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  • Automedicação é um hábito comum de 90% dos brasileiros

    Automedicação é um hábito comum de 90% dos brasileiros

    Uma pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) revela que nove entre dez brasileiros tomam medicamentos sem prescrição. Segundo a pesquisa de 2024, a automedicação é mais comum para sintomas como dores de cabeça, gripes, resfriados, febres e dores musculares. Para esses casos mais corriqueiros, em que os problemas de saúde tendem a se resolver sozinhos e a automedicação é feita com medicamentos de venda livre como analgésicos e antitérmicos, ela pode ser adequada desde que se siga as orientações de bula. Para além disso, a prática possui diversas contraindicações por conta de seu risco à saúde, incluindo o aumento de resistência bacteriana e surgimento de infecções mais difíceis de serem tratadas.

    A farmacêutica e professora Maria Olívia Barboza Zanetti da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP reforça que mesmo quando feita em casos específicos “a automedicação deve ser responsável, ou seja, realizada com orientação, cautela e conhecimento. É sempre preferível consultar um profissional de saúde, como um farmacêutico, que está dispensando o medicamento para garantir que o tratamento seja seguro e efetivo”.

    Efeitos adversos e resistência bacteriana

    Segundo a farmacêutica, a automedicação deve ser feita com cautela, uma vez que pode mascarar sintomas de uma condição mais séria, retardar o diagnóstico e o tratamento adequado. Ela ainda alerta que medicamentos que interagem de forma negativa entre si podem ser combinados sem conhecimento, o que pode reduzir a eficácia deles ou aumentar o risco de efeitos adversos. Os medicamentos mais utilizados sem prescrição são os analgésicos antitérmicos e alguns anti-inflamatórios, por serem de venda livre e usados para o manejo de sintomas de condições autolimitadas.

    “O uso inadequado de doses, tanto menores quanto maiores do que o recomendado, também pode levar a tratamentos ineficazes ou a toxicidade. Também é importante citar que certos medicamentos, como ansiolíticos ou opioides, têm potencial de causar dependência física e psicológica se usados de maneira inadequada”, acrescenta.

    Os riscos podem ser ainda maiores quando a automedicação é feita com antibióticos, incluindo o desenvolvimento de novas infecções mais difíceis de tratar e prolongamento de internações. “O uso inadequado, seja por indicação incorreta, doses equivocadas, tempo insuficiente ou mesmo prolongado de tratamento favorece o desenvolvimento de resistência bacteriana. Isso significa que não apenas as bactérias causadoras de infecção podem deixar de responder ao antibiótico, mas também as bactérias que compõem a nossa flora podem se tornar resistentes ou aumentar muito em número, gerando novos quadros infecciosos”, explica Maria Olívia.

    Com isso, desde 2011, os antibióticos são de prescrição obrigatória e com exigência de retenção de receita pela farmácia e, em 2021, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou e atualizou essas regras, organizando os procedimentos de dispensação em farmácias e drogarias.

    Medicalização da vida

    Em uma análise do alto número de brasileiros que se automedicam, a farmacêutica e professora Maria Olívia conta que os principais fatores são a facilidade de acesso a medicamentos e a crença de que as pessoas já conhecem o medicamento ideal para determinados sintomas baseados em experiências anteriores ou indicações de amigos e familiares. Mas isso não é tudo: “A dificuldade de acesso a consultas médicas, seja pelo tempo de espera no sistema público ou pelo custo elevado no sistema privado, também contribui bastante”, acrescenta.

    Outro fator que interfere nessa elevada taxa é a medicalização da vida, fenômeno em que sintomas comuns como estresse ou insônia ocasional são vistos como problemas de saúde que exigem medicamento imediato. “É o processo em que aspectos naturais da nossa existência, como o envelhecimento, momentos de tristeza ou determinados comportamentos passam a ser tratados como doenças que necessitam de medicamento. Isso gera uma cultura em que a solução farmacológica é vista como a primeira e muitas vezes como a única alternativa”, analisa. Para ela, o resultado é o uso irracional ou desnecessário de medicamentos, muitas vezes sem indicação de um profissional de saúde e que além de ineficazes nessas situações também podem ser prejudiciais.

