Alucinações, paranoia, delírios e agitação intensa podem sinalizar uma complicação psiquiátrica grave. Informação sem estigma, atendimento oportuno e continuidade do cuidado são fundamentais — tanto para atravessar a crise quanto para reduzir o risco de novos episódios.
Editorial | EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas
A cocaína pode alterar profundamente a percepção, o pensamento e o comportamento. Em alguns casos, a intoxicação é acompanhada por alucinações, paranoia ou convicções persecutórias. Quando isso acontece, não estamos diante de uma simples mudança de humor ou de uma pessoa “fora de si”: pode haver uma emergência médica e psiquiátrica que exige avaliação profissional.
Falar sobre psicose associada à cocaína requer dois cuidados. O primeiro é não banalizar os sinais nem adiar a procura por ajuda. O segundo é não reduzir a pessoa à crise, culpá-la pelo adoecimento ou presumir que um episódio significa, por si só, um diagnóstico definitivo de esquizofrenia. A resposta responsável combina segurança, cuidado clínico, respeito à dignidade e atenção ao uso de substâncias que pode estar na origem ou no agravamento do quadro.
O que pode acontecer durante uma crise
A cocaína é um estimulante do sistema nervoso central. Seus efeitos envolvem sistemas cerebrais ligados à dopamina e a outros neurotransmissores e podem afetar o humor, a atenção, o sono, a percepção e o comportamento. A sensação inicial de euforia ou energia pode ser acompanhada por ansiedade intensa, irritabilidade, agitação e desconfiança.
Em algumas circunstâncias, surgem sintomas psicóticos. A pessoa pode ouvir vozes, ver figuras ou movimentos que não estão presentes, interpretar situações comuns como ameaças ou acreditar firmemente que está sendo perseguida, espionada ou atacada. Na literatura clínica, essas manifestações podem fazer parte de um transtorno psicótico induzido por substância, mas a avaliação e o diagnóstico cabem a profissionais habilitados.
Uma manifestação descrita após o uso de cocaína é a formicação: a sensação tátil de que pequenos insetos ou outros agentes estão caminhando sob a pele, sem um estímulo externo correspondente. O sofrimento pode ser intenso e levar a pessoa a coçar, arranhar ou ferir a própria pele na tentativa de remover aquilo que sente.
Juan Juan e Saiz de la Hoya Zamácola, 2018
Delírios persecutórios podem fazer a pessoa sentir-se em perigo e agir para se proteger, fugir ou confrontar alguém. Isso não significa que toda pessoa em psicose se torne agressiva. Significa que o medo, a confusão e a dificuldade de interpretar o que acontece podem criar riscos que precisam ser avaliados com cuidado.
Agitação psicomotora, fala acelerada, hipervigilância, confusão e dificuldade para organizar pensamentos também podem ocorrer. Uma alteração importante da atenção ou da consciência pode indicar delirium ou outra emergência médica, e não deve ser atribuída automaticamente à cocaína sem avaliação. Outras substâncias e condições clínicas podem produzir sintomas semelhantes.
Nem toda pessoa que usa cocaína desenvolverá psicose. E a ocorrência de sintomas psicóticos durante ou após o consumo não determina, por si só, que a pessoa tenha esquizofrenia ou outro transtorno psicótico primário. A relação temporal com a substância é relevante, mas não substitui uma avaliação completa da história clínica e da evolução dos sintomas.
Tang, Martin e Cotes, 2014
Não é preciso esperar anos de consumo
A psicose associada à cocaína não acontece somente depois de muitos anos de uso. Sintomas podem surgir durante episódios de intoxicação, inclusive em períodos de uso intenso ou repetido. A quantidade e a frequência do consumo são importantes, mas não explicam sozinhas quem terá uma crise.
Revisões científicas apontam fatores associados a maior vulnerabilidade, como idade de início e duração do consumo, quantidade utilizada, via de administração, privação de sono, uso de outras substâncias e histórico pessoal ou familiar de sintomas psicóticos. Algumas pesquisas também observaram associações com condições como TDAH e transtorno de personalidade antissocial. Essas relações são possíveis fatores de risco, não previsões individuais: ter um diagnóstico ou histórico familiar não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá psicose.
Roncero et al., 2012
Roncero et al., 2014
A privação de sono merece atenção. Longos períodos sem dormir, que podem acompanhar episódios de consumo repetido, prejudicam a atenção, a regulação emocional e o funcionamento cognitivo. Combinada a estimulantes e a outras substâncias, a falta de sono pode tornar a situação ainda mais complexa.
Esses fatores ajudam a compreender a vulnerabilidade, mas não autorizam uma leitura determinista. Não há como prever com certeza, apenas com base neles, quem terá sintomas psicóticos.
Quanto tempo dura e o que se sabe sobre a evolução
Não existe uma duração única para a psicose associada à cocaína. Em algumas pessoas, os sintomas diminuem conforme a intoxicação se resolve e o cuidado adequado é iniciado. Em outras, podem persistir por dias ou mais tempo e exigir acompanhamento médico e psiquiátrico. A evolução depende, entre outros fatores, da gravidade do episódio, do padrão de consumo, da privação de sono, de outras substâncias e das condições clínicas e psiquiátricas da pessoa.
