Autor: Antonio Conforti

  • As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano: resenha

    As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano: resenha

    LEITURAS OBRIGATÓRIAS · RESENHA CRÍTICA

    Uma leitura de Eduardo Galeano sobre a riqueza latino-americana, o trabalho e as relações de poder.

    Um continente contado pelos ciclos de riqueza

    As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, percorre a história do continente pelas relações entre recursos, trabalho e poder. Com uma narrativa que avança da colonização aos acontecimentos políticos e econômicos do século XX, o autor acompanha a trajetória das riquezas latino-americanas e os caminhos que elas percorreram.

    Mineração, açúcar, café, petróleo e outros produtos aparecem como pontos de partida para observar quem controla os recursos, organiza o trabalho e participa da riqueza produzida. Galeano conecta ciclos econômicos a decisões políticas e às condições de vida de povos e trabalhadores em diferentes regiões da América Latina.

    Essa escala continental dá unidade a episódios e períodos diversos. O olhar se desloca entre territórios, produtos e disputas, formando uma leitura sobre exploração, dependência e soberania que alcança gerações de leitores.

    Prosa que aproxima economia e experiência humana

    A escrita de Galeano combina análise histórica, reflexão econômica e linguagem literária. Sínteses incisivas, imagens e cenas históricas aproximam grandes estruturas das vidas atravessadas por elas. A leitura transforma a história econômica em narrativa humana e mantém em primeiro plano as pessoas que produziram a riqueza do continente.

    O tom lírico e amargo acompanha a denúncia e dá força à voz do livro. Galeano articula informação e emoção em uma prosa que convida a seguir as conexões entre recursos naturais, trabalho, decisões políticas e destinos coletivos.

    Memória histórica e perguntas do presente

    Ao relacionar ciclos econômicos e poder político, As veias abertas da América Latina oferece uma perspectiva para pensar questões que atravessam a vida pública do continente: como se distribuem as riquezas, quem decide os rumos do desenvolvimento e como a história participa da construção das desigualdades.

    Para estudantes, educadores e leitores interessados em história e cidadania, a obra amplia o repertório sobre a formação latino-americana. Para profissionais do cuidado, da saúde mental e do desenvolvimento humano, oferece contexto histórico e social para compreender as condições de vida e as desigualdades que atravessam comunidades.

    A leitura também abre espaço para conversas sobre memória, soberania, direitos e dignidade. O percurso de Galeano ajuda a ligar processos históricos a perguntas atuais sobre o continente e seus caminhos.

    Uma leitura para ampliar horizontes

    Ler Eduardo Galeano é percorrer uma narrativa de grande alcance sobre a América Latina e acompanhar uma obra que marcou o pensamento social do continente. Seu livro reúne história, economia e literatura em uma leitura que estimula a curiosidade e convida a observar as relações entre riqueza, poder e vida coletiva.

    As veias abertas da América Latina segue como uma leitura importante para quem deseja conhecer a história do continente e ampliar a conversa sobre cidadania, desenvolvimento e valorização da vida humana.

    Referência bibliográfica

    GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 2010. 397 p. Coleção L&PM Pocket, v. 900. ISBN 978-85-254-2081-7.

    Fontes e créditos

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  • Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex: memória e dignidade

    Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex: memória e dignidade

    LEITURAS OBRIGATÓRIAS · RESENHA CRÍTICA

    Por que a obra de Daniela Arbex continua necessária para compreender o passado e pensar o presente.

    Uma história que não pode ser reduzida a números

    O que acontece quando uma instituição criada para cuidar passa a afastar, silenciar e controlar pessoas? Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, conduz o leitor a essa pergunta ao reconstruir a história do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, e das pessoas submetidas à internação naquele espaço.

    Publicado originalmente em 2013 e relançado pela Intrínseca em 2019, o livro-reportagem combina pesquisa documental, depoimentos e trajetórias individuais. Seu valor está tanto na denúncia de violações quanto no esforço de devolver dimensão humana a uma história que, contada apenas por estatísticas, correria o risco de repetir a despersonalização que descreve.

    O Hospital Colônia foi inaugurado em 1903 como instituição pública de assistência psiquiátrica; a denominação hospital-colônia passou a ser usada a partir de 1911. Ao longo do século XX, o local tornou-se símbolo de superlotação, abandono e violência institucional. A investigação de Arbex também mostra que a população internada não era composta apenas por pessoas com diagnóstico psiquiátrico: havia quem fosse encaminhado por pobreza, preconceitos morais, condições sociais ou comportamentos considerados inadequados em sua época. A investigação mostra como a internação também foi usada como mecanismo de exclusão social, além de sua finalidade clínica.