    Responsabilidade compartilhada

    De acordo com a farmacêutica, para reduzir a automedicação é necessário uma responsabilidade compartilhada entre governo, profissionais de saúde, farmácias, laboratórios farmacêuticos e mesmo os próprios usuários de medicamentos. “O governo tem um papel fundamental na implementação de políticas de saúde pública, na regulação de prescrição e dispensação de medicamentos e na educação da população sobre o uso correto. Isso inclui campanhas de conscientização sobre os riscos da prática e legislações que restrinjam a compra de medicamentos com maior potencial de causar danos quando usados sem prescrição”, diz. Além disso, ela aponta para a necessidade de facilitar o acesso a consultas na atenção primária, diminuindo filas e ampliando alternativas como teleatendimento.

    Ao mesmo tempo, a farmacêutica diz que os profissionais de saúde são fundamentais na prescrição, dispensação e orientação adequada sobre o uso de medicamentos. “No caso dos antimicrobianos, um médico deve prescrever antibióticos somente quando comprovadamente necessário, orientando ao paciente a importância de seguir os horários e completar o tratamento para evitar a resistência bacteriana. O farmacêutico também tem um papel estratégico, orientando a população e servindo como primeiro contato de cuidado em muitos casos”, conclui.

    Reprodução integral: reportagem “Automedicação é um hábito comum de 90% dos brasileiros”, de Carolina Castro*, publicada pelo Jornal da USP em 22 de agosto de 2025. Reprodução conforme a política de uso publicada pelo Jornal da USP.

    Imagem: ilustração original EducaDQ criada para esta publicação. As fotografias e o áudio da reportagem original não foram reproduzidos. No original, a imagem de capa é creditada ao Freepik e o retrato de Maria Olívia Barboza Zanetti ao arquivo pessoal.

    Fonte de pesquisa citada na reportagem: o texto original atribui o dado apresentado a uma pesquisa do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), realizada em 2024. A reportagem não inclui um link direto para o estudo primário; essa referência é mantida como aparece na fonte original.

  • Calixcoca: vacina brasileira promete revolucionar tratamento contra dependência de cocaína e crack

    Uma tecnologia terapêutica experimental desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está avançando na preparação das próximas etapas de avaliação contra a dependência de cocaína e crack. Conhecida como Calixcoca, a proposta é estudada como uma possível ferramenta de apoio ao tratamento e à prevenção de recaídas, mas ainda não está disponível para uso clínico geral.

    Fonte principal: esta publicação é uma síntese editorial original baseada na matéria “Calixcoca: vacina brasileira promete revolucionar tratamento contra dependência de cocaína e crack”, publicada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) em 3 de março de 2026, com autoria indicada como Comunicação CFF.

    O que é a Calixcoca

    A Calixcoca é descrita pelas fontes institucionais como um imunizante terapêutico experimental. Diferentemente de uma vacina preventiva tradicional, destinada a evitar uma infecção antes que ela ocorra, a proposta está relacionada ao tratamento da dependência e à redução dos efeitos da cocaína no organismo durante o acompanhamento de pessoas que já enfrentam o problema.

    O mecanismo estudado envolve a indução do sistema imunológico para produzir anticorpos que se ligam à cocaína na corrente sanguínea. Essa ligação aumenta o tamanho da molécula e pode dificultar sua passagem pela barreira hematoencefálica, estrutura que regula a passagem de substâncias do sangue para o sistema nervoso central. A intenção é reduzir a chegada da droga ao cérebro e, consequentemente, seus efeitos.

    O mecanismo é uma hipótese terapêutica sustentada pelos resultados pré-clínicos divulgados pelas instituições. Ele não significa que a dependência seja resolvida por uma única aplicação, nem que a pessoa deixe de precisar de cuidado clínico, psicossocial e acompanhamento continuado.

