investigadas.

    A persistência dos sintomas exige avaliação individual, e não a conclusão automática de que o álcool deixou sequelas permanentes.

    O ciúme alcoólico tem cura?

    Não existe uma resposta única para todos os casos, porque a expressão não corresponde a um diagnóstico clínico específico.

    O prognóstico depende das causas envolvidas, da gravidade dos sintomas, da presença de outros transtornos e da adesão ao tratamento.

    É possível obter melhora significativa quando os problemas relacionados ao álcool e os fatores associados recebem acompanhamento adequado.

    O parceiro deve mostrar o celular para provar que não está traindo?

    Não existe uma obrigação geral de abrir mão da privacidade para controlar o ciúme de outra pessoa.

    Compartilhar informações pode ser uma escolha consensual dentro de um relacionamento, mas exigir senhas, impor vigilância e ameaçar o parceiro para obter acesso a dados pessoais são situações diferentes.

    Quando existe controle coercitivo, ceder às exigências pode não resolver o problema e pode ampliar a vigilância.

    A pessoa deve permanecer no relacionamento enquanto o parceiro estiver em tratamento?

    Não existe essa obrigação.

    A decisão de permanecer ou sair de um relacionamento pertence à pessoa envolvida, considerando suas circunstâncias, seus direitos e sua segurança.

    O tratamento do parceiro não exige que a outra pessoa aceite ameaças, humilhações ou agressões.

    A terapia de casal resolve o problema?

    Não necessariamente.

    A terapia conjunta pode ser considerada em situações de conflito sem violência, quando existe segurança e participação voluntária.

    Quando há intimidação, violência ou controle coercitivo, o atendimento conjunto pode ser inadequado. Nesses casos, a segurança e o atendimento especializado devem vir primeiro.

    A pessoa que sente ciúme pode mudar?

    Sim, mudanças podem ocorrer quando a pessoa reconhece o problema, procura tratamento e modifica seus comportamentos de maneira consistente.

    Entretanto, a mudança exige mais do que arrependimento após uma discussão. É necessário observar a redução das condutas prejudiciais e o respeito efetivo à autonomia do parceiro.

    Como ajudar alguém que nega o problema?

    É possível incentivar uma avaliação profissional, apresentar preocupações concretas e buscar orientação para lidar com a situação.

    Entretanto, familiares e parceiros não podem obrigar outro adulto a reconhecer todas as dificuldades nem controlar suas escolhas em todas as circunstâncias.

    Se houver violência, a prioridade é proteger quem está em risco, independentemente de o agressor reconhecer ou negar o problema.

    Considerações finais: informação, tratamento e prevenção da violência

    O ciúme associado ao consumo problemático de álcool é um fenômeno complexo que não deve ser reduzido a uma simples discussão conjugal.

    Ele pode envolver alterações no controle dos impulsos, insegurança emocional, interpretações equivocadas, pensamentos obsessivos, sintomas psiquiátricos e dificuldades relacionadas ao consumo de substâncias.

    Em algumas situações, pode estar associado a comportamentos de vigilância, humilhação, isolamento e controle financeiro. Em outras, pode coexistir com ameaças e agressões físicas.

    Reconhecer essa diversidade é essencial para evitar dois erros: considerar toda manifestação de ciúme uma doença ou tratar comportamentos abusivos como consequências inevitáveis do álcool.

    Nem toda pessoa que bebe apresenta violência. Nem toda pessoa ciumenta possui um transtorno psiquiátrico. E nenhuma dessas condições torna aceitável o abuso contra outra pessoa.

    A abordagem mais adequada envolve avaliação clínica, tratamento do consumo quando necessário, investigação de outras condições de saúde, intervenção sobre os comportamentos prejudiciais e medidas de proteção quando existe violência.

    Também é fundamental reconhecer que a recuperação de quem apresenta o problema e a proteção de quem sofre suas consequências são objetivos relacionados, mas distintos. Uma pessoa pode precisar de tratamento, enquanto a outra precisa de segurança, apoio e acesso aos seus direitos.

    A prevenção começa quando deixamos de normalizar o sofrimento, reconhecemos os sinais de alerta e compreendemos que buscar ajuda é uma medida de cuidado, não um sinal de fraqueza.

    Informação de qualidade pode ajudar famílias a identificar situações de risco, profissionais a reconhecer a necessidade de avaliação especializada e pessoas afetadas a compreender que não precisam enfrentar o problema sozinhas.

    Referências científicas e fontes para aprofundamento

    As fontes abaixo incluem estudos publicados em periódicos científicos, pesquisas de revisão e orientações de órgãos oficiais. Foram selecionadas para permitir que leitores, estudantes e profissionais aprofundem o tema.

    Michael, A. et al. (1995). Morbid jealousy in alcoholism. The British Journal of Psychiatry, 167(5), 668–672.

