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  • Como ajudar alguém com dependência química sem se abandonar

    Como ajudar alguém com dependência química sem se abandonar

    Quando alguém que amamos enfrenta problemas relacionados ao álcool ou a outras drogas, é comum a família viver em alerta. A preocupação pode levar a tentativas constantes de vigiar, convencer, proteger ou resolver as consequências do uso. Com o tempo, a vida de quem cuida também pode ficar menor: menos descanso, menos vínculos e pouco espaço para as próprias necessidades.

    A família pode ser uma fonte importante de apoio, mas não existe uma fórmula única para ajudar. O uso de substâncias também pode afetar o bem-estar dos familiares, que têm direito a procurar orientação e cuidado para si. Grupos de apoio e acompanhamento familiar podem ser opções a considerar, conforme a necessidade de cada pessoa.

    Ajudar não significa controlar todas as escolhas de quem está em sofrimento. E cuidar de si não significa deixar de amar. É possível manter a disposição para apoiar e, ao mesmo tempo, reconhecer o que está ou não ao seu alcance.

    Quando a preocupação começa a ocupar tudo

    Talvez você se reconheça em algumas situações: conferir repetidamente onde a pessoa está, tentar impedir qualquer possibilidade de uso, emprestar dinheiro apesar de isso prejudicar suas contas ou inventar justificativas para outras pessoas. Muitas dessas atitudes nascem do medo e da esperança de evitar algo pior. Elas não provam falta de amor nem permitem, por si só, definir um diagnóstico.

    Algumas pessoas usam a palavra “codependência” para falar de relações em que o cuidado parece ter se misturado a vigilância, anulação das próprias necessidades ou sensação de que é preciso resolver tudo pelo outro. O termo não precisa virar um rótulo. Uma pergunta mais útil pode ser: o que essa situação está fazendo comigo e de que apoio eu preciso?

    Se sua saúde, seu trabalho, seus relacionamentos ou seu descanso vêm sendo deixados de lado, isso merece atenção. Você não precisa esperar chegar ao limite para conversar com alguém de confiança ou buscar orientação profissional.

    Apoiar não é controlar

    Familiares podem ajudar a aproximar alguém de informações e serviços de saúde. O envolvimento da família no cuidado pode ser útil para algumas pessoas, mas precisa considerar a situação concreta, a segurança e a avaliação da equipe responsável. Não é uma obrigação para toda família, nem uma garantia de que alguém aceitará tratamento.

    Uma forma de oferecer apoio é fazer um convite específico, sem humilhar ou ameaçar. Por exemplo: “Estou preocupado com o que está acontecendo e quero conversar sem brigar. Se você quiser, posso procurar com você um serviço de saúde ou acompanhar você até lá.” A pessoa pode aceitar, recusar ou precisar de tempo. Você pode manter a oferta de apoio sem assumir o poder de decidir por ela.

    Procure conversar apenas quando houver condições de segurança e de escuta. Se a pessoa estiver muito alterada, se houver ameaça ou se você temer uma agressão, não tente resolver tudo naquele momento. Afaste-se do risco e procure apoio. A segurança das pessoas envolvidas vem antes de uma conversa difícil. A orientação do SAMHSA destaca que a participação familiar em intervenções precisa ser avaliada com atenção, especialmente quando há histórico de violência ou abuso.

    Limites são decisões sobre o que você pode fazer

    Um limite saudável não é uma punição nem uma estratégia para forçar alguém a mudar. É uma decisão sobre o que você pode oferecer e o que fará para proteger sua segurança e seu bem-estar. Ele não controla a outra pessoa; torna mais claro como você pretende agir.

    Alguns exemplos, que precisam ser adaptados à realidade de cada família, são:

    • “Eu posso ajudar a procurar atendimento, mas não posso emprestar dinheiro.”
    • “Não vou mentir para outras pessoas para encobrir uma situação.”
    • “Se houver gritos ou ameaças, vou encerrar a conversa e procurar um lugar seguro.”
    • “Não vou dirigir ou emprestar o carro se não me sentir seguro.”

    Escolha limites que sejam possíveis de cumprir. Explique-os em linguagem simples e, quando for seguro, com calma. Se houver violência, coerção ou medo, procure orientação individual antes de propor conversas conjuntas. Terapia familiar não é adequada em todas as situações; o contexto deve ser avaliado por profissionais.

    Cuidar de si também faz parte do cuidado

    A vida do familiar não precisa ficar em pausa até que a outra pessoa aceite ajuda ou alcance determinada etapa da recuperação. Preserve, tanto quanto possível, compromissos de saúde, sono, trabalho, amizades e atividades que lhe façam bem. Ter um espaço para falar com honestidade — como acompanhamento psicológico, grupo de apoio para familiares ou serviço de saúde — pode ajudar a reduzir o isolamento e pensar em próximos passos.

    Guias para familiares recomendam atenção ao autocuidado e à construção de limites. Isso não é egoísmo: é reconhecer que você também está atravessando uma situação difícil e merece cuidado.

    Se não souber por onde começar, escolha uma ação pequena e concreta: contar a uma pessoa confiável o que está acontecendo; marcar uma consulta para si; ou perguntar a um serviço de saúde que apoio existe para familiares. Você não precisa resolver tudo de uma vez.

    Onde buscar orientação no Brasil

    No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem cuidado em saúde mental, inclusive para situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. Os CAPS contam com equipes multiprofissionais e podem oferecer apoio psicossocial a usuários e familiares. A modalidade CAPS AD é voltada a questões relacionadas a álcool e outras drogas. A Unidade Básica de Saúde (UBS) da sua região ou a Secretaria Municipal de Saúde pode orientar sobre os serviços disponíveis no município.

    Segundo o Ministério da Saúde, é possível procurar diretamente um CAPS para o acolhimento inicial; a organização e as modalidades de atendimento variam conforme o município. Você também pode perguntar ao serviço como familiares podem receber orientação ou participar do cuidado, respeitando a privacidade e as escolhas da pessoa atendida.

    Grupos de ajuda mútua também podem oferecer escuta e troca de experiências entre pessoas em situações semelhantes. Para quem busca apoio para si em questões de codependência, o Codependentes Anônimos — CoDA Brasil informa sobre reuniões presenciais e on-line. Familiares e amigos afetados pelo uso de álcool podem consultar o Al-Anon Brasil; quem foi afetado pelo uso de drogas pode conhecer os Grupos Familiares Nar-Anon do Brasil. Pessoas que buscam apoio mútuo para a própria recuperação podem localizar reuniões de Narcóticos Anônimos ou Alcoólicos Anônimos, conforme a situação. Os horários e formatos podem mudar, então consulte os sites oficiais antes de participar.

    Esses grupos oferecem apoio entre pares e não substituem avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde, nem serviços de urgência. Podem ser considerados junto a outros cuidados, conforme a necessidade de cada pessoa.

    Em uma situação que exija atendimento imediato, como risco à vida ou uma emergência de saúde, procure uma UPA ou pronto-socorro, ou acione o SAMU pelo número 192.

    Você pode amar sem carregar tudo sozinho

    Apoiar alguém com transtorno por uso de substâncias pode envolver presença, incentivo à busca de cuidado e conversas difíceis. Não exige que você abandone sua saúde, esconda tudo ou assuma a responsabilidade pelas escolhas de outra pessoa. A família também pode pedir ajuda, aprender sobre os serviços disponíveis e estabelecer limites que protejam sua dignidade e segurança.

    Talvez o próximo passo não seja convencer alguém. Pode ser reconhecer que você também precisa de apoio — e procurar esse apoio hoje.

    Este artigo tem finalidade psicoeducativa. Não substitui avaliação ou acompanhamento de profissionais de saúde. Cada situação deve ser considerada em seu contexto, especialmente quando há risco à segurança.

    Referências

    1. Helping Families Cope with Mental Health and Substance Use Disorders
    2. The Importance of Family Therapy in Substance Use Disorder Treatment
    3. Guide for Family Members
    4. Centros de Atenção Psicossocial — Ministério da Saúde
    5. Reuniões de Grupo On-line — Codependentes Anônimos Brasil
    6. Grupos Al-Anon e Alateen pelo Brasil
    7. Localização de Grupos e Reuniões a Distância — Nar-Anon Brasil
    8. Busca por reuniões — Narcóticos Anônimos Brasil
    9. Reuniões presenciais — Alcoólicos Anônimos Brasil
  • A neurociência da reclamação: como pensamentos, emoções e relações podem alimentar ciclos de sofrimento — e como começar a transformá-los

    A neurociência da reclamação: como pensamentos, emoções e relações podem alimentar ciclos de sofrimento — e como começar a transformá-los

    Uma reflexão educativa sobre hábitos mentais, dependência emocional, codependência, transtornos adictivos e a responsabilidade de desenvolver autopercepção.