    Como a reportagem transforma apuração em memória

    Arbex aproxima a história institucional de relatos e vidas concretas. A alternância entre documentos, testemunhos e personagens ajuda a compreender que uma tragédia coletiva não é uma abstração: é feita de pessoas, vínculos e projetos interrompidos. Esse recurso narrativo dá ao livro força de leitura e amplia seu alcance para além de um público especializado.

    Daniela Arbex documenta no livro 60 mil mortes no Hospital Colônia.

    O que Barbacena pergunta ao presente

    A memória do Colônia permanece relevante porque a história ajuda a formular perguntas que continuam necessárias: as pessoas atendidas conhecem seus direitos? Há escuta, privacidade e possibilidade de participação nas decisões? Existem fiscalização e canais seguros de denúncia? A autoridade profissional está submetida a limites éticos e legais?

    A Lei nº 10.216/2001 afirma direitos das pessoas com transtornos mentais, incluindo tratamento humano e respeitoso, proteção contra abusos e uso dos meios menos invasivos possíveis. A lei estabelece que a internação psiquiátrica só deve ocorrer quando os recursos extra-hospitalares forem insuficientes e determina que o tratamento tenha como finalidade permanente a reinserção social.

    Em 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais reconheceu publicamente a aquisição, no século XX, de cadáveres provenientes de Barbacena para atividades de ensino e apresentou um pedido de desculpas.

    Para profissionais da saúde mental e da área da dependência química, estudantes, educadores, gestores, familiares e leitores em geral, a obra apresenta a história de uma instituição e das pessoas que passaram por ela. Ela convida a observar como classificações, rotinas e omissões podem retirar de alguém a condição de sujeito. O livro mostra que a dignidade no cuidado se revela nas ações concretas, nos direitos preservados e na possibilidade de responsabilização.

    Uma leitura para lembrar e não repetir

    Holocausto Brasileiro é uma leitura essencial para quem deseja conhecer um capítulo doloroso da história brasileira e refletir sobre as responsabilidades envolvidas no cuidado. Ao reunir apuração, memória e vidas individuais, Daniela Arbex permite ao leitor conhecer as consequências da exclusão e reconhecer práticas que, em diferentes épocas, retiram a dignidade de pessoas.

    Ler Daniela Arbex é conhecer a história do Hospital Colônia e as pessoas que passaram por ele. Lembrar esse passado ajuda a identificar riscos, proteger direitos e construir formas de cuidado mais humanas no presente e no futuro.

    Referência bibliográfica

    ARBEX, Daniela. Holocausto brasileiro. Prefácio de Eliane Brum. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. 280 p. ISBN 978-85-510-0463-0. Publicado originalmente em 2013 pela Geração Editorial.

    Fontes e créditos

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  • A adicção, a recuperação e o presente de cada 24 horas

    Um olhar pessoal sobre autoconhecimento, irmandade e a possibilidade de transformar a dor em caminho de crescimento.

    Editorial | EducaDQ — Centro de Formação e Estudos sobre Álcool e Outras Drogas

    Por Antonio Conforti, terapeuta

    Texto original escrito em 18 de maio de 2023. Atualizado em 21 de outubro de 2026.

    Quando compreendi que a doença da adicção — tantas vezes colocada, de forma equivocada, na vala comum da expressão “dependência química” — não era uma maldição, mas uma bênção na minha vida, o caminho da recuperação ficou mais leve, mais agradável e mais prazeroso.

    Não escrevo isso como uma regra para todos. Escrevo porque é o que sinto e porque essa é a maneira como enxergo a minha própria história. Para mim, a adicção se tornou uma oportunidade acelerada de evolução. Quando compreendemos, nos rendemos e entramos em recuperação, começamos uma jornada profunda de autoconhecimento e transformação.

    Acredito que o remédio que estabiliza a adicção é o trabalho que fazemos sobre nós mesmos: olhar para dentro, reconhecer nossas atitudes e nos empenhar para nos tornarmos seres humanos melhores. A recuperação nos convida a refletir sobre o dia que passou — sobre nossas escolhas, conquistas e falhas — para que possamos aprender e não repetir aquilo que nos faz mal ou fere outra pessoa.