    Em que etapa está a pesquisa

    Segundo a matéria do CFF, a pesquisa começou em 2015 e havia concluído etapas pré-clínicas em animais, com resultados considerados promissores pelos pesquisadores. Naquele momento, a equipe preparava documentos para solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorização para um estudo de fase 1 em seres humanos. Essa primeira fase tem como objetivo principal avaliar segurança e possíveis efeitos adversos, e não comprovar sozinha a eficácia de um tratamento.

    Uma atualização institucional da UFMG publicada em agosto de 2025 acrescenta uma cautela importante: antes da transição para estudos clínicos, ainda seriam necessários testes adicionais em condições certificadas. A universidade também destacou que os resultados de uma etapa de pesquisa não garantem automaticamente a passagem para a fase seguinte. Portanto, a Calixcoca deve ser apresentada como uma tecnologia em desenvolvimento, não como medicamento aprovado ou tratamento já disponível.

    Quem desenvolve o projeto

    O projeto é coordenado por Frederico Duarte Garcia, da Faculdade de Medicina da UFMG, e tem execução vinculada ao Departamento de Saúde Mental da universidade. As fontes citam também a participação de Maila de Castro, Gisele Goulart e Ângelo de Fátima, além de pesquisadores vinculados ao Núcleo de Pesquisa em Vulnerabilidade e Saúde (NAVeS), entre eles Paulo Sérgio de Almeida, Raissa Pereira, Sordaini Caligiorne, Brian Sabato, Bruna Assis, Larissa do Espírito Santo e Karine Reis.

    A Fundep participa da viabilização administrativa e financeira do projeto. A fundação informa que a pesquisa recebeu apoio para aquisição de insumos, realização de testes pré-clínicos e bolsas de pesquisadores. O projeto também recebeu apoio de instituições públicas de fomento e foi reconhecido em premiações de inovação em saúde.

    Patentes, investimentos e próximos passos

    Em notícia publicada pela UFMG, a universidade informou que a tecnologia havia obtido proteção por patentes no Brasil e nos Estados Unidos, com a UFMG e a Fapemig como cotitulares. A mesma publicação registrou investimentos do Governo de Minas Gerais e da Fapemig para viabilizar etapas adicionais da pesquisa.

    Os próximos passos dependem de resultados, infraestrutura certificada, autorização regulatória e execução das fases clínicas previstas. Em pesquisas desse tipo, a passagem dos testes em animais para os estudos em pessoas é uma etapa rigorosa e pode revelar efeitos, limitações ou problemas que não aparecem na fase pré-clínica.

    Esperança sem promessa de cura

    A Calixcoca chama atenção porque a dependência de cocaína e crack continua sendo um problema de saúde que exige respostas acessíveis, baseadas em evidências e articuladas com a realidade de cada pessoa. Uma tecnologia que ajude a reduzir recaídas poderia, se demonstrar segurança e eficácia em estudos clínicos, ampliar as possibilidades de cuidado e dar mais tempo para a reconstrução de projetos de vida.

    Isso não autoriza, porém, a divulgação da Calixcoca como cura, vacina já aprovada ou solução isolada para a dependência. O tratamento continua exigindo avaliação individualizada, cuidado em saúde mental, redução de danos quando indicada, apoio psicossocial e estratégias de proteção social. Pessoas que enfrentam problemas relacionados ao uso de cocaína ou crack devem procurar os serviços de saúde e assistência disponíveis em sua região.

    Créditos e fontes consultadas

    Autoria original da notícia principal: Conselho Federal de Farmácia (CFF), por Comunicação CFF, publicada em 03/03/2026.

    Fonte institucional complementar: Universidade Federal de Minas Gerais, matéria de Itamar Rigueira Jr., com Assessoria de Comunicação da Fapemig, publicada em 28/08/2025 e atualizada em 12/09/2025.

    Dados institucionais do projeto: Fundep/UFMG — Vacina Calixcoca, página que identifica a coordenação de Frederico Duarte Garcia e a participação da Fundep na pesquisa.

    Contato institucional do CFF: página de imprensa do Conselho Federal de Farmácia.

    Autoria desta publicação no EducaDQ: EducaDQ realizou a síntese editorial e a organização dos links. A autoria da matéria original e os créditos jornalísticos pertencem ao Conselho Federal de Farmácia, por Comunicação CFF.