    Importante: este artigo não diagnostica pessoas, não transforma a reclamação em doença e não substitui avaliação clínica, psicoterapia, acompanhamento médico ou serviços de proteção. Em situações de violência, ameaça ou risco à vida, a prioridade é buscar ajuda especializada e preservar a segurança.

    Reclamar faz parte da experiência humana. Reclamamos quando nos sentimos injustiçados, quando algo não acontece como esperávamos, quando estamos cansados, frustrados ou diante de situações que não conseguimos controlar. Em muitas circunstâncias, a reclamação é legítima e necessária. Ela pode denunciar uma injustiça, expressar uma necessidade, estabelecer um limite ou iniciar uma mudança.

    O problema começa quando a reclamação deixa de ser uma resposta pontual a uma dificuldade e se transforma em uma maneira habitual de interpretar a vida. Quando tudo se converte em motivo de indignação, quando os mesmos conflitos são narrados repetidamente sem que nenhuma reflexão ou atitude diferente seja construída, podemos estar diante de um padrão que merece atenção.

    Esse comportamento pode aparecer nas relações familiares, nos ambientes de trabalho, nos relacionamentos afetivos e, também, nos processos de recuperação de pessoas que enfrentam transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas, jogos de azar e outros comportamentos adictivos.

    A neurociência e a psicologia oferecem ferramentas importantes para compreender os mecanismos envolvidos nessa repetição. Não existe uma doença cientificamente estabelecida chamada “vício em reclamar”, nem evidências de que toda reclamação produza danos cerebrais. Entretanto, existem pesquisas sobre ruminação, pensamento negativo repetitivo, aprendizagem de hábitos, regulação emocional, estresse crônico e influência das emoções nas relações sociais. Esses conhecimentos ajudam a entender por que determinados padrões de pensamento podem se tornar persistentes e como podem ser modificados.

    Mais do que ensinar alguém a reclamar menos, o objetivo desta reflexão é estimular uma pergunta: o que acontece conosco quando passamos tanto tempo identificando aquilo que está errado que deixamos de perceber o que podemos compreender, modificar ou fazer de maneira diferente?

    O que a neurociência realmente diz sobre reclamar?

    O cérebro humano está continuamente aprendendo com as experiências. Ele reconhece padrões, associa acontecimentos a emoções, identifica possíveis ameaças e desenvolve respostas que podem ser utilizadas novamente em situações semelhantes.

    Essa capacidade está relacionada à neuroplasticidade, conceito que descreve as mudanças funcionais e estruturais do sistema nervoso em resposta à experiência, à aprendizagem e a outros fatores.

    Quando repetimos um comportamento, podemos aumentar a probabilidade de que ele volte a ocorrer, especialmente quando esse comportamento produz algum resultado imediato. Isso não significa que cada reclamação crie uma nova conexão neural específica ou que o cérebro possua um circuito exclusivo destinado à negatividade. A aprendizagem é muito mais complexa e envolve diferentes redes neurais, mecanismos de memória, motivação, atenção e tomada de decisão.

    Estudos sobre comportamentos compulsivos mostram que os sistemas cerebrais envolvidos na formação de hábitos, no processamento de recompensas e no controle das ações podem participar de padrões comportamentais persistentes. A revisão publicada por Robbins, Banca e Belin na revista Nature Reviews Neuroscience, em 2024, discute como circuitos relacionados aos hábitos e à capacidade de direcionar o comportamento para objetivos podem estar envolvidos em diferentes formas de compulsividade.

    Essa literatura não estudou a reclamação cotidiana como uma doença específica. Ela nos oferece, contudo, uma compreensão mais ampla de como comportamentos repetidos podem se tornar resistentes à mudança.

    Imagine uma pessoa que, todas as manhãs, começa o dia pensando que nada dará certo. No trabalho, interpreta contratempos como provas de que ninguém a respeita. Em casa, recorda os erros dos familiares e antecipa novas decepções. Mesmo diante de acontecimentos neutros, sua atenção acaba sendo direcionada para aquilo que confirma sua expectativa negativa.

    Com o tempo, essa pessoa pode desenvolver uma tendência a identificar mais rapidamente os problemas do que as alternativas disponíveis. Não necessariamente porque todos os aspectos da realidade sejam negativos, mas porque sua atenção e suas interpretações passaram a privilegiar determinados sinais.

    Esse processo é compatível com o que a psicologia estuda como vieses cognitivos e pensamento negativo repetitivo.

    Uma pesquisa publicada em 2024, com resultados divulgados na revista Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience em 2025, investigou as representações neurais associadas à preocupação e à ruminação. Os resultados apontam semelhanças entre processos cerebrais envolvidos nessas formas de pensamento repetitivo.

    É importante compreender a diferença: reclamar é um comportamento comunicativo; ruminar é permanecer mentalmente preso a pensamentos e sentimentos recorrentes, frequentemente sem avançar para a resolução do problema. Uma pessoa pode reclamar de maneira construtiva sem ruminar, assim como pode ruminar silenciosamente sem expressar qualquer queixa.

    O ponto de atenção não é simplesmente falar sobre dificuldades. É perceber quando pensar e falar repetidamente sobre elas deixa de contribuir para a compreensão e passa a manter o sofrimento ativo.

    A pergunta que importa não é apenas quantas vezes reclamamos, mas o que acontece com nossos pensamentos, emoções e atitudes depois de cada reclamação.

    Quando a reclamação se transforma em ruminação

    A ruminação pode ser compreendida como um processo de pensamento repetitivo, geralmente concentrado em problemas, perdas, erros, injustiças ou estados emocionais desagradáveis.

    Uma pessoa que rumina pode repetir perguntas como:

    “Por que isso sempre acontece comigo?”

    “Como alguém pôde fazer isso comigo?”

    “Por que ninguém reconhece o que faço?”

    “Por que minha família nunca aprende?”

    “Por que nada muda?”

    Essas perguntas não são necessariamente inadequadas. Em determinado momento, podem ajudar a compreender uma experiência. O problema aparece quando se repetem indefinidamente, sem gerar novas informações, decisões ou possibilidades de enfrentamento.

    A mente começa a girar em torno do mesmo conteúdo.

    A pessoa revive uma discussão, imagina o que deveria ter dito, constrói novas acusações e antecipa conflitos futuros. Durante esse processo, a lembrança do acontecimento pode ser acompanhada novamente por raiva, tristeza, medo ou ressentimento.

    Essa repetição pode dificultar o afastamento psicológico do problema. Em vez de analisar uma situação e depois direcionar a atenção para outras atividades, a pessoa permanece mentalmente conectada ao conflito.

    Pesquisas sobre ruminação encontram associações importantes entre o pensamento repetitivo negativo e sintomas depressivos, além de investigarem sua participação em outros quadros emocionais. Isso não significa que toda pessoa que reclama tenha depressão, nem que reclamar provoque necessariamente um transtorno mental.

    Significa que padrões persistentes de pensamento merecem atenção quando aumentam o sofrimento, interferem nas relações e prejudicam a capacidade de agir.

    Existe ainda uma armadilha: a pessoa pode confundir a repetição do problema com a tentativa de resolvê-lo.

    Pensar muitas vezes sobre um problema não garante que estejamos pensando melhor sobre ele. Às vezes, estamos apenas repetindo a mesma interpretação, reforçando a mesma emoção e chegando às mesmas conclusões.

    A autopercepção começa quando conseguimos reconhecer essa diferença.

    O cérebro e a atenção seletiva: por que começamos a enxergar mais problemas?

    A atenção humana é seletiva. Não conseguimos processar todos os estímulos, informações, acontecimentos e possibilidades disponíveis ao mesmo tempo. O cérebro seleciona informações de acordo com a relevância percebida, as expectativas, a aprendizagem anterior e o estado emocional.

    Quando alguém espera ser desrespeitado, pode ficar particularmente atento a sinais de rejeição. Quando teme ser enganado, pode interpretar comportamentos ambíguos como indícios de mentira. Quando está habituado a esperar o pior, tende a dar maior importância aos acontecimentos que confirmam suas previsões.

    Esse mecanismo pode formar um circuito psicológico:

    Uma experiência desagradável gera uma interpretação negativa. A interpretação aumenta uma emoção desagradável. A emoção influencia aquilo que a pessoa percebe. Novas experiências passam a ser interpretadas a partir da expectativa já estabelecida.

    A pessoa encontra, então, novos motivos para confirmar sua conclusão inicial.

    Isso não significa que os problemas sejam imaginários. Existem situações de injustiça, abandono, violência, exploração e negligência que precisam ser reconhecidas e enfrentadas. A questão é que, além dos acontecimentos objetivos, também precisamos observar o filtro pelo qual os interpretamos.

    Uma pessoa pode estar diante de um problema real e, ao mesmo tempo, apresentar uma interpretação excessivamente generalizada sobre ele.

    Por exemplo, depois de receber uma crítica no trabalho, alguém conclui que é incompetente, que ninguém reconhece seu esforço e que nunca conseguirá crescer profissionalmente.