    Estudo clínico que investigou manifestações de ciúme patológico em homens com dependência de álcool e descreveu diferenças entre sintomas restritos à intoxicação, sintomas persistentes e manifestações delirantes.

    A amostra era específica e não permite generalizar os resultados para toda a população.

    Leia o resumo científico: PubMed — Morbid jealousy in alcoholism.

    Aspects of morbid jealousy. Advances in Psychiatric Treatment.

    Artigo de revisão que discute características clínicas do ciúme patológico, suas possíveis relações com o uso de álcool e outras substâncias e questões relevantes para a avaliação psiquiátrica.

    Leia o artigo: Cambridge Core — Aspects of morbid jealousy.

    Rodriguez, L. M. (2015). Positive and Negative Jealousy in the Association Between Problem Drinking and IPV Perpetration. Journal of Family Violence, 30, 987–997.

    Estudo sobre a relação entre diferentes dimensões do ciúme, problemas com álcool e violência por parceiro íntimo. Os resultados ajudam a compreender por que esses fatores precisam ser analisados em conjunto, sem presumir uma relação causal automática.

    Leia o artigo: PubMed Central — Positive and Negative Jealousy.

    Ahlen, J. et al. (2023). Obsessional jealousy in a community sample: Association with relationship factors, impairment and perceived treatment needs. British Journal of Clinical Psychology.

    Pesquisa com 1.076 adultos que investigou associações entre ciúme obsessivo, prejuízos funcionais, violência verbal e outros fatores relacionados aos relacionamentos.

    Os autores ressaltam a necessidade de aprofundar as pesquisas sobre avaliação e tratamento específico do ciúme obsessivo.

    Leia o artigo: PubMed Central — Obsessional jealousy in a community sample.

    Prevention interventions for interpersonal violence occurring under the influence of alcohol: A mixed method systematic review (2022).

    Revisão que analisou intervenções voltadas à prevenção da violência interpessoal associada ao consumo de álcool, incluindo estratégias individuais, grupais e familiares.

    O trabalho destaca a diversidade das intervenções estudadas e as limitações para comparar seus resultados.

    Leia o resumo: PubMed — Prevention interventions for interpersonal violence occurring under the influence of alcohol.

    Ministério da Saúde — Tratamento do transtorno por uso de álcool.

    Material oficial sobre opções de tratamento, acompanhamento profissional, desintoxicação e recursos disponíveis na rede de saúde brasileira.

    Leia as orientações: Ministério da Saúde — Transtornos por uso de álcool no adulto.

    Ministério da Saúde — Manejo da abstinência alcoólica.

    Orientações clínicas sobre avaliação inicial, identificação de sintomas de abstinência e situações que necessitam de atendimento de urgência.

    Leia as orientações: Ministério da Saúde — Manejo inicial e conduta nas situações agudas.

    Ministério da Justiça e Segurança Pública — Violência doméstica e familiar contra as mulheres.

    Material oficial que explica diferentes formas de violência doméstica, incluindo as dimensões psicológica, física, patrimonial e moral, além dos canais de atendimento e proteção.

    Leia as orientações: Ministério da Justiça e Segurança Pública — Violência doméstica e familiar contra as mulheres.

    Ministério das Mulheres — Central de Atendimento à Mulher.

    Guia com informações sobre o Ligue 180, registro de denúncias, orientações para buscar ajuda e medidas de segurança.

    Consulte o guia: Guia prático — Ligue 180.


    Nota editorial: este artigo tem finalidade educativa e preventiva. Não substitui avaliação médica, psicológica, psiquiátrica ou jurídica. O termo ciúme alcoólico é utilizado aqui de forma descritiva, e não como diagnóstico clínico independente. As causas, a gravidade e o tratamento devem ser avaliados individualmente.

  • Mounjaro (tirzepatida): efeitos colaterais, saúde mental e cuidados em pessoas com comorbidades

    O que se sabe sobre a segurança da tirzepatida e quais cuidados considerar diante de transtornos psiquiátricos, alimentares ou por uso de substâncias.

    O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, ganhou notoriedade pelos resultados no controle da glicemia e na redução do peso. Mas a popularização do medicamento, sobretudo para emagrecimento, também trouxe dúvidas sobre segurança, indicação e acompanhamento — especialmente para pessoas que convivem com condições psiquiátricas, transtornos alimentares ou histórico de uso problemático de substâncias.

    A tirzepatida atua nos receptores dos hormônios GIP e GLP-1, envolvidos na regulação da glicose, do apetite e da saciedade. Entre seus efeitos estão o aumento da resposta insulinotrópica dependente da glicose, o esvaziamento gástrico mais lento e a redução da ingestão alimentar.

    No Brasil, a Anvisa aprovou o Mounjaro para o tratamento do diabetes tipo 2 e, em junho de 2025, ampliou a indicação para o controle crônico do peso em adultos que atendam aos critérios clínicos estabelecidos. Essa aprovação não significa que o medicamento possa ser usado indiscriminadamente ou apenas por razões estéticas.