    Nota editorial: esta é uma notícia de divulgação científica. As informações refletem o estágio descrito nas fontes identificadas e não substituem orientação de profissionais ou serviços de saúde.

  • Estudo da Unifesp associa padrões de consumo de responsáveis e adolescentes, mas aponta papel protetor da educação familiar

    Pesquisa com 4.280 pares em quatro municípios paulistas identificou relações entre os perfis de uso de álcool e outras drogas nas duas gerações. Estilo parental que combina acolhimento, acompanhamento e limites consistentes esteve associado a menor probabilidade de poliuso entre jovens.

    Categoria: Prevenção ao uso de álcool e outras drogas | EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas

    Os padrões de consumo de álcool e outras drogas observados entre responsáveis podem estar associados aos comportamentos dos adolescentes, mas não determinam o futuro dos jovens. Essa é uma das principais mensagens de um estudo conduzido por pesquisadores vinculados à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 4.280 pares de adolescentes e responsáveis em quatro municípios paulistas.

    Publicado em março de 2026 na revista Addictive Behaviors, o trabalho também identificou que práticas parentais podem modificar parte dessa associação. Entre elas, destacou-se o estilo que combina vínculo afetivo, atenção às necessidades dos adolescentes, supervisão e limites consistentes. A pesquisa foi divulgada pela Agência FAPESP em fevereiro de 2026.

    Os resultados ajudam a discutir como a convivência familiar pode participar da prevenção, mas precisam ser interpretados com cautela: a pesquisa identificou associações entre perfis de consumo, não uma relação de causa e efeito. Ter responsáveis que consomem substâncias não significa que os filhos necessariamente farão o mesmo; da mesma forma, a abstinência dos adultos não é garantia absoluta de que os adolescentes nunca experimentarão álcool ou outras drogas.

    Leia a divulgação da Agência FAPESP.

    Pesquisa analisou perfis de consumo de adolescentes e responsáveis

    O artigo, intitulado Does the apple fall far from the tree? When parenting styles disrupt the intergenerational pattern of substance use, foi baseado em dados coletados entre 2023 e 2024 nos municípios paulistas de Cordeirópolis, Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim. A idade média dos adolescentes participantes era de aproximadamente 14,7 anos. A investigação integrou a etapa diagnóstica de um projeto mais amplo de prevenção comunitária do consumo de álcool entre jovens, antes da implementação da intervenção.

    Os pesquisadores analisaram informações relacionadas ao consumo de álcool, episódios de consumo excessivo, tabaco, cannabis e cigarros eletrônicos. Em vez de examinar cada substância de forma isolada, identificaram perfis gerais tanto entre os responsáveis quanto entre os adolescentes: abstinência ou consumo muito baixo; consumo predominantemente relacionado ao álcool; e uso de múltiplas substâncias, também chamado de poliuso.

    Essa abordagem permite observar diferentes combinações de comportamento. Uma pessoa cujo padrão está principalmente relacionado ao álcool, por exemplo, não necessariamente apresenta o mesmo perfil de alguém que combina várias substâncias.

    Embora o estudo tenha utilizado a Análise de Transição Latente, isso não significa que os pesquisadores tenham acompanhado a mudança de comportamento de cada adolescente ao longo de vários anos. A análise examinou associações entre os perfis dos responsáveis e dos jovens. Portanto, os resultados ajudam a compreender padrões intergeracionais, mas não demonstram, por si só, que o consumo dos pais tenha causado o consumo dos filhos.

    O que significam os percentuais de 24%, 28% e 89%

    Entre os resultados divulgados, três percentuais chamaram atenção. Eles correspondem a estimativas do modelo para os grupos analisados e não devem ser tratados como riscos universais aplicáveis a todas as famílias brasileiras.

    Quando os responsáveis estavam no perfil de consumo predominantemente relacionado ao álcool, o modelo estimou 24% de probabilidade de os adolescentes pertencerem ao perfil de consumo de álcool. Para o perfil de uso de múltiplas substâncias entre os jovens, a probabilidade estimada foi de 6%.