    Às vezes penso: como seria bom se todos os seres humanos tivessem a oportunidade de fazer essa reflexão diária. Como seria bom se todos pudessem contar com uma irmandade, um espaço para desabafar e se reconhecer no outro sem preconceitos, diante de pessoas que compartilham experiências e desejam melhorar como seres humanos, guiadas pela empatia e pelo amor.

    A irmandade, os princípios que orientam a recuperação e a disposição de viver um dia de cada vez me ensinaram a importância de olhar para mim com honestidade e, ao mesmo tempo, reconhecer humanidade nos outros. É nesse encontro — com meus iguais e comigo mesmo — que encontro força para continuar mudando.

    Viveríamos em um mundo bem melhor.

    Obrigado, meu Poder Superior, pelo presente que é a adicção e pela possibilidade de viver em recuperação.

    Mais 24 horas de serena sobriedade a todos.

    Edit 1 – Continuar, apesar das dificuldades

    Com todas as dificuldades e com as pessoas sem princípios que, por vezes, cruzam meu caminho; com a falta de honra, profissionalismo e compromisso que encontro em algumas situações no meio de quem trabalha com dependência química, eu não desisto.

    Não trabalho em busca de reconhecimento ou aplausos. Trabalho para recuperar vidas. E não importa se esse trabalho acontece da janela do meu computador, em uma conversa na rua, por telefone ou por aplicativos de mensagens; em uma clínica ou em uma comunidade terapêutica, em um espaço simples ou mais estruturado. Em cada oportunidade, procuro oferecer o meu melhor aos meus iguais.

    Faço isso orientado pelos princípios que norteiam a minha recuperação. Antes de ser terapeuta, sou um ser humano como qualquer outro. Carrego dentro de mim a mesma doença que nos nivela. Não sou melhor nem pior do que ninguém: sou apenas um ser humano, em recuperação, tentando fazer a minha parte.

    Edit 2 — 40 semanas depois

    Vale a pena viver em sobriedade. A recuperação pode nos levar a caminhos que nunca sonhamos trilhar.

    Edit 3 — 21 de outubro de 2026

    Hoje, ao voltar a este texto, reafirmo tudo o que escrevi. Fico feliz em reencontrar essa linha de raciocínio que me mantém em sobriedade há anos e que me permite, agora, editar este conteúdo para publicá-lo no site do EducaDQ.

    Espero que esta mensagem de fé, força e esperança alcance cada vez mais pessoas. Que possa lembrar a quem estiver no caminho da recuperação que vale a pena continuar, um dia e 24 horas de cada vez.

    Mais 24 horas de serena sobriedade.

  • Annie C. Meyers: oito anos no inferno da cocaína e o testemunho de uma mulher que ajudou a mudar a história da dependência química

    Antes de a dependência química ocupar o espaço que conhecemos hoje nos debates sobre saúde pública, uma mulher transformou sua própria tragédia em um dos primeiros grandes testemunhos autobiográficos sobre o poder destrutivo das drogas.

    Em 1902, nos Estados Unidos, uma mulher publicou um relato que rompia com o silêncio e os julgamentos de sua época. Seu nome era Annie C. Meyers, e seu livro, Eight Years in Cocaine Hell — Oito Anos no Inferno da Cocaína, em tradução livre — narrava a trajetória de uma mulher que, após iniciar o consumo de um produto medicinal contendo cocaína, viu sua vida desmoronar progressivamente.

    Mais de um século depois, sua história continua relevante para quem estuda dependência química, prevenção, tratamento e recuperação.

    De mulher respeitada à devastação provocada pela cocaína

    Annie Meyers era uma viúva de Chicago, pertencente a um círculo social privilegiado. Em meados da década de 1890, após sofrer com um resfriado, passou a utilizar um preparado medicinal para problemas nasais que continha cocaína.

    Naquele período, a substância era encontrada em diversos produtos comercializados legalmente, muitas vezes acompanhada de promessas terapêuticas que minimizavam seus riscos. O conhecimento sobre os mecanismos da dependência e suas consequências ainda estava longe do que a ciência desenvolveria posteriormente.

    O consumo de Meyers evoluiu para uma dependência devastadora. Ela perdeu seus recursos financeiros, passou a cometer furtos e fraudes para sustentar o uso da substância e enfrentou prisões, deterioração física e profundo comprometimento de sua vida social.

    Seu relato descreve uma degradação que atingiu a saúde, a autonomia e a própria dignidade. Um dos episódios mais impressionantes envolve a extração de um dente de ouro, realizada por ela mesma, para vender o metal e conseguir dinheiro para continuar consumindo cocaína.