    Anvisa: nova indicação terapêutica

    Para avaliar o tratamento com responsabilidade, é importante separar três aspectos: os efeitos farmacológicos conhecidos, os riscos indiretos ligados às condições clínicas e comportamentais de cada pessoa e as hipóteses que ainda não foram confirmadas por pesquisas.

    Efeitos colaterais e sinais de alerta

    Os efeitos adversos mais comuns da tirzepatida são gastrointestinais: náuseas, vômitos, diarreia, constipação, dor abdominal, indigestão e diminuição do apetite. Eles podem aparecer principalmente no início do tratamento ou durante o aumento da dose. Embora muitas vezes sejam transitórios, não devem ser ignorados.

    Vômitos persistentes, pouca ingestão de líquidos e alimentação insuficiente podem levar à desidratação, a alterações metabólicas e ao comprometimento da função renal. Esses riscos podem ser mais relevantes para quem já enfrenta dificuldades alimentares, faz uso de outras substâncias ou tem doenças concomitantes. Há também eventos menos frequentes, mas potencialmente graves, como pancreatite aguda, problemas na vesícula biliar e reações alérgicas importantes. A hipoglicemia merece atenção especial quando a tirzepatida é usada junto com insulina ou sulfonilureias.

    O medicamento também retarda o esvaziamento gástrico. A bula oficial norte-americana alerta que esse efeito pode influenciar a absorção de medicamentos orais. A relevância depende do fármaco específico; não se deve presumir que todos os psicofármacos sejam afetados da mesma forma. Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou o alerta sobre casos de pancreatite aguda associados a agonistas do receptor GLP-1 e destacou a importância do uso conforme a indicação aprovada e com acompanhamento profissional.

    Alerta da Anvisa |

    Bula do Mounjaro — DailyMed

    Dor abdominal intensa e persistente — sobretudo se irradiar para as costas —, vômitos contínuos, incapacidade de ingerir líquidos, sinais importantes de desidratação ou sintomas de reação alérgica grave exigem avaliação médica imediata.

    O que as pesquisas dizem sobre Mounjaro e saúde mental?

    A relação entre medicamentos que atuam nos sistemas incretínicos e saúde mental precisa ser interpretada com cuidado. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 na revista JAMA Psychiatry, que reuniu 80 ensaios clínicos randomizados e 107.860 participantes, não encontrou aumento estatisticamente significativo de eventos adversos psiquiátricos graves ou não graves entre pessoas tratadas com agonistas do receptor GLP-1 e aquelas que receberam placebo. A análise também identificou resultados favoráveis em alguns indicadores de qualidade de vida e comportamento alimentar.

    Em janeiro de 2026, a agência reguladora norte-americana FDA informou que sua avaliação abrangente não identificou aumento do risco de ideação ou comportamento suicida associado aos agonistas de GLP-1. A agência solicitou a retirada de advertências específicas sobre esse risco das bulas dos produtos que ainda as continham, incluindo o Zepbound, outra marca de tirzepatida.

    Esses resultados são tranquilizadores, mas não respondem a todas as perguntas. Os estudos analisaram diferentes medicamentos da classe, portanto seus resultados não podem ser atribuídos automaticamente à tirzepatida. Além disso, pessoas com transtornos psiquiátricos graves, ativos ou instáveis foram excluídas ou pouco representadas em muitas pesquisas. E a ausência de um aumento estatístico de eventos em um grupo estudado não significa que uma mudança clínica individual seja impossível.

    Até o momento, as evidências não sustentam a afirmação de que o Mounjaro provoque diretamente depressão, ansiedade ou comportamento suicida. Ainda assim, comorbidades psiquiátricas, transtornos alimentares e uso problemático de substâncias justificam avaliação e acompanhamento individualizados.

    JAMA Psychiatry, 2025 |

    FDA, 13 jan. 2026

    Comorbidades exigem avaliação individual

    Transtorno por uso de substâncias

    O transtorno por uso de substâncias (TUS) envolve mecanismos de recompensa, aprendizagem, motivação, impulsividade e controle do comportamento. Conforme a substância e a gravidade do quadro, também pode estar associado a alimentação irregular, desidratação, alterações do sono, desnutrição e doenças hepáticas, pancreáticas ou cardiovasculares.

    Não há evidência clínica robusta de que a tirzepatida provoque recaídas, aumente diretamente a compulsão pelo uso de drogas ou agrave o TUS. Por outro lado, ainda faltam dados para afirmar que a segurança seja igual em todos os grupos, inclusive entre pessoas com dependência ativa. Nesse contexto, náuseas, vômitos e redução do apetite podem agravar vulnerabilidades já existentes. O histórico de consumo intenso de álcool, pancreatite ou doença hepática, por exemplo, merece avaliação cuidadosa. Isso não significa que haja uma interação específica comprovada entre a tirzepatida e todas as substâncias, mas que o quadro clínico como um todo pode modificar os riscos.