    Nos casos em que os responsáveis foram classificados no perfil de consumo de múltiplas substâncias, a probabilidade estimada de os adolescentes integrarem esse mesmo perfil foi de 28%. A probabilidade de pertencerem ao perfil predominantemente relacionado ao álcool foi de 17%.

    Já entre os responsáveis classificados no perfil de abstinência, o modelo estimou que 89% dos adolescentes estavam no perfil correspondente de abstinência ou consumo muito baixo. Esse dado indica uma associação expressiva, mas não significa que a abstinência dos adultos garanta que os filhos nunca experimentarão substâncias.

    A conclusão é que os perfis familiares de consumo estão relacionados aos dos adolescentes, mas essa relação não é determinística. O consumo entre os responsáveis não define, sozinho, o comportamento dos jovens.

    Sanchez et al., 2026 — Addictive Behaviors |

    Agência FAPESP.

    Como o ambiente familiar pode influenciar escolhas

    A relação entre gerações não deve ser entendida como uma simples cópia do comportamento dos adultos. Convivência, normas familiares, acesso às substâncias, vínculos afetivos e condições sociais e individuais podem participar desse processo.

    Crianças e adolescentes aprendem observando os adultos de referência. Se o álcool aparece repetidamente como forma de relaxar, lidar com o estresse, celebrar conquistas ou enfrentar frustrações, os jovens podem incorporar essa associação à maneira como compreendem a regulação das emoções e a vida social. Isso não significa que todo adulto que consome álcool esteja ensinando o filho a beber: contexto, frequência, quantidade, consequências e a maneira como o tema é tratado também importam.

    A exposição frequente pode ainda contribuir para que o consumo pareça comum ou pouco preocupante. A percepção dos adolescentes não é construída apenas por conversas explícitas: o que observam em reuniões familiares, a forma como os adultos falam sobre episódios de embriaguez e a disponibilidade de substâncias em casa também podem influenciá-la.

    Regras claras e supervisão são parte desse cenário. No Brasil, a Lei nº 13.106/2015 criminaliza vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar bebida alcoólica a crianças e adolescentes, inclusive gratuitamente. A prevenção familiar envolve, portanto, não apenas falar sobre riscos, mas também estabelecer limites concretos sobre acesso e situações de consumo.

    Texto da Lei nº 13.106/2015.

    Vínculos marcados por escuta, disponibilidade e acompanhamento podem criar melhores condições para que adolescentes compartilhem dúvidas, reconheçam situações de risco e procurem ajuda. Esses fatores não eliminam todos os riscos, mas podem contribuir para a identificação precoce de problemas e para a construção de alternativas ao uso de substâncias diante de conflitos, frustrações ou pressão social.

    Estilo parental democrático combinou acolhimento e limites

    Além de identificar associações entre perfis de consumo, os pesquisadores observaram que o estilo parental pode modificar essa relação. O estilo chamado de autoritativo, também descrito como democrático em algumas abordagens, teve papel protetor especialmente relevante em relação ao poliuso entre adolescentes, inclusive em famílias nas quais os responsáveis estavam em perfis de maior risco.

    Esse estilo combina duas dimensões: responsividade — acolhimento, disponibilidade e atenção às necessidades do jovem — e exigência comportamental — limites, supervisão e expectativas consistentes. Na prática, significa ouvir e acolher o adolescente sem abrir mão da responsabilidade educativa.

    O estudo também encontrou resultados distintos para o estilo autoritário, caracterizado por maior controle e menor abertura ao diálogo. Esse estilo esteve associado a menor probabilidade de poliuso, mas também a maior transmissão específica do padrão relacionado ao álcool. O achado não deve ser interpretado como recomendação de uma educação punitiva; mostra que diferentes estilos podem estar relacionados de maneiras distintas a cada perfil de consumo.

    Os estilos permissivo e negligente não apresentaram os mesmos efeitos protetores identificados para o estilo autoritativo. Ainda assim, essas categorias são modelos científicos para estudar tendências: nenhuma família se resume integralmente a uma classificação, e os resultados não permitem prever o destino de um adolescente individualmente.