    Não se trata de uma história que deva ser lida apenas pelo choque provocado por seus episódios extremos. O que torna esse testemunho historicamente relevante é a possibilidade de observar, pela perspectiva da própria pessoa que vivenciou o problema, como o consumo compulsivo pode reorganizar prioridades, comportamentos e decisões em torno da obtenção da substância.

    Uma mulher que rompeu o silêncio

    Publicado pela St. Luke Society, em Chicago, em 1902, Eight Years in Cocaine Hell é reconhecido como um dos primeiros relatos autobiográficos extensos de uma mulher sobre a própria dependência de drogas.

    Meyers não escreveu de fora, como uma médica que observava uma paciente, um jornalista que descrevia um caso policial ou um moralista que condenava determinado comportamento. Ela escreveu a partir da experiência vivida.

    Essa diferença é fundamental.

    Na virada do século XIX para o XX, pessoas com problemas relacionados ao uso de substâncias eram frequentemente apresentadas por meio de categorias morais, religiosas, médicas ou criminais. A voz da própria pessoa que vivenciava a dependência nem sempre recebia o mesmo espaço.

    Ao narrar sua trajetória, Meyers contribuiu para inaugurar uma forma de testemunho que transformava a experiência individual em documento social: a pessoa que sofreu com a dependência passava também a ser autora de uma narrativa sobre ela.

    Seu livro estabeleceu um precedente importante para a literatura autobiográfica sobre drogas, sofrimento e recuperação. A experiência pessoal deixava de ser apenas um episódio privado e passava a integrar o debate público.

    Essa contribuição merece atenção especial porque veio de uma mulher, em uma época na qual as possibilidades de participação feminina na produção intelectual e nos debates públicos eram mais limitadas.

    O impacto sobre a sociedade norte-americana

    A história de Meyers surgiu em um período de crescente preocupação com os efeitos do consumo de cocaína nos Estados Unidos. A substância, antes amplamente celebrada por suas aplicações médicas e comerciais, começava a ser associada a quadros graves de dependência, danos físicos e consequências sociais.

    Em 1902, ano da publicação do livro, a Geórgia adotou uma proibição da venda de cocaína. Nos anos seguintes, diferentes iniciativas estaduais e federais ampliaram o controle sobre substâncias psicoativas. Entre os marcos desse processo estão a legislação federal sobre alimentos e medicamentos de 1906 e a Lei Harrison, de 1914, que passou a regular a distribuição de cocaína e determinados opiáceos.

    É necessário reconhecer que essas mudanças resultaram de múltiplos fatores: evidências médicas, mobilização política, preocupações sanitárias, interesses econômicos e discursos sociais sobre drogas. Não há base suficiente para atribuir a Annie Meyers, individualmente, a aprovação dessas leis.

    Ainda assim, seu testemunho integra o conjunto de registros históricos que tornaram visíveis as consequências do consumo problemático de cocaína. Seu caso também evidencia uma contradição daquele período: uma substância comercializada como recurso terapêutico podia contribuir para a destruição da saúde e da autonomia de quem a utilizava.

    Sua relevância histórica está, portanto, tanto no que viveu quanto no fato de ter registrado publicamente essa experiência.

    Recuperação: uma trajetória que não terminou na destruição

    A narrativa de Meyers não se encerra na deterioração física e social. Ela conseguiu se recuperar com o auxílio de sua irmã e do trabalho de apoio desenvolvido pela St. Luke Society, instituição que também incentivou a publicação de seu relato.

    Esse desfecho é particularmente importante.

    A dependência química não deve ser compreendida exclusivamente a partir dos comportamentos mais graves que pode produzir. A história de uma pessoa não se resume aos danos que sofreu, aos erros que cometeu ou às consequências de seu consumo.

    A recuperação de Meyers mostra que, mesmo após uma trajetória de perdas profundas, a reconstrução da vida pode ser possível quando existe apoio.

    Sua experiência também nos convida a refletir sobre a importância das redes de suporte, do acolhimento e de respostas que ultrapassem a simples condenação moral. A recuperação não apaga o sofrimento vivido, mas abre a possibilidade de uma história que não termina nele.

    O legado para a dependência química e a literatura de recuperação

    Ao longo do século XX, relatos pessoais de pessoas que enfrentaram a dependência química passaram a ocupar um lugar importante na educação, na prevenção, na mobilização social e na compreensão dos processos de recuperação.