    Também é importante revisar os medicamentos usados para tratar a dependência e outras condições. Como o esvaziamento gástrico pode ser retardado, o profissional deve avaliar se esse efeito é relevante para os medicamentos orais específicos utilizados.

    Há pesquisas em andamento sobre o possível papel dos agonistas de GLP-1 nos circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao consumo. Um ensaio publicado em 2025 investigou semaglutida em adultos com transtorno por uso de álcool e observou redução de alguns indicadores de consumo intenso e desejo de beber. Outro, publicado em julho de 2026, avaliou semaglutida oral e encontrou redução em determinados indicadores, embora nem todos os desfechos principais tenham melhorado de forma significativa. Já uma revisão sistemática e metanálise de cinco ensaios clínicos, com 764 participantes, não encontrou efeito estatisticamente significativo na análise conjunta dos principais indicadores de abstinência de álcool ou consumo de tabaco avaliados.

    Os resultados, portanto, não são uniformes. Além disso, estudos com semaglutida não comprovam a mesma eficácia para tirzepatida; as pesquisas sobre cocaína, opioides, cannabis e outras substâncias são ainda mais limitadas. O Mounjaro não é tratamento estabelecido para dependência química e não deve ser usado por conta própria para controlar fissura, reduzir o consumo ou prevenir recaídas. O tratamento do TUS deve seguir uma avaliação especializada e pode incluir intervenções psicossociais e medicamentos apropriados.

    Ensaio sobre semaglutida e uso de álcool, 2025 |

    Ensaio sobre semaglutida oral, 2026 |

    Revisão sistemática, 2026

    Transtorno de personalidade borderline

    O transtorno de personalidade borderline pode envolver dificuldades de regulação emocional, impulsividade, instabilidade nos relacionamentos e alterações na percepção de si. Algumas pessoas também convivem com transtornos alimentares, uso problemático de substâncias ou sofrimento relacionado à imagem corporal.

    Não há evidência científica robusta de que a tirzepatida provoque ou agrave diretamente o transtorno borderline, nem dados suficientes para afirmar que o diagnóstico, por si só, aumente o risco farmacológico. O cuidado está em compreender o contexto da busca pelo medicamento: pode haver uma indicação metabólica legítima, um transtorno alimentar, uma tentativa de aliviar sofrimento emocional ou uma combinação desses fatores.

    Mudanças físicas significativas podem ser vividas de diferentes maneiras por quem tem dificuldades de autoimagem. Isso não demonstra que a tirzepatida cause instabilidade emocional, mas reforça a importância de acompanhar o bem-estar psicológico. O diagnóstico, isoladamente, não é uma contraindicação automática: a decisão depende da indicação, da estabilidade clínica, das condições associadas e da possibilidade de manter o acompanhamento.

    TDAH e medicamentos que reduzem o apetite

    O TDAH pode envolver desatenção, impulsividade e dificuldades de planejamento e organização. Isso não significa que a pessoa seja incapaz de seguir um tratamento, mas pode ser necessário criar estratégias práticas para organizar refeições, hidratação, horários e rotina.

    Um ponto de atenção é o uso concomitante de medicamentos para TDAH que também podem diminuir o apetite, como alguns estimulantes. A associação com tirzepatida não é automaticamente contraindicada, mas, quando ambos reduzem a fome, pode ficar mais difícil manter uma alimentação regular e suficiente. Em certas situações, isso pode contribuir para ingestão inadequada, perda excessiva de peso, fraqueza ou insuficiência de nutrientes.

    A possibilidade de o esvaziamento gástrico retardado afetar a absorção de medicamentos orais também deve ser considerada caso a caso. Isso não comprova interação clinicamente relevante com todos os tratamentos para TDAH; o médico ou farmacêutico pode avaliar a medicação específica e a necessidade de monitoramento.

    Ansiedade social e sofrimento com a imagem corporal

    A ansiedade social envolve medo intenso de ser observado, julgado ou humilhado e pode levar à esquiva de situações sociais e a prejuízos na vida cotidiana. Não há evidência robusta de que a tirzepatida provoque fobia social ou agrave diretamente o transtorno, nem de que seja um tratamento para ansiedade social.

    Para algumas pessoas, o emagrecimento pode ficar associado à expectativa de ser mais aceito, evitar julgamentos ou resolver dificuldades emocionais. Se essas expectativas forem rígidas ou irreais, a mudança no peso talvez não produza a melhora subjetiva esperada. Persistir o medo de avaliação negativa ou a insatisfação corporal não significa que a pessoa precise emagrecer mais; pode ser necessário avaliar o sofrimento psicológico e a relação com a própria aparência. A ligação causal entre tirzepatida e agravamento da ansiedade social não está estabelecida.