    O ponto central é que vínculo afetivo e limites consistentes não são opostos. A prevenção pode se beneficiar quando ambos fazem parte da relação familiar.

    Artigo científico.

    Revisão aponta influência de fatores dentro e fora de casa

    Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Family Theory & Review amplia essa compreensão. Após examinar milhares de registros bibliográficos, os autores incluíram 24 estudos sobre fatores que podem modificar a relação entre o uso de substâncias pelos responsáveis e o consumo entre adolescentes.

    A revisão identificou fatores como coesão familiar, acompanhamento parental, vínculo entre responsáveis e jovens, saúde mental, comunicação e intervenções na escola ou em outros ambientes sociais. Os fatores de proteção, portanto, não se limitam à família: competências individuais, relações sociais positivas, ambientes escolares saudáveis e oportunidades de desenvolvimento também podem ajudar adolescentes mesmo quando há consumo problemático entre os responsáveis.

    Essa perspectiva evita uma explicação simplista. O consumo dos adultos importa, mas não é o único elemento envolvido no desenvolvimento de comportamentos de risco.

    Rodríguez-Ruiz et al., 2025.

    O que famílias podem fazer

    A prevenção não depende de uma conversa isolada ou apenas da proibição. Ela pode envolver informação, vínculo, supervisão e coerência nas atitudes dos adultos.

    Uma das medidas é refletir sobre o próprio padrão de consumo: com que frequência ocorre, se está associado ao estresse, se há episódios de intoxicação e que mensagens são transmitidas aos filhos, intencionalmente ou não. Quando existe uso problemático ou dependência, buscar tratamento é uma forma de cuidado consigo e com a família. Isso não significa culpabilizar responsáveis, mas reconhecer que o cuidado com os adultos também pode integrar a prevenção dirigida aos jovens.

    As regras precisam ser claras, compreensíveis e aplicadas com consistência. No caso de álcool e outras drogas, isso inclui não fornecer substâncias a menores, não tratar a embriaguez como motivo de orgulho e não minimizar comportamentos perigosos. É possível manter limites firmes sem humilhação, ameaça ou violência.

    Acompanhar os adolescentes também é importante: conhecer seus amigos, saber onde estão e manter comunicação frequente pode ajudar a perceber mudanças. O acompanhamento deve ser proporcional à idade e às circunstâncias. Controle excessivo, invasão indiscriminada de privacidade e punições desproporcionais podem prejudicar o diálogo; a ausência completa de supervisão também pode deixar riscos sem identificação. O objetivo é que o jovem se sinta acompanhado e possa procurar ajuda, não apenas evitar ser descoberto.

    As conversas sobre substâncias devem oferecer informações compreensíveis sobre efeitos, riscos, pressão dos pares e consequências do consumo, considerando as dúvidas reais dos adolescentes. Abordagens exclusivamente moralizantes ou baseadas no medo podem não responder às motivações envolvidas, que podem incluir curiosidade, pertencimento, sofrimento emocional ou tentativa de lidar com ansiedade.

    Isolamento persistente, queda expressiva no rendimento escolar, mudanças bruscas de comportamento, episódios recorrentes de intoxicação ou sofrimento emocional importante merecem atenção. Esses sinais, isoladamente, não comprovam um transtorno por uso de substâncias, mas, se persistirem ou aparecerem em conjunto, justificam avaliação por profissionais habilitados.

    Prevenção baseada em evidências exige avaliação

    Os Padrões Internacionais de Prevenção do Uso de Drogas, publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), destacam intervenções estruturadas para desenvolver habilidades parentais, fortalecer vínculos familiares e promover acompanhamento e disciplina adequados. O documento também diferencia programas organizados de ações pontuais ou realizadas sem preparo suficiente.

    Ao mesmo tempo, a literatura tem limitações. Uma revisão Cochrane de 2019, que reuniu 46 estudos randomizados sobre programas familiares de prevenção ao consumo de álcool entre jovens, concluiu que as evidências disponíveis eram de baixa ou muito baixa qualidade e não permitiam demonstrar benefícios gerais consistentes para todos os programas avaliados.