    O acontecimento concreto foi uma crítica. A conclusão abrange toda a identidade, todas as relações e todo o futuro da pessoa.

    Quando isso se repete, torna-se difícil diferenciar fatos, interpretações, previsões e medos.

    A neurociência ajuda a compreender os processos de atenção, memória, aprendizagem e emoção envolvidos nesse fenômeno. A psicologia clínica, por sua vez, oferece métodos para reconhecer os pensamentos automáticos e avaliar se eles correspondem aos fatos.

    Essa combinação é especialmente útil porque a recuperação não exige que uma pessoa passe a enxergar tudo de maneira positiva. Exige que consiga enxergar de maneira mais completa.

    O estresse crônico e os efeitos sobre o organismo

    A reclamação, isoladamente, não pode ser considerada uma causa direta de hipertensão, diabetes ou queda da imunidade. Seria cientificamente incorreto afirmar que reclamar aumenta inevitavelmente o cortisol ou que o ato de reclamar provoca essas doenças.

    O que a literatura científica demonstra é que o estresse persistente pode afetar diferentes sistemas do organismo.

    Quando percebemos uma ameaça, o cérebro participa da ativação de respostas fisiológicas que ajudam a enfrentar a situação. Essas respostas envolvem o sistema nervoso autônomo e o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável, entre outras funções, pela regulação da liberação de cortisol.

    Em situações agudas, essas respostas são adaptativas. Aumentam a disponibilidade de energia e ajudam o organismo a responder a desafios.

    O problema pode surgir quando os sistemas de estresse são ativados repetidamente, quando a recuperação fisiológica é insuficiente ou quando a exposição a adversidades se torna prolongada.

    O pesquisador Bruce McEwen desenvolveu importantes contribuições para o estudo da carga alostática, conceito que descreve o desgaste acumulado associado à adaptação repetida ou desregulada às exigências do ambiente. Sua revisão sobre os efeitos neurobiológicos e sistêmicos do estresse crônico, publicada em 2017, examina as relações entre cérebro, respostas ao estresse e saúde física.

    A exposição prolongada ao estresse está associada a alterações em diferentes sistemas, incluindo os relacionados à regulação cardiovascular, metabólica, imunológica e emocional. Entre os possíveis desfechos estão maior vulnerabilidade a determinados problemas de saúde, dependendo de fatores como predisposição individual, condições sociais, sono, alimentação, atividade física e acesso a cuidados médicos.

    O cortisol, por sua vez, não é simplesmente um hormônio prejudicial. Ele exerce funções essenciais e apresenta variações ao longo do dia. Sua relação com a saúde depende da duração, da intensidade e do contexto das respostas fisiológicas, não apenas de sua presença.

    Como a reclamação repetitiva pode entrar nessa discussão?

    Se uma pessoa passa o dia revivendo conflitos, antecipando ameaças, discutindo mentalmente com outras pessoas e mantendo-se em estado constante de irritação, esse padrão pode contribuir para o sofrimento psicológico e para a manutenção de situações estressantes.

    Entretanto, não é possível afirmar que toda pessoa que reclama apresente cortisol elevado ou que essa reclamação seja a origem de seus problemas de saúde.

    Também precisamos considerar que o sentido inverso é possível: uma pessoa submetida a dor crônica, violência, sobrecarga de trabalho, dificuldades financeiras ou sofrimento psíquico pode reclamar mais justamente porque está enfrentando condições difíceis.

    Por isso, a pergunta clínica não deve ser apenas “por que essa pessoa reclama tanto?”, mas também “o que ela está vivendo, como interpreta essas experiências e quais recursos tem para enfrentá-las?”.

    Essa diferença evita culpabilizar quem sofre e permite construir intervenções mais adequadas.

    As emoções se espalham nas relações

    Os seres humanos não regulam suas emoções isoladamente. Nossas interações sociais influenciam nosso humor, nossa percepção dos acontecimentos e nossas respostas comportamentais.

    Esse fenômeno é estudado como contágio emocional.

    Uma revisão publicada por Carolina Herrando e Efthymios Constantinides, em 2021, descreve diferentes mecanismos pelos quais as emoções podem ser transmitidas nas interações humanas. Expressões faciais, tom de voz, comportamentos observados e experiências compartilhadas podem influenciar as respostas emocionais de outras pessoas.

    A influência não é automática nem inevitável. Cada pessoa reage de maneira diferente, e o contexto, a relação, a intensidade da experiência e a capacidade de regulação emocional interferem no resultado.

    Ainda assim, é possível observar esse processo na vida cotidiana.

    Em uma família, uma pessoa começa a manhã reclamando do trabalho, do trânsito, das contas e do comportamento dos filhos. Os demais integrantes passam a responder com irritação, evitam conversar ou iniciam suas próprias queixas. O clima da casa muda.

    Em outro contexto, um profissional chega frequentemente às reuniões antecipando fracassos, criticando os colegas e prevendo que nada dará certo. A equipe pode começar a demonstrar desânimo, desconfiar de novas iniciativas ou evitar propor soluções.

    A negatividade de uma pessoa não determina o comportamento de todos os demais, mas pode contribuir para a formação de um ambiente emocional menos favorável.

    Também precisamos reconhecer o contrário: compartilhar experiências difíceis pode produzir solidariedade, acolhimento, identificação e apoio. Falar sobre sofrimento não é o problema. Em muitos casos, é parte essencial do cuidado.

    A diferença está entre expressar uma dificuldade para encontrar compreensão e alternativas e transformar todas as interações em repetição de acusações, previsões catastróficas e conflitos.

    Em famílias afetadas pelos transtornos adictivos, essa dinâmica merece atenção especial.

    A convivência com alguém que apresenta uso problemático de substâncias pode envolver promessas descumpridas, medo de novas recaídas, perdas financeiras, conflitos, preocupações com a segurança e exaustão emocional. Nesse contexto, a reclamação pode ser uma expressão legítima de sofrimento.

    Ao mesmo tempo, quando o cotidiano fica inteiramente organizado em torno daquilo que a pessoa em tratamento fez ou deixou de fazer, toda a família corre o risco de perder espaço para outras dimensões da vida.

    A família deixa de ser apenas uma rede de relações e passa a funcionar como um sistema permanentemente mobilizado pelo problema.

    É nesse ponto que a compreensão da codependência pode ajudar, desde que utilizada com responsabilidade.

    Codependência: quando a vida começa a girar em torno do comportamento do outro

    O termo codependência é frequentemente utilizado para descrever padrões nos quais a preocupação com uma pessoa significativa passa a ocupar espaço excessivo na vida emocional, nos relacionamentos e nas decisões de quem convive com ela.

    Em contextos de transtornos adictivos, esses padrões podem envolver vigilância constante, tentativas de controlar o comportamento do familiar, negligência das próprias necessidades, dificuldade para estabelecer limites e sensação de responsabilidade permanente pela recuperação de outra pessoa.

    É importante esclarecer que a codependência não possui critérios diagnósticos universalmente estabelecidos nos principais sistemas de classificação de transtornos mentais. O conceito continua sendo discutido na literatura científica, com diferentes definições e limitações metodológicas. Portanto, não deve ser usado para rotular automaticamente mães, pais, cônjuges ou outros familiares de pessoas que enfrentam transtornos adictivos.

    Uma revisão brasileira publicada em Debates em Psiquiatria, em 2017, examinou a literatura disponível e apontou que o conceito ainda era pouco explorado empiricamente e precisava de maior validação científica.

    Isso não significa que o sofrimento familiar seja imaginário. Significa que precisamos distinguir a realidade das dificuldades vividas pelas famílias do grau de precisão científica de um rótulo utilizado para descrevê-las.

    Um estudo brasileiro publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, em 2016, avaliou 505 familiares de pessoas que usavam drogas e procuraram um serviço de orientação telefônica. Os pesquisadores identificaram associações entre indicadores de codependência e dificuldades no bem-estar físico e emocional, incluindo reatividade, sobrecarga e negligência das próprias necessidades.

    Por se tratar de um estudo observacional, esses resultados não demonstram que a codependência cause todos esses problemas. Eles ajudam, porém, a mostrar a importância de oferecer atenção e suporte também aos familiares.

    O sofrimento de quem convive com uma pessoa em situação de adicção não deve ser ignorado, nem reduzido a uma suposta falta de equilíbrio emocional.

    Considere uma mãe cujo filho apresenta uso problemático de substâncias. Durante o dia, ela verifica mensagens, procura sinais de consumo, tenta descobrir onde ele está, conversa com conhecidos, antecipa possíveis problemas e imagina o que fará se ele voltar a usar.

    Quando encontra alguém com quem conversar, fala repetidamente sobre os mesmos episódios. A cada novo relato, recorda as decepções, a raiva e o medo. Termina a conversa esgotada e volta à rotina de vigilância.

    É possível que suas preocupações sejam justificadas. Também é possível que ela esteja tentando lidar sozinha com uma situação que excede os recursos emocionais de uma única pessoa.