    No transtorno dismórfico corporal (TDC), a pessoa pode ter uma preocupação persistente com defeitos percebidos na aparência — inexistentes ou pouco perceptíveis para outras pessoas. Checagem repetitiva, comparação constante, busca reiterada por procedimentos estéticos e prejuízo no cotidiano podem fazer parte do quadro. Nesse contexto, mudanças corporais significativas podem não resolver a preocupação central; ela pode se deslocar para outra característica física.

    Isso pode criar riscos comportamentais, como insistir em perder peso, pedir aumentos de dose sem justificativa clínica ou recorrer a produtos e procedimentos não autorizados. Mas é importante não confundir hipótese com fato: não está comprovado que a tirzepatida cause TDC. Um resumo científico apresentado em 2025 observou diagnósticos de TDC entre usuários de agonistas de GLP-1, com frequência elevada de depressão e transtornos alimentares nesse grupo. Por ser um estudo observacional apresentado como resumo de congresso, não demonstra causalidade nem prova aumento do risco individual ou um efeito específico da tirzepatida.

    Resumo no Journal of the Endocrine Society, 2025

    Transtornos alimentares

    Anorexia, bulimia e compulsão alimentar pedem atenção específica porque a redução do apetite e da ingestão de alimentos pode afetar diretamente o quadro. Em pessoas com anorexia ou bulimia acompanhada de restrição acentuada, a supressão do apetite pode reforçar comportamentos perigosos. Restrição, vômitos, desidratação ou outros comportamentos compensatórios podem comprometer o estado nutricional e agravar complicações clínicas.

    No transtorno de compulsão alimentar, as pesquisas sobre agonistas de GLP-1 ainda estão em desenvolvimento. Há sinais de possíveis benefícios em alguns comportamentos, mas as evidências não permitem considerar a tirzepatida um tratamento estabelecido para todos os transtornos alimentares. Revisões e recomendações clínicas publicadas em 2026 apontam lacunas de conhecimento e ressaltam a importância de investigar sintomas atuais e anteriores, monitorar os riscos e integrar intervenções psicológicas quando indicadas.

    Por isso, a avaliação não deve se limitar ao peso ou ao índice de massa corporal. É importante considerar restrição alimentar, compulsão, purgação, medo intenso de engordar e outros comportamentos que possam alterar o equilíbrio entre benefícios e riscos.

    Revisão de escopo, 2026 |

    Recomendações clínicas, 2026

    Depressão, transtorno bipolar e outros quadros

    Para pessoas com depressão, ansiedade grave, transtorno bipolar, esquizofrenia ou outras condições psiquiátricas, é importante considerar a estabilidade do quadro, os tratamentos em curso e possíveis mudanças na alimentação, no sono e na rotina. Não há evidência suficiente para afirmar que a tirzepatida provoque diretamente mania, psicose ou descompensação dessas condições. Ao mesmo tempo, a falta de dados específicos impede generalizar os resultados dos ensaios para todas as pessoas com quadros graves ou instáveis.

    Um estudo observacional publicado em abril de 2026 no periódico The Lancet Psychiatry avaliou pessoas com diabetes e diagnóstico de depressão ou ansiedade na Suécia. O uso de semaglutida foi associado a menor risco de agravamento de alguns indicadores de saúde mental; também foram observados resultados favoráveis para determinados desfechos com liraglutida. Esses achados não demonstram que a tirzepatida produza os mesmos efeitos nem podem ser generalizados para todos os agonistas de GLP-1 ou todos os transtornos psiquiátricos.

    Mudanças persistentes de humor, sono, energia, impulsividade, comportamento alimentar ou funcionamento cotidiano merecem avaliação — sem presumir, antes de investigar, que tenham sido causadas pelo medicamento.

    The Lancet Psychiatry, 2026

    O que essas situações têm em comum?

    Apesar das diferenças entre as condições, algumas perguntas são importantes em qualquer avaliação. A primeira é por que a pessoa está buscando o medicamento: existe uma indicação clínica para tratar diabetes ou controlar o peso, ou a decisão está ligada principalmente à pressão estética, ao sofrimento emocional ou a comportamentos alimentares disfuncionais?

    Também é necessário acompanhar a alimentação e a hidratação. A redução do apetite pode fazer parte do efeito esperado, mas se torna preocupante quando leva à ingestão insuficiente ou reforça uma restrição perigosa. A equipe deve ainda revisar os medicamentos em uso, incluindo antidepressivos, estabilizadores do humor, antipsicóticos, estimulantes e tratamentos para dependência, e avaliar interações e monitoramento conforme cada caso.

    Por fim, um sintoma que aparece durante o tratamento precisa ser investigado, mas a coincidência no tempo não prova que o medicamento seja a causa. O uso sem prescrição ou acompanhamento pode dificultar a identificação de complicações e favorecer aumentos de dose ou a continuidade do tratamento mesmo diante de sinais de alerta.