Uma melhora inicial não elimina a necessidade de acompanhamento. Sintomas podem reaparecer em novos episódios de consumo, e manifestações que persistem após a intoxicação exigem investigação de outras causas, incluindo transtornos psicóticos primários e condições médicas. Não se deve, porém, esperar vários dias para procurar ajuda diante de alucinações, paranoia intensa, confusão ou agitação importante.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 na revista Schizophrenia Research analisou 27 estudos, com aproximadamente 33.500 pessoas com transtornos psicóticos induzidos por diferentes substâncias. Os períodos de acompanhamento variaram de um mês a 15,5 anos. Os autores encontraram trajetórias diversas: algumas pessoas tiveram remissão, enquanto outras apresentaram sintomas persistentes ou evolução para quadros psicóticos crônicos. Sintomas negativos mais proeminentes e funcionamento prévio comprometido estiveram entre os fatores associados a evolução menos favorável.
Essa revisão não estudou apenas psicose induzida por cocaína. Seus resultados não permitem calcular a probabilidade individual de uma pessoa com psicose cocaínica desenvolver esquizofrenia. A conclusão prudente é que a persistência dos sintomas precisa ser investigada e acompanhada — não que toda crise cause dano cerebral permanente ou leve a um transtorno crônico.
Ricci et al., 2026
Diferenciar não é rotular
Psicose induzida pela cocaína e esquizofrenia podem compartilhar sintomas, como alucinações, delírios e desorganização do pensamento. Para diferenciá-las, profissionais consideram quando os sintomas começaram, como se relacionam com o consumo e o que acontece após a interrupção, além do histórico de saúde mental e do funcionamento anterior da pessoa.
O uso de cocaína pode coexistir com um transtorno psiquiátrico anterior, assim como sintomas iniciados durante um episódio de consumo podem exigir acompanhamento para esclarecer sua evolução. Por isso, não é adequado concluir que todo sintoma se deve exclusivamente à droga — nem atribuir automaticamente um transtorno psicótico primário a alguém que teve uma crise após usar cocaína. A avaliação pode precisar ser longitudinal, acompanhando a pessoa ao longo do tempo.
Esse cuidado com o diagnóstico não deve servir de motivo para adiar atendimento. Pelo contrário: avaliar cedo ajuda a tratar a crise, investigar possíveis causas e evitar que sofrimento ou riscos imediatos sejam ignorados.
Quando a prioridade é a emergência
Uma crise relacionada à cocaína pode envolver riscos psiquiátricos e físicos. A intoxicação por estimulantes pode estar associada a taquicardia, aumento perigoso da pressão arterial, dor no peito, temperatura corporal muito elevada, convulsões e outras complicações potencialmente fatais. Confusão, psicose, risco de suicídio ou comportamento que coloque alguém em perigo também podem exigir avaliação urgente.
A diretriz clínica conjunta da American Society of Addiction Medicine (ASAM) e da American Academy of Addiction Psychiatry (AAAP), publicada em 2024, recomenda avaliar a gravidade e as complicações médicas e psiquiátricas. Para profissionais, a diretriz orienta estratégias de desescalada verbal e não verbal, avaliação médica e de saúde mental e tratamento clínico apropriado. A medicação para agitação ou psicose deve ser decidida e administrada por profissionais, conforme a situação — não por familiares ou conhecidos.
Diretriz ASAM/AAAP, 2024
No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo 192 em situações de urgência e emergência. O serviço é gratuito, funciona 24 horas e pode orientar quem liga e enviar atendimento conforme a avaliação da central. Também é possível procurar uma UPA 24 horas ou um pronto-socorro, de acordo com a gravidade. Dor no peito, dificuldade para respirar, convulsões, temperatura muito elevada, perda de consciência ou perigo imediato exigem ajuda sem demora.
Ministério da Saúde — SAMU 192
Enquanto a ajuda é providenciada, priorize a segurança. Se for seguro, mantenha o ambiente mais calmo, reduza ruídos e o número de pessoas ao redor e fale de forma clara e tranquila. Evite discutir agressivamente sobre delírios, ameaçar, provocar ou fazer movimentos bruscos. É possível reconhecer o medo da pessoa sem confirmar como verdadeira uma perseguição imaginada: “Vejo que você está assustado. Vamos procurar ajuda para que fique em segurança”.
Não tente conter fisicamente a pessoa nem administrar sedativos, antipsicóticos ou outros medicamentos por conta própria. Não permita que alguém desorientado ou intoxicado dirija. Se houver arma, risco de agressão ou qualquer situação que ameace a segurança, afaste-se se necessário e chame ajuda profissional. As orientações de familiares não substituem a avaliação e a intervenção de equipes de emergência.
A crise precisa de cuidado depois que passa
O atendimento não deve se encerrar necessariamente quando os sintomas agudos diminuem. Para reduzir o risco de novos episódios, é importante avaliar também o padrão de consumo, suas consequências, as condições de saúde física e mental e as circunstâncias sociais que afetam a continuidade do cuidado.