    Isso não significa que o trabalho com famílias seja inútil. Indica que os resultados podem depender do tipo e da qualidade da intervenção, do contexto e dos desfechos considerados. Prevenção baseada em evidências não promete eliminar todos os problemas: envolve selecionar, aplicar e avaliar ações de forma crítica.

    OMS/UNODC — Padrões Internacionais de Prevenção |

    Revisão Cochrane, 2019.

    Formação também faz parte da prevenção

    A atuação preventiva exige profissionais capazes de interpretar evidências sem exagerar conclusões, compreender fatores individuais e sociais e reconhecer a complexidade das relações familiares. Na área de álcool e outras drogas, isso inclui diferenciar experimentação, padrões de risco e possíveis transtornos por uso de substâncias; identificar fatores de proteção; orientar familiares; reconhecer quando é necessário encaminhar para atendimento; e evitar práticas que reforcem estigmas ou culpabilização.

    A formação também deve esclarecer os limites de atuação. A capacitação educativa não substitui avaliação médica ou psicológica, não habilita participantes a exercer práticas para as quais não estejam qualificados e não dispensa encaminhamento quando há necessidade de tratamento especializado.

    O EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas — busca contribuir para a disseminação de conhecimento e a qualificação de profissionais, estudantes e pessoas interessadas na prevenção e no cuidado relacionado ao uso de substâncias. Transformar evidências em prática exige compreender o que cada pesquisa demonstra, reconhecer o que ainda não consegue responder e aplicar esse conhecimento com responsabilidade junto a pessoas e famílias.

    Ciclo intergeracional não é sentença

    O estudo da Unifesp reforça que os padrões de consumo dos responsáveis estão associados aos perfis observados entre adolescentes, mas também indica que essa relação não é inevitável e pode ser modificada por práticas parentais. A associação entre abstinência dos responsáveis e abstinência ou consumo muito baixo entre jovens não deve se transformar em julgamento moral contra famílias em que há uso de substâncias.

    Responsáveis que enfrentam dificuldades com álcool ou outras drogas também precisam de informação, acolhimento, tratamento e apoio. A presença de um problema não determina, isoladamente, o futuro dos filhos. A prevenção envolve reduzir exposições de risco, fortalecer vínculos, estabelecer limites consistentes, estimular a comunicação e identificar situações que exigem cuidado profissional.

    Essa responsabilidade tampouco cabe exclusivamente aos pais. Escola, serviços de saúde, comunidade, políticas públicas e redes de apoio também têm papéis importantes. A ciência pode orientar a prevenção não para determinar o destino de uma família, mas para ampliar suas possibilidades de proteção, cuidado e mudança.

    Artigo de divulgação científica. Não substitui avaliação clínica, atendimento especializado ou consulta às publicações científicas originais.

    Fontes e referências

    1. Sanchez, Z. et al. “Does the apple fall far from the tree? When parenting styles disrupt the intergenerational pattern of substance use.” Addictive Behaviors, 174, 108567, 2026.
      DOI: 10.1016/j.addbeh.2025.108567.
    2. Agência FAPESP. “Parents’ alcohol and drug use influences their children’s consumption, research shows.” Publicado em 13 de fevereiro de 2026.
      Acessar reportagem.
    3. Rodríguez-Ruiz, J. et al. “The influence of parental substance use on adolescent substance use: A systematic review of moderators.” Journal of Family Theory & Review, 17(3), 721–741, 2025.
      DOI: 10.1111/jftr.12620.
    4. World Health Organization e United Nations Office on Drugs and Crime. International Standards on Drug Use Prevention. Second Edition, 2018.
      Publicação oficial.
    5. Gilligan, C. et al. “Family-based prevention programmes for alcohol use in young people.” Cochrane Database of Systematic Reviews, 2019, CD012287.
      DOI: 10.1002/14651858.CD012287.pub2.
    6. Brasil. Lei nº 13.106, de 17 de março de 2015. Altera o Estatuto da Criança e do Adolescente para criminalizar o fornecimento de bebida alcoólica a crianças e adolescentes.
      Texto legal oficial.
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