    O problema não está em se preocupar com o filho. Está no risco de toda a sua existência passar a ser organizada pela tentativa de controlar algo que ela não consegue controlar integralmente.

    Ela pode amar, apoiar, buscar orientação, estabelecer limites e participar de estratégias de tratamento. Mas não pode garantir a decisão do outro, eliminar todos os riscos ou assumir sozinha a responsabilidade pela recuperação dele.

    Quando essa distinção não está clara, a reclamação pode se tornar uma forma de expressar impotência sem conseguir transformá-la em uma ação que proteja a família.

    Frases como “ele nunca vai mudar”, “ninguém me ajuda”, “eu não aguento mais” e “preciso vigiar para que nada aconteça” podem representar sofrimentos reais. A questão é investigar o que essas frases revelam sobre necessidades, limites, recursos e possibilidades de intervenção.

    Uma família precisa de espaço para falar sobre a dor. Também precisa de oportunidades para reconstruir sua própria vida.

    A recuperação dos familiares merece objetivos próprios, que não dependam exclusivamente da recuperação da pessoa que apresenta o transtorno adictivo.

    O outro lado da questão: o comportamento de quem está em recuperação

    Até aqui, consideramos principalmente as famílias. Mas a reclamação repetitiva também pode aparecer na pessoa que enfrenta um transtorno adictivo.

    É necessário cuidado para não transformar uma característica comportamental em explicação simplista para a adicção. Pessoas não desenvolvem transtornos por uso de substâncias simplesmente porque reclamam demais, pensam negativamente ou possuem dificuldades de relacionamento.

    Os transtornos adictivos são condições complexas, influenciadas por fatores biológicos, psicológicos e sociais. Envolvem mecanismos de aprendizagem, reforço, motivação, regulação emocional e adaptação cerebral, além de aspectos relacionados à história individual e ao ambiente.

    A revisão de Nora Volkow e Carlos Blanco, publicada na revista World Psychiatry em 2023, apresenta uma atualização abrangente sobre os transtornos relacionados ao uso de substâncias, contemplando neurobiologia, aspectos clínicos, tratamento e prevenção.

    A neurociência da adicção descreve alterações em circuitos envolvidos na recompensa, na resposta ao estresse, na motivação e no controle das ações. Essas alterações podem contribuir para o desejo intenso de consumir, para a dificuldade de interromper o comportamento e para a persistência do uso apesar das consequências negativas.

    Uma das estruturas conceituais mais utilizadas nesse campo é o ciclo da adicção descrito por George Koob e Nora Volkow. Ele compreende três grandes momentos interligados:

    • Intoxicação e consumo, associados ao reforço e à aprendizagem relacionada à substância.
    • Abstinência e afetos negativos, que podem envolver irritabilidade, ansiedade, desânimo e aumento da sensibilidade ao estresse.
    • Preocupação e antecipação, nas quais o desejo de consumir e os estímulos associados à substância podem assumir grande importância.

    Esse modelo não descreve de maneira idêntica a experiência de todas as pessoas, mas ajuda a compreender como o consumo pode deixar de estar relacionado apenas à busca de prazer e passar a funcionar também como tentativa de aliviar estados emocionais desagradáveis.

    Nesse contexto, é possível que algumas pessoas expressem sua insatisfação de maneira persistente, culpem familiares ou instituições, sintam que ninguém as compreende ou encontrem dificuldade para reconhecer sua participação em determinados conflitos.

    Nada disso, isoladamente, permite concluir que a pessoa esteja negando a adicção, manipulando os outros ou resistindo deliberadamente ao tratamento. É necessário avaliar a história, a situação clínica, os efeitos da abstinência, os transtornos associados, o ambiente e a função daquele comportamento.

    Ainda assim, existe uma pergunta terapêutica importante: o que a pessoa faz com as emoções que sente?

    Quando a frustração aparece, ela consegue reconhecê-la e conversar sobre ela? Procura ajuda? Tolera a possibilidade de que algo não aconteça como esperava? Consegue admitir erros sem transformar isso em uma condenação de si mesma? Ou precisa encontrar imediatamente alguém a quem atribuir toda a responsabilidade?

    A recuperação exige a construção de novas formas de responder às situações difíceis. Não se trata de eliminar a insatisfação, mas de desenvolver recursos para que a frustração não determine automaticamente a próxima atitude.

    A reclamação como mecanismo de proteção psicológica

    Em alguns casos, reclamar pode funcionar como uma defesa contra emoções que a pessoa considera difíceis de suportar.

    Reconhecer uma perda pode ser doloroso. Admitir um erro pode provocar vergonha. Perceber que não temos controle sobre outra pessoa pode gerar medo. Aceitar que uma escolha produziu consequências pode despertar culpa ou arrependimento.

    A reclamação pode deslocar a atenção para aquilo que os outros fizeram, para a injustiça da situação ou para a ausência de reconhecimento.

    Novamente, isso não significa que a reclamação seja sempre uma tentativa consciente de fugir da responsabilidade. Na maioria das situações, o processo é mais complexo e pode ocorrer sem que a pessoa perceba sua função.

    Uma pessoa em recuperação pode dizer que o tratamento é ruim, que a família não confia nela, que ninguém reconhece seu esforço ou que a vida seria melhor se pudesse voltar ao ambiente anterior.

    Algumas dessas queixas podem apontar problemas reais que precisam ser avaliados. O tratamento pode precisar de ajustes. A família pode estar agindo de maneira inadequada. A pessoa pode estar vivenciando sofrimento físico ou psicológico que merece atenção clínica.

    Contudo, também é possível que parte dessas queixas expresse dificuldade para tolerar limites, enfrentar frustrações ou permanecer em um processo de mudança que exige esforço.

    É por isso que a intervenção profissional precisa investigar o conteúdo e a função da reclamação, em vez de simplesmente desqualificá-la.

    Uma pergunta útil seria: “O que essa reclamação está tentando me dizer e o que posso fazer com essa informação?”.

    Se a queixa identifica um problema concreto, precisamos encontrar meios de enfrentá-lo. Se revela uma necessidade legítima, podemos comunicá-la de maneira clara. Se expressa uma emoção difícil, podemos aprender a regulá-la. Se tenta transferir ao outro uma responsabilidade que nos pertence, precisamos examinar essa dinâmica.

    É nessa passagem da reação automática para a compreensão que a autopercepção começa a se transformar em habilidade.

    O que a Terapia Cognitivo-Comportamental ensina sobre esse processo

    A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) parte da compreensão de que pensamentos, emoções, respostas fisiológicas e comportamentos interagem continuamente.

    Um acontecimento não produz necessariamente a mesma reação em todas as pessoas. A forma como o interpretamos influencia nossa resposta emocional e o que fazemos a seguir.

    Isso não significa que o pensamento seja responsável por tudo o que acontece conosco. Condições materiais, experiências traumáticas, fatores biológicos e relações sociais também exercem influência. A TCC busca compreender como esses elementos se combinam na experiência individual.

    Imagine que um familiar não responda a uma mensagem.

    Uma pessoa pode pensar: “Ele está ocupado. Vou tentar falar com ele mais tarde”. Pode sentir alguma preocupação, mas consegue continuar suas atividades.

    Outra pode pensar: “Ele não me respeita. Faz isso porque sabe que pode me manipular”. A interpretação pode desencadear raiva, ansiedade e uma série de mensagens acusatórias.

    O acontecimento inicial foi semelhante. As interpretações e respostas, entretanto, foram diferentes.

    Na prática clínica, a TCC pode ajudar a pessoa a identificar pensamentos automáticos, reconhecer distorções cognitivas, avaliar evidências e desenvolver respostas mais funcionais.

    Entre os padrões que merecem atenção estão:

    Generalização excessiva: transformar um acontecimento específico em uma regra absoluta. “Ele descumpriu um acordo, portanto nunca cumprirá nada.”

    Pensamento tudo ou nada: interpretar as situações em extremos. “Se não consigo fazer isso perfeitamente, sou um fracasso.”

    Catastrofização: antecipar o pior cenário como se fosse inevitável. “Se ele saiu de casa, certamente vai voltar a usar.”

    Leitura mental: presumir que sabemos o que outra pessoa pensa sem evidências suficientes. “Ela não respondeu porque quer me humilhar.”

    Personalização: atribuir a si mesmo uma responsabilidade excessiva por acontecimentos que também dependem de outras pessoas e circunstâncias.

    Regras rígidas e exigências absolutas: transformar preferências ou expectativas em condições obrigatórias. “Ele deveria reconhecer tudo o que fiz por ele.”

    Esses exemplos não demonstram, por si só, que uma pessoa tenha um transtorno psicológico. São padrões de pensamento que podem ocorrer em diferentes contextos e cuja relevância depende da frequência, intensidade e repercussão.

    Na TCC, uma ferramenta importante é a análise funcional do comportamento.