O transtorno por uso de cocaína pode envolver perda de controle, desejo intenso de consumir e continuidade do uso apesar de consequências negativas. Após a estabilização, a equipe pode organizar acompanhamento psiquiátrico, tratamento para o uso de substâncias, intervenções psicossociais e apoio à família. As opções dependem de uma avaliação individual e dos recursos disponíveis. Comorbidades, como transtornos de humor, ansiedade, TDAH e transtornos psicóticos, devem ser consideradas sem presumir que todas as dificuldades se expliquem pelo uso da droga.
A diretriz ASAM/AAAP recomenda cuidado que considere necessidades médicas e psiquiátricas associadas e intervenções com respaldo científico. Sempre que possível, o atendimento deve ser coordenado entre os profissionais e serviços envolvidos, para que a crise aguda não seja tratada de forma isolada do restante da vida da pessoa.
No SUS, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) acolhem pessoas em intenso sofrimento psíquico e oferecem acompanhamento multiprofissional. Os CAPS AD são voltados a situações relacionadas ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. O acesso pode ocorrer por procura direta, sem necessidade de encaminhamento para o primeiro acolhimento; a disponibilidade e a modalidade dos serviços variam conforme o município. Unidades Básicas de Saúde também podem orientar sobre a rede local.
Ministério da Saúde — CAPS
UPAs e prontos-socorros atendem situações agudas; o SAMU 192 pode ser acionado quando há uma emergência que exige atendimento pré-hospitalar. Os Centros de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) oferecem orientação sobre intoxicações, mas contatos e serviços variam por região.
Ministério da Saúde — CIATox
Grupos de ajuda mútua podem compor uma rede de apoio, mas não substituem avaliação médica durante uma crise psicótica nem tratamento especializado quando necessário. O Disque 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), oferece apoio emocional; não é serviço toxicológico nem de emergência médica. Em psicose aguda ou perigo imediato, a prioridade é o SAMU 192 ou um serviço de urgência.
Cuidar também é combater o estigma
Informar sobre os riscos da cocaína não significa tratar a dependência como falha moral ou resumir a pessoa a um comportamento. Psicose é uma experiência que pode causar medo e sofrimento e requer cuidado especializado. A resposta deve preservar a segurança sem apagar a dignidade de quem precisa de ajuda.
Familiares, educadores e profissionais podem contribuir quando reconhecem alterações importantes de percepção, delírios persecutórios, confusão ou agitação intensa e sabem que esses sinais justificam encaminhamento. Conhecimento técnico não substitui atendimento especializado, mas pode reduzir atrasos, evitar atitudes que agravem a crise e facilitar o acesso à rede de saúde.
A posição do EducaDQ é clara: psicose associada à cocaína não deve ser banalizada, mas a pessoa que a vivencia também não deve ser reduzida ao diagnóstico ou ao uso de drogas. Reconhecer os sinais, buscar assistência em tempo oportuno e garantir acompanhamento depois da crise são passos essenciais para proteger a saúde e abrir possibilidades de recuperação. Informação confiável, acolhimento sem estigma e acesso a serviços preparados para cuidar precisam caminhar juntos.
Referências científicas e institucionais
1. Sabe M, Zhao N, Kaiser S. “A systematic review and meta-analysis of the prevalence of cocaine-induced psychosis in cocaine users.” Progress in Neuro-Psychopharmacology & Biological Psychiatry. 2021;109:110263. DOI: 10.1016/j.pnpbp.2021.110263.
2. Tang YL, Martin NL, Cotes RO. “Cocaine-induced psychotic disorders: presentation, mechanism, and management.” Journal of Dual Diagnosis. 2014. DOI: 10.1080/15504263.2014.906133.
3. Roncero C et al. “An international perspective and review of cocaine-induced psychosis: a call to action.” Substance Abuse. 2014;35(3):321–327. DOI: 10.1080/08897077.2014.933726.
4. Ricci V et al. “From substance-induced psychosis to schizophrenia: Predictors of treatment response and transition to chronic psychotic illness — a systematic review.” Schizophrenia Research. 2026;295:292–316. DOI: 10.1016/j.schres.2026.02.022.
5. ASAM/AAAP. The ASAM/AAAP Clinical Practice Guideline on the Management of Stimulant Use Disorder. 2024. Texto integral.
6. Ministério da Saúde. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Informações oficiais.
7. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192. Informações oficiais.
8. Ministério da Saúde. Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox). Informações oficiais.
9. Roncero C, Ros-Cucurull E, Daigre C, Casas M. “Prevalence and risk factors of psychotic symptoms in cocaine-dependent patients.” Actas Españolas de Psiquiatría. 2012;40(4):187–197. PubMed.
10. Juan Juan C, Saiz de la Hoya Zamácola P. “Prickling or Formication after the use of cocaine.” Revista Española de Sanidad Penitenciaria. 2018;20(2):70–72. Texto integral.
Editorial de divulgação científica do EducaDQ. O conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica ou psiquiátrica. Diante de sintomas psicóticos agudos, intoxicação grave ou risco imediato, procure atendimento de emergência.