    Essas narrativas podem aproximar o conhecimento técnico da realidade vivida. Elas permitem compreender aspectos que estatísticas e classificações diagnósticas, isoladamente, não conseguem transmitir com a mesma profundidade: a progressão das perdas, os conflitos internos, a relação com a substância, a ruptura dos vínculos e as possibilidades de reconstrução.

    Annie C. Meyers foi uma precursora desse caminho.

    O testemunho autobiográfico pode combater a invisibilidade, questionar explicações simplistas e ampliar a compreensão pública sobre a dependência. Quando apresentado com responsabilidade, também pode contribuir para que outras pessoas reconheçam riscos, procurem ajuda e compreendam que a recuperação não precisa ser uma possibilidade distante.

    Por que precisamos resgatar essa história?

    Mais de 120 anos após a publicação de Eight Years in Cocaine Hell, a história de Annie Meyers permanece atual.

    Ainda convivemos com o estigma dirigido às pessoas que desenvolvem dependência química. Ainda encontramos interpretações que reduzem um fenômeno complexo à falta de caráter, à fraqueza moral ou à ausência de força de vontade. E ainda precisamos construir espaços nos quais a informação científica, a responsabilidade profissional e a experiência humana possam dialogar.

    Resgatar Annie Meyers não significa romantizar sua trajetória, transformar sofrimento em espetáculo ou atribuir a uma única mulher mudanças históricas que dependeram de muitos atores sociais.

    Significa reconhecer que, em 1902, uma mulher teve a coragem de registrar sua própria experiência com a cocaína e permitir que o mundo conhecesse uma realidade que muitas vezes permanecia escondida atrás do preconceito e da condenação.

    Annie C. Meyers não foi apenas personagem de uma história de dependência. Foi autora de um testemunho pioneiro sobre ela.

    E essa talvez seja sua contribuição mais duradoura: demonstrar que uma experiência pessoal, quando transformada em relato, pode atravessar gerações, alimentar a reflexão coletiva e ajudar a construir uma compreensão mais humana sobre a dependência química.

    Porque, para além das substâncias, dos diagnósticos e das estatísticas, existe sempre uma pessoa. E ouvir sua história pode ser um dos primeiros passos para compreender aquilo que os números, sozinhos, não conseguem contar.


    Referência histórica principal

    MEYERS, Annie C. Eight Years in Cocaine Hell. Chicago: Press of the St. Luke Society, 1902. Obra autobiográfica posteriormente republicada em edição moderna pela Dean Street Press, em 2016.

  • PROFISSIONAIS DE SAÚDE MENTAL DEVEM TER UM LADO:

    O DO SER HUMANO.

    Quando o sofrimento humano entra em conflito com interesses políticos, ideologias ou disputas de poder, é a nossa ética que deve orientar nossas escolhas.

    Nosso compromisso é com a vida, a dignidade humana, os direitos dos pacientes e o acesso a um atendimento digno, responsável e fundamentado em evidências científicas.

    Não podemos fechar os olhos para a falta de vagas, ignorar famílias desesperadas, naturalizar filas intermináveis ou defender políticas públicas sem avaliar seus resultados na vida real.

    A ética profissional exige responsabilidade, coerência, pensamento crítico e coragem para reconhecer falhas, questionar estruturas e cobrar soluções, independentemente de quem esteja no poder.

    Se uma política funciona, devemos reconhecer. Se falha, precisamos apontar. Se faltam recursos, devemos cobrar. Se existem práticas inadequadas, temos o dever de enfrentá-las.

    Pacientes não são instrumentos de disputas ideológicas. São seres humanos que merecem respeito, cuidado e oportunidades reais de recuperação.

    Quem trabalha na saúde mental precisa estudar, ouvir diferentes perspectivas e defender aquilo que efetivamente contribui para o bem-estar humano. Nossa lealdade profissional deve ser orientada pela ética, pela ciência, pela dignidade humana e pelo compromisso com aqueles que precisam de ajuda.

    Antes de defender uma bandeira, precisamos olhar nos olhos de quem sofre. Antes de repetir um discurso, precisamos conhecer a realidade. Antes de julgar, precisamos compreender. E antes de exigir que os outros pensem como nós, precisamos desenvolver a capacidade de pensar por nós mesmos.

    A saúde mental não pode ser refém de disputas políticas. A ética não pode ser seletiva. E o sofrimento humano não pode ser ignorado quando contraria nossas convicções.

    Que nunca nos faltem conhecimento para compreender, ética para decidir, coragem para questionar e humanidade para cuidar.

    Antonio Conforti | EducaDQ

    Aqui formamos pensadores, não seguidores.

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