    Em vez de perguntar apenas por que alguém reclama, procura-se identificar o que acontece antes, durante e depois da reclamação.

    Qual foi o acontecimento desencadeador? O que a pessoa pensou? Que emoções sentiu? Como seu corpo reagiu? O que fez? Qual foi a consequência imediata? E quais foram os efeitos posteriores?

    Talvez a reclamação produza alívio momentâneo porque a pessoa consegue expressar sua irritação. Talvez gere apoio e acolhimento. Em outras situações, pode aumentar o conflito, afastar pessoas ou reforçar a sensação de impotência.

    Compreender essa sequência é essencial para descobrir quais comportamentos precisam ser mantidos, quais precisam ser modificados e quais habilidades devem ser desenvolvidas.

    A TCC não exige que o paciente pense positivamente sobre tudo. Ela o convida a pensar de maneira mais precisa, reconhecer os próprios padrões e experimentar respostas alternativas.

    Uma revisão sistemática publicada em 2023 por Boness e colaboradores avaliou a base empírica da TCC para transtornos por uso de substâncias. Os resultados indicaram efeitos pequenos a moderados sobre o consumo quando comparada a tratamentos inativos, com resultados mais evidentes nos primeiros meses de acompanhamento. Isso reforça a importância de considerar a TCC como uma intervenção estruturada, sem prometer que ela seja suficiente ou igualmente eficaz para todas as pessoas.

    No contexto da recuperação, isso se traduz em uma tarefa concreta: identificar os pensamentos e as emoções que aumentam o risco, desenvolver habilidades de enfrentamento e aprender a responder aos acontecimentos sem depender automaticamente dos antigos comportamentos.

    A TREC/TRE e a diferença entre o acontecimento e a interpretação

    A Terapia Racional-Emotiva Comportamental (TREC), desenvolvida por Albert Ellis e conhecida internacionalmente como REBT, oferece outra contribuição relevante para compreender a reclamação persistente.

    O modelo ABC da TREC diferencia três elementos:

    A — Acontecimento ativador: aquilo que ocorreu.

    B — Crenças: as interpretações, exigências e avaliações que a pessoa faz sobre o acontecimento.

    C — Consequências: as respostas emocionais e comportamentais relacionadas à interação entre o acontecimento e as crenças.

    Em muitas situações, não conseguimos escolher o que acontece conosco. Podemos, entretanto, desenvolver maneiras mais flexíveis de interpretar o acontecimento e decidir como responder a ele.

    Considere o exemplo de alguém que se sente desrespeitado porque um colega não cumpriu um compromisso.

    O acontecimento é o descumprimento do compromisso.

    A crença pode assumir a forma de uma preferência legítima: “Eu gostaria que as pessoas cumprissem o que combinam. Isso é importante para mim”.

    Mas também pode assumir a forma de uma exigência rígida: “Essa pessoa não poderia fazer isso comigo. É insuportável que alguém me trate dessa maneira”.

    As duas interpretações reconhecem a importância do compromisso. Entretanto, a segunda inclui uma exigência absoluta e uma avaliação extrema da situação.

    Essa rigidez pode intensificar a raiva e dificultar a construção de uma resposta proporcional ao problema.

    A TREC não ensina a aceitar passivamente o desrespeito. Ela propõe diferenciar a preferência legítima da exigência inflexível, para que a pessoa possa agir de maneira firme sem se tornar prisioneira da própria reação.

    O modelo pode ser ampliado pelo questionamento das crenças e pela construção de uma nova filosofia de vida: identificar o pensamento, examiná-lo criticamente e desenvolver uma resposta mais racional, flexível e útil.

    Na prática, a sequência pode ser resumida em:

    • Acontecimento: “Meu familiar voltou a descumprir um acordo”.
    • Crença inicial: “Isso não poderia acontecer. Se acontecer novamente, não conseguirei suportar”.
    • Consequência: desespero, raiva e tentativa de controlar todas as decisões do familiar.
    • Questionamento: “É verdade que eu não conseguirei suportar? O que posso controlar? Como posso estabelecer limites sem assumir a responsabilidade pelas escolhas dele?”.
    • Nova resposta: “Essa situação é dolorosa e tem consequências. Posso procurar apoio, proteger meus limites e tomar decisões de acordo com minhas possibilidades”.

    A diferença não está em negar a gravidade do acontecimento. Está em não acrescentar sofrimento desnecessário por meio de exigências impossíveis, previsões absolutas e avaliações extremas.

    A TREC também trabalha com a aceitação incondicional do ser humano, distinguindo o valor global de uma pessoa de suas ações específicas.

    Uma pessoa pode ter cometido erros graves e continuar sendo um ser humano digno de cuidado e de oportunidades de mudança. Da mesma forma, aceitar uma pessoa não exige aprovar seus comportamentos nem tolerar situações abusivas.

    Para quem enfrenta um transtorno adictivo, essa distinção pode ser decisiva. Reconhecer as consequências de uma escolha é diferente de concluir que se é irremediavelmente incapaz de mudar.

    Para as famílias, a lógica também é útil: amar alguém não significa exigir que ele nunca erre, nem aceitar que todo erro produza a destruição da própria vida. É possível reconhecer a realidade, estabelecer limites e preservar a dignidade de todos os envolvidos.

    A TREC e a TCC compartilham elementos importantes, mas possuem tradições teóricas e técnicas próprias. Elas não precisam ser apresentadas como métodos idênticos, e a escolha de intervenções deve considerar a formação do profissional, as necessidades clínicas e as evidências pertinentes.

    Entrevista Motivacional: sair da acusação e aproximar-se da mudança

    A Entrevista Motivacional é uma abordagem colaborativa que busca fortalecer a motivação e o compromisso com a mudança, explorando as razões, os valores e as ambivalências da própria pessoa.

    Seu propósito não é convencer alguém à força, vencer uma discussão ou demonstrar que o profissional tem razão. O trabalho consiste em ajudar a pessoa a examinar a distância entre sua situação atual e aquilo que considera importante para a própria vida.

    Essa abordagem é particularmente relevante nos transtornos adictivos porque a pessoa pode desejar mudar e, ao mesmo tempo, sentir medo das consequências da mudança, apego ao comportamento anterior ou dúvidas sobre sua capacidade de manter a recuperação.

    Uma pessoa pode dizer que quer recuperar a confiança da família, mas continuar reagindo de maneira agressiva quando é confrontada. Pode desejar recuperar o trabalho, mas resistir às exigências da rotina. Pode reconhecer as perdas provocadas pelo consumo e, simultaneamente, acreditar que a substância é a única maneira de aliviar sua ansiedade.

    Essas contradições não significam necessariamente ausência de vontade. Elas revelam ambivalência, um fenômeno que precisa ser explorado com cuidado.

    A reclamação repetitiva pode aparecer nesse contexto como uma maneira de expressar o desconforto com a mudança sem precisar examinar o papel que a própria pessoa pode desempenhar na situação.

    Imagine alguém que afirma: “Não consigo me recuperar porque minha família não confia em mim”.

    Um profissional que responde imediatamente “Sua família não confia em você porque você errou” pode iniciar uma disputa, mesmo quando existe fundamento na afirmação.

    A Entrevista Motivacional pode seguir outro caminho:

    “O que você gostaria que fosse diferente na relação com sua família?”

    “Que comportamentos poderiam ajudar a reconstruir a confiança?”

    “O que depende de você, mesmo que sua família ainda não consiga confiar?”

    “Que mudanças você já conseguiu fazer e o que ainda parece difícil?”

    Essas perguntas não absolvem a família nem culpabilizam o paciente. Elas devolvem a atenção às escolhas possíveis e às discrepâncias entre valores e comportamentos.

    O mesmo princípio vale para os familiares.

    Em vez de repetir diariamente que o outro precisa mudar, um familiar pode explorar aquilo que deseja proteger, os limites que precisa estabelecer e as ações que está disposto a realizar.

    A reclamação deixa de ser apenas uma descrição do que o outro faz de errado e passa a abrir espaço para decisões.

    A Entrevista Motivacional também não se limita a fazer perguntas. Envolve escuta reflexiva, respeito à autonomia, reconhecimento das capacidades da pessoa, exploração de ambivalências e planejamento colaborativo da mudança.

    A revisão Cochrane publicada em 2023 sobre Entrevista Motivacional para redução do uso de substâncias avaliou resultados relacionados ao consumo, à prontidão para mudar e à permanência no tratamento. Os efeitos variaram conforme as populações e as intervenções comparadas, de modo que não é adequado afirmar que a abordagem funcione da mesma maneira para todos.

    Sua contribuição para o tema deste artigo está na mudança de perspectiva: em vez de discutir indefinidamente quem está errado, procura-se compreender o que a pessoa deseja construir e qual próximo passo está disposta a realizar.