    A importância do acompanhamento integrado

    O cuidado deve olhar para a pessoa como um todo, não apenas para o peso ou os exames. O médico avalia a indicação, possíveis contraindicações, dose, efeitos adversos e doenças concomitantes. O acompanhamento nutricional pode ajudar a prevenir ingestão insuficiente de energia, proteínas, vitaminas, minerais e líquidos, além de contribuir para a preservação da massa muscular e para uma alimentação adequada.

    Quando há transtorno por uso de substâncias, a equipe pode considerar o padrão de consumo, a estabilidade clínica, o estado nutricional, os medicamentos utilizados e a continuidade do tratamento específico da dependência. Quando existem condições psiquiátricas ou comportamentos alimentares disfuncionais, profissionais de saúde mental podem ajudar a reconhecer mudanças relevantes e oferecer suporte. O objetivo não é presumir que o medicamento causará uma descompensação, mas acompanhar o tratamento de acordo com as necessidades individuais.

    Nem todas as pessoas precisam da mesma frequência de consultas ou da mesma equipe. Ainda assim, em situações clínicas mais complexas, a comunicação entre os profissionais pode ser especialmente útil. Periodicamente, também é importante avaliar se os benefícios continuam superando os riscos e se o tratamento permanece adequado à indicação.

    Quando procurar ajuda

    Converse com um profissional de saúde se surgirem piora persistente da ansiedade ou da tristeza, perda de interesse, alterações marcantes de sono, energia ou impulsividade, restrição alimentar excessiva, medo intenso de ganhar peso, comportamentos compensatórios, perda de peso excessiva, piora do consumo de substâncias ou dificuldade para manter o tratamento da dependência. Vômitos persistentes, incapacidade de ingerir líquidos, sinais de desidratação ou dor abdominal intensa e persistente também precisam de avaliação.

    Pensamentos suicidas, risco de autoagressão ou alterações comportamentais que indiquem perigo imediato exigem atendimento de urgência. Não reduza, substitua ou suspenda por conta própria medicamentos psiquiátricos por ter iniciado o Mounjaro, emagrecido ou notado sintomas: qualquer mudança deve ser discutida com os profissionais responsáveis.

    Conclusão

    A tirzepatida representa uma opção terapêutica importante para pessoas com indicação apropriada, mas sua eficácia no controle glicêmico e na redução do peso não elimina a necessidade de avaliar riscos individuais e considerar a saúde mental.

    As evidências atuais não permitem afirmar que o Mounjaro agrave diretamente o transtorno por uso de substâncias, o borderline, o TDAH, a ansiedade social, o transtorno dismórfico corporal ou outros transtornos psiquiátricos específicos. Para várias dessas condições, a principal limitação é a falta de pesquisas diretamente aplicáveis. Ainda assim, há motivos concretos para acompanhamento: redução excessiva da ingestão alimentar, desidratação, possíveis alterações na absorção de medicamentos orais, vulnerabilidades psicológicas preexistentes e o risco de reforçar comportamentos disfuncionais relacionados ao emagrecimento.

    As pesquisas sobre agonistas de GLP-1 e dependência química são promissoras, mas ainda não justificam recomendar a tirzepatida como tratamento estabelecido para o TUS. A conduta responsável não é demonizar o medicamento nem presumir que seja adequado para todas as pessoas: é avaliar a indicação, as comorbidades, os tratamentos concomitantes e a possibilidade de acompanhamento clínico.

    O objetivo do tratamento não deve ser apenas emagrecer, mas promover saúde, funcionalidade e qualidade de vida com segurança. Peso é apenas uma dimensão da saúde; alimentação, comportamento, história clínica e sofrimento psicológico também importam.

    Referências científicas e regulatórias

    1. Anvisa. Mounjaro (tirzepatida): nova indicação terapêutica para controle crônico do peso, 2025.
      Publicação oficial.
    2. Anvisa. Alerta sobre risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido de canetas emagrecedoras, 2026.
      Publicação oficial.
    3. National Library of Medicine — DailyMed. Mounjaro (tirzepatida): informações oficiais de prescrição.
      Bula em inglês.
    4. JAMA Psychiatry. Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists and Mental Health: A Systematic Review and Meta-Analysis, 2025.
      Artigo científico.
    5. FDA. Avaliação sobre ideação e comportamento suicida associados aos agonistas do receptor GLP-1, 13 de janeiro de 2026.
      Comunicado oficial.
    6. Hendershot CS et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults With Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry, 2025.
      Artigo científico.
    7. Schacht JP et al. Oral Semaglutide for Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. American Journal of Psychiatry, 2026.
      Artigo científico.
    8. Systematic Review and Meta-Analysis Evaluating the Role of GLP-1 Receptor Agonists in Substance Use Disorders, 2026.
      Registro bibliográfico e resumo.
    9. Suhas K et al. The Impact of GLP-1 Agonists on the Development of Body Dysmorphic Disorder. Journal of the Endocrine Society, 2025; 9(Suppl. 1):bvaf149.1325.
      Resumo científico.
    10. Taipale H et al. Association between GLP-1 receptor agonist use and worsening mental illness in people with depression and anxiety in Sweden: a national cohort study. The Lancet Psychiatry, 2026;13(4):327–335.
      Artigo científico.
    11. Journal of Eating Disorders. A scoping review on weight loss injections and eating disorders: therapeutic impact, risks of misuse, and emerging harms, 2026.
      Artigo científico.
    12. Journal of Eating Disorders. Recomendações clínicas baseadas em consenso para uso de agonistas de GLP-1 em pessoas com transtornos alimentares, 2026.
      Registro bibliográfico.

    Nota: este artigo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica ou psiquiátrica. A indicação, a continuidade, o ajuste e a eventual interrupção do tratamento devem ser individualizados e conduzidos por profissionais habilitados.

  • Annie C. Meyers: oito anos no inferno da cocaína e o testemunho de uma mulher que ajudou a mudar a história da dependência química

    Antes de a dependência química ocupar o espaço que conhecemos hoje nos debates sobre saúde pública, uma mulher transformou sua própria tragédia em um dos primeiros grandes testemunhos autobiográficos sobre o poder destrutivo das drogas.

    Em 1902, nos Estados Unidos, uma mulher publicou um relato que rompia com o silêncio e os julgamentos de sua época. Seu nome era Annie C. Meyers, e seu livro, Eight Years in Cocaine Hell — Oito Anos no Inferno da Cocaína, em tradução livre — narrava a trajetória de uma mulher que, após iniciar o consumo de um produto medicinal contendo cocaína, viu sua vida desmoronar progressivamente.

    Mais de um século depois, sua história continua relevante para quem estuda dependência química, prevenção, tratamento e recuperação.

    De mulher respeitada à devastação provocada pela cocaína

    Annie Meyers era uma viúva de Chicago, pertencente a um círculo social privilegiado. Em meados da década de 1890, após sofrer com um resfriado, passou a utilizar um preparado medicinal para problemas nasais que continha cocaína.

    Naquele período, a substância era encontrada em diversos produtos comercializados legalmente, muitas vezes acompanhada de promessas terapêuticas que minimizavam seus riscos. O conhecimento sobre os mecanismos da dependência e suas consequências ainda estava longe do que a ciência desenvolveria posteriormente.

    O consumo de Meyers evoluiu para uma dependência devastadora. Ela perdeu seus recursos financeiros, passou a cometer furtos e fraudes para sustentar o uso da substância e enfrentou prisões, deterioração física e profundo comprometimento de sua vida social.

    Seu relato descreve uma degradação que atingiu a saúde, a autonomia e a própria dignidade. Um dos episódios mais impressionantes envolve a extração de um dente de ouro, realizada por ela mesma, para vender o metal e conseguir dinheiro para continuar consumindo cocaína.

    Não se trata de uma história que deva ser lida apenas pelo choque provocado por seus episódios extremos. O que torna esse testemunho historicamente relevante é a possibilidade de observar, pela perspectiva da própria pessoa que vivenciou o problema, como o consumo compulsivo pode reorganizar prioridades, comportamentos e decisões em torno da obtenção da substância.

    Uma mulher que rompeu o silêncio

    Publicado pela St. Luke Society, em Chicago, em 1902, Eight Years in Cocaine Hell é reconhecido como um dos primeiros relatos autobiográficos extensos de uma mulher sobre a própria dependência de drogas.

    Meyers não escreveu de fora, como uma médica que observava uma paciente, um jornalista que descrevia um caso policial ou um moralista que condenava determinado comportamento. Ela escreveu a partir da experiência vivida.

    Essa diferença é fundamental.

    Na virada do século XIX para o XX, pessoas com problemas relacionados ao uso de substâncias eram frequentemente apresentadas por meio de categorias morais, religiosas, médicas ou criminais. A voz da própria pessoa que vivenciava a dependência nem sempre recebia o mesmo espaço.

    Ao narrar sua trajetória, Meyers contribuiu para inaugurar uma forma de testemunho que transformava a experiência individual em documento social: a pessoa que sofreu com a dependência passava também a ser autora de uma narrativa sobre ela.

    Seu livro estabeleceu um precedente importante para a literatura autobiográfica sobre drogas, sofrimento e recuperação. A experiência pessoal deixava de ser apenas um episódio privado e passava a integrar o debate público.

    Essa contribuição merece atenção especial porque veio de uma mulher, em uma época na qual as possibilidades de participação feminina na produção intelectual e nos debates públicos eram mais limitadas.

    O impacto sobre a sociedade norte-americana

    A história de Meyers surgiu em um período de crescente preocupação com os efeitos do consumo de cocaína nos Estados Unidos. A substância, antes amplamente celebrada por suas aplicações médicas e comerciais, começava a ser associada a quadros graves de dependência, danos físicos e consequências sociais.