    A filosofia dos Doze Passos: inventário pessoal, honestidade e responsabilidade

    A filosofia dos Doze Passos, desenvolvida originalmente nos grupos de Alcoólicos Anônimos e adaptada a diferentes contextos de recuperação, oferece uma contribuição importante para refletir sobre responsabilidade pessoal, relações humanas, reparação de danos e transformação de atitudes.

    Esses princípios não devem ser confundidos com uma única modalidade de psicoterapia. Os grupos de ajuda mútua possuem sua própria história, linguagem, estrutura e prática comunitária. A participação pode complementar o cuidado profissional, mas não substitui automaticamente avaliação clínica, psicoterapia, acompanhamento médico ou outras intervenções indicadas.

    A evidência sobre os programas de Doze Passos também precisa ser apresentada com precisão. A revisão Cochrane de Kelly, Humphreys e Ferri, publicada em 2020, encontrou evidência de alta qualidade, em determinados desfechos, de que intervenções estruturadas de Alcoólicos Anônimos e Facilitação dos Doze Passos podem produzir taxas de abstinência superiores às de outros tratamentos estabelecidos, incluindo a TCC, para pessoas com transtorno por uso de álcool. Esses resultados não autorizam generalizar a mesma conclusão para todas as adicções, todos os grupos ou todas as circunstâncias clínicas.

    No campo da autopercepção, um dos elementos centrais dessa filosofia é a prática do inventário pessoal.

    O inventário não tem como finalidade transformar a pessoa em acusadora de si mesma. Ele busca favorecer honestidade, reconhecimento de padrões, responsabilidade e disposição para corrigir o que pode ser corrigido.

    Uma pessoa pode dedicar muito tempo a enumerar as falhas de seus familiares, as injustiças que sofreu, os erros das instituições e as decepções do passado. Algumas dessas experiências podem ser dolorosas e merecer atenção. No entanto, se toda reflexão termina na identificação de culpados externos, a pessoa pode deixar de investigar seus próprios comportamentos.

    O inventário pessoal propõe outras perguntas:

    Como tenho reagido às minhas frustrações?

    Em quais situações repito comportamentos que prejudicam meus relacionamentos?

    Onde tenho sido desonesto comigo mesmo?

    Que atitudes minhas contribuíram para determinadas consequências?

    Que danos podem ser reparados?

    O que preciso aceitar porque não está sob meu controle?

    O que posso fazer de maneira diferente a partir de hoje?

    Essas perguntas não significam que todos os problemas sejam causados pela própria pessoa. Também não autorizam responsabilizar vítimas por violências sofridas. Responsabilidade pessoal não é sinônimo de culpa universal.

    Uma pessoa pode ter sido vítima de negligência ou abuso e ainda precisar de apoio para decidir como proteger sua vida no presente. Pode reconhecer que foi prejudicada e, simultaneamente, trabalhar para não reproduzir comportamentos destrutivos.

    A maturidade está em reconhecer as duas dimensões sem apagar nenhuma delas.

    O Décimo Passo, na tradição dos Doze Passos, enfatiza a continuidade do inventário pessoal e o reconhecimento dos erros à medida que aparecem. Essa prática pode inspirar uma reflexão cotidiana sobre as próprias atitudes, sem necessidade de transformar toda dificuldade em julgamento moral.

    Uma pergunta simples sintetiza essa proposta:

    Estou utilizando minha energia apenas para demonstrar o que os outros fizeram de errado ou também estou disposto a examinar o que preciso mudar em mim?

    Nos grupos de recuperação, essa reflexão ganha uma dimensão comunitária. A pessoa não precisa enfrentar sozinha suas dificuldades, nem depende exclusivamente de sua força de vontade. Pode compartilhar experiências, ouvir outros percursos, receber apoio e reconhecer que a mudança é um processo.

    Para os familiares, princípios semelhantes podem ajudar a distinguir o cuidado saudável da tentativa impossível de controlar a vida de outra pessoa. O amor pode continuar presente, mas precisa encontrar espaço para limites, autocuidado e honestidade.

    Prevenção à Recaída: reconhecer o que acontece antes de perder o controle

    A Prevenção à Recaída, especialmente em sua tradição cognitivo-comportamental, ensina que o retorno ao uso de uma substância não precisa ser compreendido como um acontecimento totalmente repentino.

    Em muitos casos, existem situações, emoções, pensamentos e decisões anteriores que aumentam a vulnerabilidade da pessoa. Reconhecer esses elementos permite planejar respostas e intervir precocemente.

    O modelo de Marlatt e Gordon, sistematizado por Larimer, Palmer e Marlatt em uma revisão publicada em Alcohol Research & Health, em 1999, destaca situações de alto risco, estratégias de enfrentamento, expectativas relacionadas ao consumo, fissura, estresse e fatores de estilo de vida.

    Estados emocionais negativos, como raiva, ansiedade, tristeza, frustração e tédio, podem atuar como situações de risco. Conflitos interpessoais também podem contribuir para o risco de retorno ao consumo. O peso de cada fator depende da história e das circunstâncias de cada pessoa.

    É nesse ponto que a reclamação recorrente pode se tornar um sinal útil para a autopercepção.

    Não porque a reclamação seja, por si só, uma causa comprovada de recaída, mas porque pode sinalizar um estado emocional que merece investigação.

    Imagine alguém em recuperação que começa a repetir que ninguém o compreende, que sua vida está insuportável, que o tratamento não funciona e que sua família só sabe cobrar.

    Essas frases não provam que haverá uma recaída. Podem, entretanto, indicar frustração crescente, dificuldades no relacionamento, desânimo, expectativas frustradas ou outras questões que precisam ser avaliadas.

    O profissional deve investigar o que está por trás dessas manifestações.

    A pessoa está enfrentando sintomas de abstinência? Está dormindo mal? Sente ansiedade intensa? Está passando por conflitos familiares? Está exposta a estímulos associados ao consumo? Está interrompendo o tratamento? Está com fissura? Perdeu atividades significativas ou a rede de apoio?

    A reclamação pode ser uma porta de entrada para compreender essas questões, e não algo a ser simplesmente silenciado.

    A partir da investigação, é possível elaborar respostas de enfrentamento.

    Se existe um conflito, pode ser necessário desenvolver habilidades de comunicação e resolução de problemas. Se há fissura, a pessoa pode precisar utilizar o plano individual de prevenção à recaída. Se o ambiente apresenta riscos, pode ser necessário afastar-se temporariamente da situação. Se existem sintomas clínicos importantes, a equipe deve avaliar a necessidade de intervenção.

    Uma recaída, quando ocorre, também não deve ser automaticamente interpretada como fracasso moral. Ela exige avaliação cuidadosa, retomada do cuidado e identificação das circunstâncias que contribuíram para o episódio.

    A aprendizagem mais importante consiste em reconhecer que emoções intensas não precisam determinar todas as ações seguintes.

    Sentir raiva não obriga alguém a agredir. Sentir frustração não obriga alguém a abandonar o tratamento. Sentir vontade de consumir não significa que a pessoa precise agir sobre essa vontade.

    A emoção é uma experiência. O comportamento é uma resposta que pode ser influenciada por habilidades, suporte, contexto e estratégias de enfrentamento.

    A recuperação consiste, em parte, em ampliar o espaço entre o que sentimos e aquilo que fazemos com o que sentimos.

    A família precisa aprender a cuidar sem assumir o controle de tudo

    A orientação dos familiares é um componente importante do cuidado em transtornos adictivos.

    Uma revisão sistemática e metanálise publicada por Rushton e colaboradores em 2023 avaliou intervenções psicossociais destinadas a familiares afetados pelo uso de substâncias de outra pessoa. Os estudos encontraram resultados favoráveis em alguns indicadores, incluindo redução de sintomas depressivos e sofrimento psicológico, melhora de estratégias de enfrentamento e, em determinadas intervenções, melhora do funcionamento familiar. Os pesquisadores também destacaram limitações metodológicas e a necessidade de estudos mais robustos.

    Isso reforça uma ideia essencial: a família não deve ser tratada apenas como instrumento para convencer o paciente a mudar. Seus integrantes também têm necessidades próprias e merecem atenção.

    Como isso se relaciona com a reclamação?

    Em primeiro lugar, é necessário permitir que os familiares expressem o sofrimento. Não faz sentido exigir serenidade permanente de pessoas expostas durante anos a conflitos, medo e incerteza.

    Em segundo lugar, precisamos distinguir expressão emocional de ruminação. Falar sobre uma situação, receber acolhimento e organizar os pensamentos pode ajudar. Repetir o problema sem espaço para identificar necessidades, limites e ações possíveis pode manter o sofrimento sem produzir novas soluções.

    Em terceiro lugar, é preciso reconhecer o limite da responsabilidade individual.

    Um familiar pode estimular a procura por tratamento, participar de orientações, estabelecer acordos e deixar claras as consequências de determinados comportamentos. Não pode garantir que o outro pare de consumir, evitar todos os riscos ou controlar cada decisão.

    Quando tenta assumir esse controle integral, pode acabar negligenciando o próprio sono, trabalho, saúde, amizades e projetos pessoais.

    A orientação adequada deve favorecer uma mudança gradual da vigilância constante para um cuidado mais consciente, com limites e rede de apoio.

    Isso não significa abandonar a pessoa em recuperação. Significa oferecer apoio sem transformar o amor em fiscalização permanente.

    Também não significa aceitar agressões, violência doméstica, ameaças ou riscos graves. Em situações de violência, a prioridade é a segurança das pessoas afetadas e a procura por serviços especializados. Nenhuma abordagem de autopercepção deve ser utilizada para convencer alguém a permanecer em uma situação perigosa.

    Transformando reclamações em comunicação construtiva

    Uma maneira prática de trabalhar esse processo é transformar acusações globais em descrições específicas, necessidades claras e pedidos possíveis.

    Em vez de afirmar “Você nunca faz nada certo”, é mais útil descrever o comportamento concreto, explicar seu impacto e indicar o que precisa acontecer.

    Em vez de “Ninguém me ajuda”, é possível identificar quem pode oferecer apoio e fazer um pedido específico.

    Em vez de “Ele vai destruir nossa família novamente”, pode-se reconhecer o medo, avaliar os riscos presentes e estabelecer medidas concretas de proteção.

    Essa mudança não garante que o outro atenderá ao pedido. Sua finalidade é permitir uma comunicação mais clara e decisões mais responsáveis.

    O familiar também precisa aprender a reconhecer quando já fez o que estava ao seu alcance e necessita de apoio externo. Repetir a mesma reclamação não substitui acompanhamento psicológico, orientação especializada, grupos de apoio ou decisões práticas.

    A família precisa voltar a ter uma vida que não seja inteiramente subordinada à crise.

    O que muda quando deixamos de procurar apenas culpados?

    Reconhecer a própria participação em uma situação não significa assumir toda a responsabilidade por ela.

    Essa distinção é essencial para evitar dois extremos.

    No primeiro, a pessoa atribui tudo aos outros e não reconhece qualquer possibilidade de mudança pessoal.

    No segundo, assume a culpa por tudo, inclusive pelas decisões e comportamentos que pertencem a outras pessoas.

    Ambos podem comprometer a autopercepção.

    Uma abordagem mais equilibrada procura identificar o que aconteceu, quais fatores contribuíram para o problema, quais aspectos estão fora do controle individual e quais ações estão disponíveis.

    Considere uma pessoa em recuperação que afirma: “Minha família não confia em mim”.

    Talvez a família esteja sendo excessivamente crítica. Talvez existam razões concretas para a perda de confiança. Talvez os dois lados estejam presos a uma dinâmica de acusações.

    A investigação não precisa começar pela escolha de um culpado.

    Pode começar por perguntas mais produtivas:

    O que aconteceu concretamente?

    Que expectativas foram estabelecidas?

    Quais compromissos foram cumpridos ou descumpridos?

    Como cada pessoa está reagindo?

    O que seria necessário para que a confiança começasse a ser reconstruída?

    Quais mudanças podem ser demonstradas por atitudes consistentes?

    Essas perguntas não eliminam o desconforto, mas ajudam a transformar um conflito genérico em problemas específicos.

    Em muitos casos, não conseguiremos modificar imediatamente o comportamento alheio. Podemos, contudo, identificar limites, procurar ajuda e tomar decisões que reduzam os danos.

    A autopercepção não oferece controle absoluto sobre a vida. Oferece a possibilidade de reconhecer melhor onde nossa ação pode fazer diferença.

    Um exercício de autopercepção: observe seu padrão durante sete dias

    A mudança de um comportamento começa pela capacidade de reconhecê-lo. O exercício a seguir pode ser utilizado individualmente, em grupos educativos ou como ponto de partida para uma discussão terapêutica. Não substitui uma avaliação clínica.

    Durante sete dias, observe situações em que você reclama, critica, acusa ou repete mentalmente um problema.

    Não tente mudar tudo imediatamente. Primeiro, procure compreender o que acontece.

    Observe o acontecimento. O que ocorreu de maneira objetiva? Descreva os fatos sem acrescentar interpretações.

    Identifique o pensamento. O que você disse a si mesmo sobre a situação? Qual conclusão tirou? O que esperava que acontecesse?

    Reconheça a emoção. Sentiu raiva, medo, tristeza, vergonha, impotência, frustração ou outra emoção? Qual foi a intensidade?

    Perceba o comportamento. O que fez depois? Reclamou com alguém, iniciou uma discussão, isolou-se, tentou controlar a situação ou procurou resolver o problema?

    Examine a consequência imediata. A reclamação trouxe alívio, acolhimento, compreensão ou uma oportunidade de agir? Ou aumentou o conflito e prolongou a irritação?

    Avalie o efeito posterior. Algumas horas depois, você estava melhor preparado para enfrentar a situação? O problema avançou em direção a uma solução? Ou continuava preso à mesma sequência de pensamentos e acusações?

    Identifique sua margem de ação. O que dependia de você? O que dependia de outras pessoas? O que exigia ajuda profissional, negociação ou estabelecimento de limites?

    Escolha uma resposta alternativa. Na próxima situação semelhante, qual atitude concreta poderá experimentar?

    O objetivo não é chegar à conclusão de que toda reclamação é inadequada. É aprender a reconhecer sua função.

    Talvez você descubra que precisa comunicar uma necessidade que vem sendo ignorada. Talvez perceba que está exigindo de outras pessoas algo que elas não podem oferecer. Talvez reconheça um hábito de antecipar o pior ou uma dificuldade para tolerar a incerteza.

    Também pode descobrir que está vivendo sob uma sobrecarga real e precisa reorganizar sua rotina, procurar apoio ou modificar as condições em que vive.

    Em qualquer desses casos, a observação se transforma em informação útil.

    Para quem está em recuperação, o exercício pode incluir uma pergunta adicional: essa situação aumentou meu desejo de consumir, minha vontade de abandonar o tratamento ou minha sensação de que não consigo suportar o desconforto? Caso a resposta seja positiva, é importante comunicar isso à equipe terapêutica e utilizar o plano de prevenção à recaída.

    Para familiares, pode ser útil perguntar: quanto da minha rotina está sendo consumido pela tentativa de controlar outra pessoa? O que estou deixando de cuidar em minha própria vida? Que apoio preciso procurar para enfrentar essa situação?

    Essas perguntas não devem ser utilizadas para produzir culpa. Sua finalidade é ampliar a percepção e abrir caminhos para decisões mais conscientes.

    Como profissionais podem utilizar essa reflexão no trabalho terapêutico

    Para terapeutas e outros profissionais que atuam na área da dependência química, a reclamação persistente pode ser considerada uma manifestação a ser investigada dentro da história e do contexto do paciente, e não uma característica isolada que explica seu funcionamento.

    É importante evitar interpretações precipitadas, como afirmar que o paciente reclama porque deseja manipular a equipe, que o familiar é necessariamente codependente ou que a resistência à mudança representa falta de caráter.

    A análise precisa considerar aspectos clínicos, relacionais, emocionais e ambientais.

    Uma queixa recorrente pode indicar uma necessidade legítima não atendida, um conflito mal resolvido, expectativas rígidas, dificuldade de regulação emocional, sintomas de depressão ou ansiedade, sofrimento relacionado à abstinência ou outros fatores que exigem atenção.

    A intervenção pode começar pela escuta e pela descrição funcional do comportamento.

    Em que situações a reclamação aparece?

    Com quais pessoas é mais frequente?

    Que emoções costumam precedê-la?

    O que acontece depois?

    Ela favorece a comunicação e a resolução do problema ou contribui para sua manutenção?

    Quais respostas alternativas o paciente consegue experimentar?

    A partir dessas observações, diferentes abordagens podem contribuir. A TCC pode ajudar na identificação de pensamentos automáticos, no questionamento de interpretações e no desenvolvimento de habilidades de enfrentamento. A TREC pode auxiliar no reconhecimento de exigências rígidas e crenças absolutistas. A Entrevista Motivacional pode explorar ambivalências e fortalecer razões próprias para mudar. A Prevenção à Recaída pode relacionar estados emocionais e situações de risco ao plano de recuperação.

    A filosofia dos Doze Passos pode oferecer, para aqueles que se identificam com essa proposta, uma estrutura de inventário pessoal, honestidade e responsabilidade. Seu uso deve respeitar a autonomia, as crenças e as necessidades de cada pessoa.

    Essas abordagens não são intercambiáveis nem dispensam formação específica. A escolha e a combinação de intervenções devem considerar a evidência disponível, a avaliação clínica e os objetivos terapêuticos.

    O papel do profissional não é impedir que o paciente reclame. É criar condições para que ele compreenda o que sua queixa expressa, o que pode aprender com a situação e quais respostas estão disponíveis.

    O conhecimento técnico ganha valor quando ajuda a pessoa a entender os porquês de seu comportamento e a desenvolver recursos para agir de maneira diferente.