    Em 1902, ano da publicação do livro, a Geórgia adotou uma proibição da venda de cocaína. Nos anos seguintes, diferentes iniciativas estaduais e federais ampliaram o controle sobre substâncias psicoativas. Entre os marcos desse processo estão a legislação federal sobre alimentos e medicamentos de 1906 e a Lei Harrison, de 1914, que passou a regular a distribuição de cocaína e determinados opiáceos.

    É necessário reconhecer que essas mudanças resultaram de múltiplos fatores: evidências médicas, mobilização política, preocupações sanitárias, interesses econômicos e discursos sociais sobre drogas. Não há base suficiente para atribuir a Annie Meyers, individualmente, a aprovação dessas leis.

    Ainda assim, seu testemunho integra o conjunto de registros históricos que tornaram visíveis as consequências do consumo problemático de cocaína. Seu caso também evidencia uma contradição daquele período: uma substância comercializada como recurso terapêutico podia contribuir para a destruição da saúde e da autonomia de quem a utilizava.

    Sua relevância histórica está, portanto, tanto no que viveu quanto no fato de ter registrado publicamente essa experiência.

    Recuperação: uma trajetória que não terminou na destruição

    A narrativa de Meyers não se encerra na deterioração física e social. Ela conseguiu se recuperar com o auxílio de sua irmã e do trabalho de apoio desenvolvido pela St. Luke Society, instituição que também incentivou a publicação de seu relato.

    Esse desfecho é particularmente importante.

    A dependência química não deve ser compreendida exclusivamente a partir dos comportamentos mais graves que pode produzir. A história de uma pessoa não se resume aos danos que sofreu, aos erros que cometeu ou às consequências de seu consumo.

    A recuperação de Meyers mostra que, mesmo após uma trajetória de perdas profundas, a reconstrução da vida pode ser possível quando existe apoio.

    Sua experiência também nos convida a refletir sobre a importância das redes de suporte, do acolhimento e de respostas que ultrapassem a simples condenação moral. A recuperação não apaga o sofrimento vivido, mas abre a possibilidade de uma história que não termina nele.

    O legado para a dependência química e a literatura de recuperação

    Ao longo do século XX, relatos pessoais de pessoas que enfrentaram a dependência química passaram a ocupar um lugar importante na educação, na prevenção, na mobilização social e na compreensão dos processos de recuperação.

    Essas narrativas podem aproximar o conhecimento técnico da realidade vivida. Elas permitem compreender aspectos que estatísticas e classificações diagnósticas, isoladamente, não conseguem transmitir com a mesma profundidade: a progressão das perdas, os conflitos internos, a relação com a substância, a ruptura dos vínculos e as possibilidades de reconstrução.

    Annie C. Meyers foi uma precursora desse caminho.

    O testemunho autobiográfico pode combater a invisibilidade, questionar explicações simplistas e ampliar a compreensão pública sobre a dependência. Quando apresentado com responsabilidade, também pode contribuir para que outras pessoas reconheçam riscos, procurem ajuda e compreendam que a recuperação não precisa ser uma possibilidade distante.

    Por que precisamos resgatar essa história?

    Mais de 120 anos após a publicação de Eight Years in Cocaine Hell, a história de Annie Meyers permanece atual.

    Ainda convivemos com o estigma dirigido às pessoas que desenvolvem dependência química. Ainda encontramos interpretações que reduzem um fenômeno complexo à falta de caráter, à fraqueza moral ou à ausência de força de vontade. E ainda precisamos construir espaços nos quais a informação científica, a responsabilidade profissional e a experiência humana possam dialogar.

    Resgatar Annie Meyers não significa romantizar sua trajetória, transformar sofrimento em espetáculo ou atribuir a uma única mulher mudanças históricas que dependeram de muitos atores sociais.

    Significa reconhecer que, em 1902, uma mulher teve a coragem de registrar sua própria experiência com a cocaína e permitir que o mundo conhecesse uma realidade que muitas vezes permanecia escondida atrás do preconceito e da condenação.

    Annie C. Meyers não foi apenas personagem de uma história de dependência. Foi autora de um testemunho pioneiro sobre ela.

    E essa talvez seja sua contribuição mais duradoura: demonstrar que uma experiência pessoal, quando transformada em relato, pode atravessar gerações, alimentar a reflexão coletiva e ajudar a construir uma compreensão mais humana sobre a dependência química.

    Porque, para além das substâncias, dos diagnósticos e das estatísticas, existe sempre uma pessoa. E ouvir sua história pode ser um dos primeiros passos para compreender aquilo que os números, sozinhos, não conseguem contar.


    Referência histórica principal

    MEYERS, Annie C. Eight Years in Cocaine Hell. Chicago: Press of the St. Luke Society, 1902. Obra autobiográfica posteriormente republicada em edição moderna pela Dean Street Press, em 2016.

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