    Em vez de se limitar à cobrança de regras, o processo terapêutico pode ampliar a compreensão sobre consequências, escolhas, limites e possibilidades de mudança.

    A autopercepção deixa de ser um discurso abstrato e passa a fazer parte das decisões cotidianas.

    Uma observação importante: autopercepção não é pensamento positivo obrigatório

    Existe o risco de transformar a mensagem sobre reclamação em uma nova forma de cobrança: a ideia de que as pessoas precisam estar sempre bem, agradecer por tudo e evitar expressar emoções desagradáveis.

    Essa não é uma conclusão cientificamente adequada.

    A tristeza tem funções humanas. A raiva pode indicar que um limite foi ultrapassado. O medo pode sinalizar perigo. A insatisfação pode revelar necessidades negligenciadas. A indignação pode mobilizar mudanças necessárias.

    Uma pessoa que vivencia violência, discriminação, exploração ou sofrimento intenso precisa ser ouvida, protegida e apoiada. Não deve ser orientada simplesmente a modificar seus pensamentos para se adaptar a uma situação prejudicial.

    A autopercepção exige reconhecer a realidade, incluindo aquilo que precisa ser denunciado, interrompido ou transformado.

    Também não devemos confundir responsabilidade com autoculpabilização. Nem todas as dificuldades são consequência de escolhas pessoais. Fatores sociais, econômicos, biológicos e familiares podem limitar as alternativas disponíveis e precisam ser considerados.

    O propósito deste artigo é diferenciar a expressão legítima de sofrimento da repetição que deixa de produzir compreensão ou ação.

    Não se trata de proibir a reclamação, mas de perguntar o que ela está produzindo.

    Ela está ajudando a reconhecer um problema? Está permitindo pedir ajuda? Está contribuindo para estabelecer limites? Está favorecendo a mudança? Ou está mantendo a pessoa em uma sequência de acusações, antecipações negativas e conflitos que a afastam das possibilidades de cuidado?

    Essa diferença só pode ser compreendida quando examinamos o contexto.

    A recuperação começa quando desenvolvemos novas respostas

    A neurociência mostra que os transtornos adictivos envolvem alterações complexas nos sistemas relacionados à motivação, à recompensa, ao estresse e ao controle do comportamento. A psicologia demonstra a importância dos padrões de pensamento, da aprendizagem, das emoções e das relações sociais. As abordagens clínicas oferecem ferramentas para modificar comportamentos, ampliar a autopercepção e desenvolver habilidades de enfrentamento.

    Nenhum desses conhecimentos autoriza reduzir a adicção a uma questão de pensamento negativo, muito menos responsabilizar a pessoa por sua condição apenas porque reclama.

    Entretanto, eles permitem reconhecer a importância de observar como reagimos às dificuldades e como nossas respostas influenciam aquilo que acontece depois.

    Uma família pode aprender a cuidar sem assumir o controle da vida de todos os seus integrantes.

    Uma pessoa em recuperação pode aprender a sentir frustração sem transformar esse sentimento em justificativa para abandonar seus objetivos.

    Um profissional pode aprender a ouvir uma queixa sem desqualificá-la e, ao mesmo tempo, ajudar o paciente a investigar o que pode ser feito com aquilo que está sentindo.

    Uma pessoa que passou anos repetindo a mesma história pode começar a identificar os padrões envolvidos e descobrir novas formas de responder às situações.

    A transformação não acontece porque deixamos de sentir emoções desagradáveis. Ela começa quando conseguimos reconhecê-las, compreender sua origem, avaliar nossas interpretações e escolher respostas mais compatíveis com nossos valores e objetivos.

    Em alguns momentos, será necessário aceitar aquilo que não podemos modificar. Em outros, será preciso estabelecer limites, procurar ajuda, assumir responsabilidades ou enfrentar mudanças difíceis.

    Não existe uma única resposta para todas as situações.

    Existe, porém, uma pergunta que pode ajudar a interromper o automatismo: o que posso compreender e fazer a partir daqui, em vez de apenas repetir o que está errado?

    Talvez o primeiro passo não seja parar de reclamar, mas aprender a escutar o que existe por trás da reclamação.

    Pode haver medo, sobrecarga, tristeza, ressentimento, uma necessidade não atendida ou uma mudança que estamos evitando. Ao reconhecer esses elementos, podemos deixar de tratar a queixa como ponto final e transformá-la em início de uma reflexão.

    A recuperação, seja individual ou familiar, exige mais do que reconhecer os problemas. Exige construir novas formas de enfrentá-los.

    Não controlamos todos os acontecimentos, nem podemos determinar as escolhas dos outros. Podemos, entretanto, ampliar nossa capacidade de perceber, decidir, buscar apoio e agir com responsabilidade.

    É nesse espaço entre a dificuldade e a resposta que se encontra uma parte importante da liberdade humana: a possibilidade de aprender a fazer diferente.

    Para continuar a conversa

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    Referências científicas e leituras recomendadas

    Neurociência da adicção e aprendizagem de hábitos

    Koob, G. F.; Volkow, N. D. (2016). Neurobiology of addiction: a neurocircuitry analysis. The Lancet Psychiatry, 3(8), 760–773. Acessar artigo completo no PubMed Central.

    Volkow, N. D.; Blanco, C. (2023). Substance use disorders: a comprehensive update of classification, epidemiology, neurobiology, clinical aspects, treatment and prevention. World Psychiatry, 22(2), 203–229. Acessar artigo completo.

    Robbins, T. W.; Banca, P.; Belin, D. (2024). From compulsivity to compulsion: the neural basis of compulsive disorders. Nature Reviews Neuroscience, 25, 313–333. Acessar publicação.

    Puccetti, N. A. et al. (2024; publicação em volume de 2025). Worry and rumination elicit similar neural representations: neuroimaging evidence for repetitive negative thinking. Cognitive, Affective, & Behavioral Neuroscience. Acessar artigo.

    Estresse crônico e saúde

    McEwen, B. S. (2017). Neurobiological and Systemic Effects of Chronic Stress. Chronic Stress. Acessar artigo completo no PubMed Central.

    Contágio emocional

    Herrando, C.; Constantinides, E. (2021). Emotional Contagion: A Brief Overview and Future Directions. Frontiers in Psychology, 12, 712606. Acessar artigo completo.

    Codependência e saúde familiar

    Bortolon, C. B. et al. (2016). Family functioning and health issues associated with codependency in families of drug users. Ciência & Saúde Coletiva, 21(1), 101–107. Acessar artigo na SciELO.

    Bortolon, C. B. et al. (2017). Codependência entre famílias de usuários de álcool e outras drogas: de fato uma doença? Debates em Psiquiatria. Consultar revisão da literatura.

    Rushton, C. et al. (2023). The effectiveness of psychosocial interventions for family members impacted by another’s substance use: A systematic review and meta-analysis. Drug and Alcohol Review, 42(4), 960–977. Acessar publicação.

    Terapia Cognitivo-Comportamental e Prevenção à Recaída

    Boness, C. L. et al. (2023). An Evaluation of Cognitive Behavioral Therapy for Substance Use Disorder: A Systematic Review and Application of the Society of Clinical Psychology Criteria for Empirically Supported Treatments. Clinical Psychology: Science and Practice. Acessar artigo completo.

    Larimer, M. E.; Palmer, R. S.; Marlatt, G. A. (1999). Relapse Prevention: An Overview of Marlatt’s Cognitive-Behavioral Model. Alcohol Research & Health, 23(2), 151–160. Acessar artigo completo.

    Entrevista Motivacional e tratamento psicossocial

    Cochrane (2023). Motivational interviewing for substance use reduction. Acessar revisão sistemática.

    Substance Abuse and Mental Health Services Administration — SAMHSA (2023). Treatment Improvement Protocol 65: Counseling Approaches to Promote Recovery From Problematic Substance Use and Related Issues. Consultar capítulo sobre intervenções psicossociais e prevenção de recorrência.

    Doze Passos e recuperação do transtorno por uso de álcool

    Kelly, J. F.; Humphreys, K.; Ferri, M. (2020). Alcoholics Anonymous and other 12-step programs for alcohol use disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews, CD012880. Acessar revisão sistemática.

    TREC/TRE — fundamentos teóricos

    Ellis, A. Emotional Disturbance and Its Treatment in a Nutshell: The ABCs. Material explicativo sobre o modelo ABC da Terapia Racional-Emotiva Comportamental. Consultar documento do Albert Ellis Institute.

    Nota de rigor científico: as referências sobre ruminação, aprendizagem, estresse e contágio emocional ajudam a compreender mecanismos relacionados à reclamação repetitiva, mas não demonstram que reclamar, isoladamente, produza alterações cerebrais específicas ou cause diretamente doenças físicas. As abordagens clínicas citadas possuem fundamentos, objetivos e níveis de evidência distintos; sua aplicação deve considerar o contexto e as necessidades de cada pessoa.

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